Festival de Berlim confirmou sua preocupação política

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Publicado terça-feira, 3 de março de 2020 as 18:25, por: CdB

O Festival Internacional de Cinema de Berlim, encerrado no domingo, confirmou sua natureza política. O Urso de Ouro concedido ao filme iraniano Não há Nenhum Mal, de Mohammad Rasoulof, deixou clara essa preocupação. O filme brasileiro Todos os Mortos poderia ser uma opção, se não houvesse o filme iraniano, porém não conseguiu ter a penetração esperada junto à crítica e nem junto ao júri, mesmo se ali havia um brasileiro, para obter algum prêmio.

Rui Martinsde Berlim, convidado pelo 70. Festival Internacional de Cinema

Uma visão geral do que foi o festival Internacional de Cinema de Berlim

Teremos de nos habituar à uma nova realidade: com as atuais dificuldades criadas aos produtores de filmes haverá, a partir de agora, uma diminuição de títulos brasileiros nos festivais. Mas é verdade que, a exemplo do que aconteceu durante os anos da ditadura militar, os filmes brasileiros terão apoio no exterior seja dos festivais, como de distribuidores e da imprensa.

O balanço final desta Berlinale é magro para o Brasil: dos 18 filmes levados às diversas mostras, só um foi premiado, Meu Nome é Bagdá, da cineasta Caru Alves de Souza, na mostra Geração 14Mais. Porém, o público lotou geralmente as salas com filmes brasileiros.

Foi o caso do filme de adolescentes, também na mostra Geração 14Mais, Alice Júnior, onde houve standing ovation, no cine Urania, por mais de cinco minutos. Dirigido por Gil Baroni e já com sucesso no Brasil, tem no papel principal Anne Celestino Motta, a vida e alma do filme, no papel da trans Alice, na verdade Jean Genet no registro civil.

Os filmes focando histórias LGTBG terão ainda maiores dificuldades para realização no Brasil, dada a homofobia e transfobia declaradas do presidente Bolsonaro e dos pastores evangélicos.

O amor na classe operária

Um filme francês não premiado, me chamou bastante a atenção: foi o Sal das Lágrimas, do realizador Philippe Garrel. Histórias de amor em preto e branco de um jovem do interior da França, Luc, vivido por Logann Antuofermo, um novo ator que surge.

A importância desse filme é a de mostrar um quadro operário. Luc é filho de um carpinteiro que deseja se aperfeiçoar na marcenaria e vai a Paris, para um curso de aperfeiçoamento. Mostra a vida e as dificuldades do pessoal que trabalha sem as lantejoulas dos filmes americanos, nos quais amor vem geralmente misturado com personagens de classe média para cima.

O Sal das Lágrimas é um filme romântico à maneira dos anos 50/60, no estilo de filmes de Godard e Truffaut, incluindo mesmo o triangulo amoroso consentido. Mas nossa época não está para o romantismo e muito menos para amores entre operários. Passou despercebido.

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Um crime contra o cinema, diz atriz portuguesa em Berlim

Atriz portuguesa no filme Todos os Mortos, Leonor Silveira define “como um crime, como uma vergonha mundial” o que o governo Bolsonaro está fazendo contra o cinema no Brasil. A declaração foi feita ao Brasil de Fato, durante o Festival Internacional de Cinema de Berlim.

Leonor Silveira, atriz portuguesa descoberta por Manoel de Oliveira, um dos maiores cineastas portugueses, deu um salto em sua carreira, atravessou o Atlântico e foi filmar no Brasil. Ela faz parte do elenco de nove mulheres do filme Todos os Mortos, na competição internacional do Festival de Cinema de Berlim.

A presença de Leonor Silveira no filme dos brasileiros Caetno Gotardo e Marco Dutra, foi importante, pois Todo os Mortos lembra uma época em que o Brasil era ainda bastante próximo de Portugal, fazia apenas dez anos a proclamação da República, logo depois de ter acabado a escravatura dos descendentes dos negros levados da África.

Um crime e uma vergonha

Para Leonor Silveira, o que está ocorrendo hoje no Brasil, com o corte de subvenções ao cinema, “é um crime e uma vergonha mundial. Tenho pena por não perceberem o mal que estão a fazer ao Brasil. Mas também sei que foram se meter com quem não deviam, porque artista tem resistência como diz a Sara Silveira, para continuar a criar. E o artista brasileiro é muito bom em todas as áreas. E esse palco, como é o da Berlinale, que traz este ano 18 filmes brasileiros e outros que vierem no próximo ano, mostra e mostrará o que é a coragem e a capacidade do cinema brasileiro e não há nada que impeça que isso continue”,

Nunca participei em filmes do cinema brasileiro, essa é a minha primeira vez e o fiz com muita satisfação e muito orgulho.Caetano e Marco vieram ao meu encontro em Portugal e me propuseram essa participação, uma oportunidade maravilhosa. Tivemos os primeiros contatos por email mas depois vieram a Lisboa.

Sobre algumas diferenças de linguagem, Leonor explica ter havido alguns momentos nos quais algumas palavras tiveram de ser trocadas para serem entendidas. E sua participação previa justamente o sotaque português de Portugal, pois na época do filme era grande a influência portuguesa no Brasil.

Skatista andrógina vence em Berlim

Enquanto o governo Bolsonaro tenta destruir o cinema brasileiro, como denunciou a produtora Sara Silveira, os filmes brasileiros conquistaram a crítica e os expectadores do 70. Festival Internacional de Cinema de Berlim.

O primeiro prêmio anunciado e conquistado pelo cinema brasileiro foi o Prêmio do Júri para a melhor longa metragem da mostra Geração, dedicada aos jovens cineasta e aos temas da juventude.

Meu Nome é Bagdá, de Caru Alves de Souza, recebeu esse prêmio por unanimidade dos membros do júri, que assim justificaram sua escolha:

“Por unanimidade, escolhemos o filme vencedor: uma impressionante peça de liberdade, cheia de maravilhosas amizades, música, movimento e solidariedade. Era impossível não ficar impressionado com a protagonista, com as pessoas ao seu redor e era também impossível esquecer o clímax glorioso e poderoso deste filme. Isso é prova de que a vida pode não fazer milagres por nós, mas podemos superar todos os obstáculos se seguirmos nossa paixão”.

O prêmio é para Caru Alves de Souza, a diretora, mas é também para a atriz Grace Orsato, interpretando a jovem skatista andrógina Bagdá. Para Caru, o filme conta a solidariedade existente entre as mulheres e sobre suas dificuldades cotidianas”. Um filme no qual se joga muito com a improvisação e mostrando a amizade num grupo de jovens.

Para Caru, o tema do skate não era nenhuma novidade, pois ela mesma praticava skate aos 16 anos. A escritura do filme tinha começado há dois anos e foi sendo montada cena por cena, Caru fez nessa ocasião um levantamento das principais pistas de skate em São Paulo. O roteiro foi sendo pensado em alguns meses, mas o texto final “veio como um enxurrada”, como ela diz. Caru é filha da cineasta Tatá Amaral, mas já se impôs ela própria como cineasta.

Do filme brasileiro Joaquim
ao filme alemão Berlin Alexanderplatz

Talvez seja inédito – um filme alemão, Berlin Alexanderplatz, baseado num livro antológico do escritor Alfred Doblin, tendo como ator principal um ator guineense, estreando na competição internacional do Festival de Cinema de Berlim. Trata-se do ator mas igualmente realizador Welket Bungué, vivendo em Lisboa, que para assumir seu estrelato precisou fazer um curso intensivo de alemão.

No filme, Welket Bungué vive um imigrante guinneense que sobrevive a um naufrágio e consegue entrar na Europa pelo Mediterrâneo. Chega enfim a Berlim, onde passa a se chamar Franz e fica a serviço de um traficante de droga também psicopata.Um filme de três horas que dividiu a crítica.

Welket pertence às companhias de teatro Rastilho, de Lisboa, e Homlet, de Beja, das quais foi fundador. Já realizou seis curtas metragens, convidados por diversos festivais. Já ganhou o prêmio de melhor ator com curtas metragens em Ovar e Viseu.

Foi sua participação no filme Joaquim de Marcelo Gomes, exibido há dois anos no Festival Internacional de Cinema de Berlim, que foi descoberto pelos alemães para encenar Berlin Alexanderplatz. Nesta entrevista, Welket mostra a import£aancia do cinema brasileiro em sua carreira, jä que em Portugal recebia apenas papëis secundärios.

Foi Trump quem abriu a porta para Bolsonaro

Enfim, o 70. Festival Internacional de Cinema de Berlim ficará na nossa lembrança sem grandes destaques, sem aqueles filmes marcantes, embora com uma seleção de bons filmes.

Não faltou a presença da ex-candidata democrata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, apresentando uma minissérie de quatro capítulos sobre sua vida. Num encontro com a imprensa, ela confirmou ter sido a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos a criadora das condições para surgirem líderanças autoritárias no mundo, como Bolsonaro no Brasil.

A RELAÇÃO DOS PRINCIPAIS PRÊMIOS

FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DE BERLIM 2020

URSO DE OURO

“There Is No Evil”

De Mohammad Rasoulof (Irã/Alemanha/República Checa)

GRANDE PRÉMIO DO JÚRI

“Never Rarely Sometimes Always”

De Eliza Hittman (EUA)

PRÉMIO DA 70ª BERLINALE

“Effacer l’historique”, de Benoît Delépine e Gustave Kervern (França/Bélgica)

MELHOR REALIZAÇÃO

Hong Sang-Soo por “The Woman Who Ran” (Coreia do Sul)

MELHOR ATRIZ

Paula Beer por “Undine”, de Christian Petzold (Alemanha/França)

MELHOR ATOR

Elio Germano por “Volevo Nascondermi”, de Giorgio Diritti (Itália)

MELHOR ARGUMENTO

Fabio e Damiano D’Innocenzo por “Favolacce”, de Fabio e Damiano D’Innocenzo (Itália/Suiça)

MELHOR CONTRIBUIÇÃO ARTÍSTICA

Jürgen Jürges

Pela direção de fotografia de “DAU. Natasha”, de Ilya Khrzhanovskiy e Jekaterina Oertel (Alemanha/Ucrânia/Reino Unido/Rússia)

MELHOR PRIMEIRA OBRA

“Los Conductos”, de Camilo Restrepo (França/Colômbia/Brasil)

MELHOR DOCUMENTÁRIO

“Irradiés”, de Rithy Panh (França/Cambodja)

Rui Martins esteve em Berlim, convidado pelo Festival Internacional de Cinema.

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. É criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

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