Filha de Queiroz repassava dinheiro para esquema da ‘rachadinha’, apura MPE-RJ

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Publicado quarta-feira, 12 de agosto de 2020 as 14:54, por: CdB

A professora Nathália Queiroz trabalhou para Jair Bolsonaro quando ele ainda exercia o mandato de deputado federal. Um pedido de investigação por parte do MPE-RJ, segundo apurou a reportagem do Correio do Brasil, será encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), uma vez que presidente da República tem foro privilegiado.

Por Redação – do Rio de Janeiro

“Fio desencapado”, conforme a descreve a jornalista Thais Oyama — autora do livro Tormenta – O governo Bolsonaro: Crises, intrigas e segredos (Companhia das Letras) — a personal trainer Nathália Queiroz, filha do ex-assessor da família Bolsonaro Fabrício Queiroz volta ao noticiário policial. Ela aparece, agora, em relatório do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPE-RJ), vazado para o diário conservador paulistano Folha de S. Paulo (FSP), como suspeita de repassar recursos ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Nathalia Queiroz (E), aparece como treinadora de celebridades, no Rio de Janeiro
Nathalia Queiroz (E), aparece como treinadora de celebridades, no Rio de Janeiro

Nathália Queiroz trabalhou para Jair Bolsonaro quando ele ainda exercia o mandato de deputado federal. Um pedido de investigação por parte do MPE-RJ, segundo apurou a reportagem do Correio do Brasil, será encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), uma vez que presidente da República tem foro privilegiado.

Segundo documentos aos quais a reportagem teve acesso, a filha contratada pelo então parlamentar federal do PSL e demitida no mesmo dia em que Fabrício Queiroz — funcionário do gabinete do deputado estadual à época Flávio Bolsonaro — repassava a maior parte do salário pago, sem ela comparecer um dia sequer à Câmara dos Deputados, para as contas bancárias que o pai gerenciava.

Repasses

Informações levadas ao MPE-RJ com a quebra de sigilo bancário de Nathália Queiroz, autorizada pela Justiça, mostram que ela “transferiu R$ 150.539,41 para a conta do policial militar aposentado de janeiro de 2017 a setembro de 2018, período em que esteve lotada no gabinete de (Jair) Bolsonaro. O valor representa 77% do que a personal trainer recebeu da Câmara dos Deputados. A dinâmica dos repasses é a mesma descrita pelo Ministério Público do Rio de Janeiro sobre a suposta ‘rachadinha’ no antigo gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa fluminense”, revela a investigação.

“Promotores identificaram que Nathalia repassou ao menos 82% de seus vencimentos para o pai no período em que esteve lotada na Assembleia do Rio, de dezembro de 2007 a dezembro de 2016. As transferências ou depósitos ocorriam sempre em até uma semana após o recebimento do salário. Dinâmica semelhante se deu na Câmara dos Deputados”, acrescenta. A quase a totalidade dos repasses ocorreu entre os dias 21 e 24 de cada mês, data em que os servidores costumam receber seus salários, disseram os promotores à FSP.

Preso em regime domiciliar, com uso de tornozeleira eletrônica, Fabrício Queiroz é apontado pelo MPE-RJ como o operador financeiro do esquema da “rachadinha”, prática que consiste no desvio de recursos públicos com a devolução de parte dos salários de assessores ao parlamentar, muitos recebendo sem sequer comparecer ao local de trabalho, conhecidos como “funcionários fantasmas”. Flávio Bolsonaro e Queiroz são investigados nos crimes de peculato, lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e organização criminosa.

Transferências

Segundo os promotores do caso, o dinheiro ilícito era usado para o pagamento de despesas pessoais do hoje senador. Nathalia, à época, atuava como professora de ginástica, no Rio de Janeiro, no mesmo período em que deveria trabalhar para Bolsonaro, em Brasília, de dezembro de 2016 a outubro de 2018.

Nas redes sociais, Nathália Queiroz aparecia ao lado de famosos como os atores Bruno Gagliasso, Bruna Marquezine e Giovanna Lancellotti; além de socialites cariocas. A professora de Educação Física atuava nas academias cariocas e nas praias da Zona Sul carioca.

Segundo o MPE-RJ, “os repasses de Nathália representaram 30% dos R$ 2 milhões arrecadados de 2007 a 2018 na suposta ‘rachadinha’ com origem identificada. Incluindo os valores da Câmara, o peso dos repasses da personal trainer entre as transferências com origem identificada sobe para mais de um terço (35,4%)”.

Os investigadores, no entanto, analisaram apenas as transferências da filha de Queiroz feitas no período em que ela esteve nomeada no gabinete de Flávio — o presidente não pode ser investigado pela Promotoria estadual. “A análise dos repasses feitos quando ela esteve no gabinete do presidente é possível porque a quebra de sigilo abrangeu todos os investigados de janeiro de 2007 a dezembro de 2018”, explica.

Dinheiro vivo

“Além de Nathalia, são suspeitas de participação no esquema a mulher de Queiroz, Márcia Aguiar, e outra filha, Evelyn. Somada, a família do ex-assessor de Flávio representa 58% da movimentação com origem conhecida e considerada criminosa pelo MP-RJ. Há a suspeita de que o valor movimentado no esquema seja maior do que os R$ 2 milhões com origem identificada.

“Investigadores consideram a possibilidade de que outros ex-assessores faziam seus repasses em espécie para Queiroz, sem depósito em conta, inviabilizando sua identificação como parte do esquema”, pontua.

O ex-PM também movimentou outros R$ 900 mil no período de 12 anos. Os promotores afirmam que parte desse valor também pode se referir a depósitos de assessores cuja identificação não foi possível. Todo o dinheiro vivo do esquema, segundo o MP-RJ, pode ter sido usado para pagar despesas pessoais de Flávio Bolsonaro.

Sem comentários

“O senador quitou boletos escolares e de plano de saúde com recursos em espécie ao longo de cinco anos. Os investigadores conseguiram identificar que Queiroz foi o responsável pelo pagamento em ao menos uma oportunidade, em outubro de 2018”, apurou a reportagem.

Em recente entrevista ao diário conservador carioca O Globo, Flávio Bolsonaro reconheceu que seu ex-assessor pagava suas contas pessoais. Mas alegou que os pagamentos eram feitos com seu dinheiro, de fonte lícita. O MPE-RJ, porém, não identificou saques compatíveis com o pagamentos dos boletos nas contas bancárias do filho do presidente.

Os advogados de Queiroz afirmam, em nota, que os repasses seguiam a lógica de “centralização das despesas familiares na figura do pai”. Também procurada pela reportagem, a Presidência da República afirmou que não comentaria o caso.

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