Filme revela trauma de soldados russos na Chechênia

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Publicado terça-feira, 16 de novembro de 2004 as 20:34, por: CdB

Um soldado russo com o rosto marcado por cicatrizes horrendas, Pavlik, choca um grupo de pessoas reunidas numa festa e impõe o silêncio com um relato explícito sobre o massacre de todo um povoado checheno.

Os elegantes convidados da festa em Moscou estremecem, enojados, depois riem e retomam suas conversas anteriores.

Esse abismo que separa os civis russos dos soldados que supostamente lutam em prol deles na Chechênia forma o tema de My Step-Brother Frankenstein (Meu meio-irmão Frankenstein), filme que trata do trauma dos soldados numa sociedade indiferente a eles.

O filme acompanha a trajetória de Pavlik — o Frankenstein titular, repulsivo e desprezado — quando ele retorna a Moscou, vindo da guerra da Chechênia, e não consegue mais adaptar-se à vida na capital russa em paz.

Formando um contraste marcante com outros filmes russos sobre o conflito separatista em sua fronteira meridional, o diretor evita mostrar cenas de guerra e, em lugar disso, volta sua atenção à sociedade civil à qual os soldados precisam se readaptar.

– Eu quis fazer um filme sobre uma cidade pacífica chamada Moscou. As pessoas acham que coisas assustadoras acontecem apenas longe delas e não têm relação com elas – explicou em entrevista o diretor do filme, Valery Todorovsky.

– Todos os dias tentamos ignorar o que acontece perto de nós, mas às vezes isso não é possível. Um homem entra em sua casa. Ele traz a guerra com ele, para dentro de sua cozinha.

Não é de hoje que os médicos falam da chamada “síndrome da Chechênia” trazida para casa pelos soldados traumatizados. Mas o filme de Todorovsky é a primeira tentativa feita na Rússia de dar um tratamento artístico ao problema.

My Step-Brother Frankenstein” estreou em 20 de outubro em poucos cinemas. Após uma sessão recente, muitos espectadores russos disseram que a história sombria e mal iluminada sobre um herói que perdeu um olho é deprimente demais para ser prazerosa.

– O filme não se saiu bem em lançamento comercial amplo – admitiu Todorovsky – Os distribuidores disseram que as pessoas não querem assistir a um tema assim perturbador. Me recomendaram fazer um filme sobre algo mais alegre.

A palavra “Chechênia” não é mencionada no filme — Todorovsky disse que quis evitar fazer declarações políticas –, mas os sinais da guerra são numerosos demais para serem ignorados.

Os espectadores ficaram especialmente perturbados com um eco estranho da crise dos reféns em Beslan — um trecho do filme em que Pavlik agarra duas crianças para protegê-las de inimigos imaginários e se nega a soltá-las.

– Para mim, não existem crianças lá – diz ele, aparentemente imitando palavras usadas pelos sequestradores chechênios em Beslan para justificar sua ação de fazer crianças de reféns.

A semelhança é mera coincidência, mas Todorovsky diz que ela pode dever-se ao ambiente da guerra, que se espalha.

– Rodei o filme no verão passado, e logo depois de ele chegar aos cinemas, aconteceu Beslan. Muitas pessoas, inclusive jornalistas, perguntaram como eu previ tudo isso, mas eu senti que era algo que se preparava… Estava ficando incômodo não falar sobre isso.

O diretor disse que, mesmo que as pessoas não tenham achado o filme divertido, ele considera positivo que as fez recordar de uma guerra que já saiu das primeiras páginas dos jornais e raramente figura nos noticiários de televisão.

– Fiz este filme para conscientizar as pessoas – afirmou.