Fim da quarentena é aposta arriscada nos Estados Unidos

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Publicado quarta-feira, 6 de maio de 2020 as 14:05, por: CdB

Nenhum Estado norte-americano atende às recomendações do governo Trump para afrouxar as medidas contra o coronavírus. Mas alguns governadores já começaram a levantar restrições. Especialistas alertam para riscos desta decisão.

Por Redação, com DW – de Washington

Trabalho de casa, desemprego, aulas suspensas e proibição severa de ir a restaurantes, o coronavírus Sars-Cov-2 virou a vida cotidiana de cabeça para baixo na maior parte do mundo.

Texanos protestaram contra medidas restritivas já em abril
Texanos protestaram contra medidas restritivas já em abril

Nos Estados Unidos, o número de desempregados registra uma alta só vista durante a crise econômica dos anos 1930. Os pequenos empresários são os mais afetados. Nas últimas semanas, muitos cidadãos norte-americanos manifestaram, com cada vez mais veemência, o desejo de que, finalmente, a vida pública volte a ter um pouco de normalidade.

O presidente Donald Trump apresentou um plano em três fases para afrouxar as medidas de restrição no país. Apesar de serem os governadores que têm a última palavra sobre a abertura gradual em cada Estado, o plano elaborado por especialistas em saúde, como Anthony Fauci, epidemiologista-chefe do governo norte-americano, inclui critérios que uma região deveria preencher antes do início da primeira fase.

Os critérios são apenas recomendações e não leis obrigatórias, algo visível, por exemplo, nos Estados da Geórgia ou do Texas, que não atendem aos chamados “critérios de entrada” e, mesmo assim, estão começando a afrouxar as restrições.

Nenhum Estado atende exigências para reabertura

Em 16 de abril, Trump apresentou o plano de reabertura gradual da economia em três fases, chamado “Reabrindo os Estados Unidos novamente”, em alusão ao seu slogan de campanha nas eleições presidenciais de 2016.

As diretrizes preveem a primeira fase de reabertura nos Estados que registrarem queda no número de infecções pelo coronavírus num período de duas semanas seguidas. Além disso, é preciso haver testes suficientes para examinar todos os médicos e enfermeiros que poderiam ter algum tipo de contato com o vírus no Estado.

Porém, até agora, nenhum Estado norte-americano apresentou queda no número de infecções por 14 dias seguidos. O número de óbitos pela covid-19 também não caiu, estacionando em cerca de 2 mil por dia.

– Não só não temos testes suficientes. Também não sabemos se os testes que estamos usando atualmente são realmente bons – constatou Ashwin Vasan, médico e professor de medicina na Universidade Columbia, em Nova York. Para ele, afrouxar as restrições nos Estados nesse momento é “perigoso e um pouco leviano”.

O governador republicano da Geórgia, Brian Kemp, enxerga a questão de forma diferente. Seu Estado foi um dos primeiros a aliviar as medidas restritivas. Desde 24 de abril, cabeleireiros, massagistas e tatuadores estão de volta ao trabalho. A reabertura de restaurantes e cinemas seguiu em 1° de maio, ainda que de maneira reduzida. “Não podemos viver em quarentena para sempre”, disse um porta-voz de Kemps, antes da primeira onda de afrouxamentos.

A reabertura na Geórgia foi rápida demais até para Trump, que disse discordar completamente da decisão de Kemp. Por outro lado, o presidente americano não quis impedir o governador de afrouxar as medidas, e disse que Kemp “deve fazer o que acha certo”.

O Estado não tem registrado mais alta de novas infecções, mas elas também não tiveram queda por 14 dias seguidos.

Em geral, Trump apoia uma volta à normalidade o mais rápido possível, já que o alto número de desempregados poderia colocar em risco sua eventual reeleição, no início de novembro. “Queremos reabrir nosso país”, disse o presidente em telefonema com os governadores no final de abril, de acordo com o jornal The New York Times.

No Texas, o afrouxamento também avança, com a permissão de amplas reaberturas pelo governador republicano Greg Abbott. Desde o 1° de maio, os texanos voltaram a ter autorização para fazer compras em shoppings, emprestar livros de bibliotecas e assistir a filmes em cinemas. Todos esses estabelecimentos, assim como restaurantes e museus, tiveram sua capacidade máxima de público reduzida a um quarto do que era antes.

Com 28 dias de duração, a quarentena no Texas está entre as mais curtas entre os 50 Estados norte-americanos. Segundo Abbott, as medidas “fizeram o que tinham que fazer e desaceleraram a taxa de crescimento da covid-19”. Mas, segundo o The New York Times, o número de infecções continua subindo no estado.

Número de mortes pode dobrar

Segundo Vasan, Trump e os governadores deveriam se perguntar se é realmente do interesse de todos os cidadãos que as medidas restritivas sejam afrouxadas substancialmente agora, sem medidas de proteção adicionais.

– De longe, não temos testes suficientes – afirma o médico. “Por isso, uma reabertura seria mais segura se todos tivessem que usar máscaras adequadas”, sugere. O problema, porém, é que nem funcionários do setor da saúde têm acesso a máscaras suficientes.

Projeções do Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA mostram que, mesmo sob as fracas medidas de proteção no estado da Geórgia, o número de óbitos pode dobrar até o início de agosto, passando de 32 por dia, registrado em 1° de maio, para 63 no dia 4 de agosto.

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