Fragmentos de uma realidade sombria

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Publicado sábado, 9 de março de 2019 as 16:23, por: CdB

No carnaval, rolou a oportunidade de se exibir rapidamente que o novo governo já não tem base social nenhuma. A base social que lhe resta é a real, é a que sempre foi dele.

 

Por Alfredo Herkenhoff – do Rio de Janeiro

 

Bolsonaro nasceu com base social pequena. Teve 57,4 milhões de votos, mas por um fenômeno conhecido: uma parte é curral eleitoral, vota sem saber em quem está votando. Outros na última hora votam pela propaganda e pressão da grande imprensa. Votos sem convicção. Isso é da natureza da política, um esquema induzindo que as pessoas tomem decisão no calor da propaganda. Mas a base social real é pequena.

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No carnaval, rolou a oportunidade de se exibir rapidamente que o novo governo já não tem base social nenhuma. A primeira pesquisa deu apoio de 39 por cento, mas ainda sem assimilação do pacote de maldades. Temer também tentou aprovar reformas rapidamente e depressinha ficou com menos de dez por cento de apoio.

Bolsonaro tem o mesmo programa de Temer, só que ainda mais violento e virulento. Receita perfeita para a deterioração por ser uma notória agressão ao povo brasileiro.

Carnaval

A base social que lhe resta é a real, é a que sempre foi dele. E como os outros partidos conservadores desmilinguiram ao longo do golpe e do desgoverno Temer, Bolsonaro agora é só esse resíduo. Os brasileiros que têm convicção de que esse programa direitista tem de ser aplicado é um doze avos d eleitorado.

O governo Bolsonaro está em crise e isso foi refletido no carnaval. A direita odeia o carnaval e agora todo mundo entende por que. Mesmo pessoas bem pensantes de uma classe média que não é de direita também não levam fé nessas críticas exibidas no carnaval. Mas estas estão erradas também.

Argumentos há de montão. Fora Bolsonaro, não, ele mal começou, é preciso dar um tempo pra ele. Mas o carnaval é esclarecedor. Centenas de milhares de pessoas em várias cidades gritaram que não aceitam Bolsonaro. É como estádio de futebol lotado. O grito é definidor. O Brasil caminha para gritar Fora, Bolsonaro!
Burguesia

O poder de cem mil pessoas é gigantesco. O carnaval é um mega ato social em potencial. Não é preciso botar cartaz. As pessoas sarem naturalmente na rua e dão vazão aos sentimentos. Ficou claro: o que se viu no carnaval é a ponta do iceberg. O grito contra Bolsonaro não foi de minoria. Foram multidões imensas em todos os lugares do país. E isso expressa o sentimento de muita gente que nem brincou o carnaval.

O Bolsonaro voltou a ser o que era, ele tem uma base inexpressiva. E mesmo dentro desta ela não é de todo confiável. Ele pode ficar menor ainda dentro de sua própria base.

O setor mais pró-EUA dentro do governo está diante de uma situação extremamente crítica. Com uma base social tão pequena, um governo apoiado quase exclusivamente na burguesia, e cujos partidos perderam base ou peso na classe, média, o fato é que o governo está numa contradição explosiva, porque sem apoio insiste em acabar com a Previdência.

Fascista

O próprio Bolsonaro sabe que a reforma é um horror. Bolsonaro percebeu que se aprovar vai ficar sozinho como um cachorro, apoiado apenas no PSDB e DEM. Bolsonaro tem medo de defender a reforma da Previdência, uma coisa recheada de contradições. O que se tem é uma liquidação da Previdência. Mesmo entre os militares Bolsonaro corre risco.

Bolsonaro é um sindicalista da direita militar, a popularidade dele nos segmentos armados decorre dessa defesa de Bolsonaro das condições de vida. Outra parte do apoio são grupos de extrema direita no judiciário e a elite dos servidores públicos. Trata-se de um câncer de extrema direita. São direitistas ideológicos, mas não aceitam perder privilégios.

Você só tem um regime fascista sólido se tem um apoio social que não é o dessa elite burguesa e desses servidores privilegiados.

Perspectiva

Outro fator que está ameaçando o governo Bolsonaro é a crise econômica. Bolsonaro, Mourão e outros chegaram a pensar que iriam ganhar num ambiente de otimismo quanto a crescimento econômico. Mas ocorreu o contrário. A reforma da previdência não ajuda a promover o crescimento econômico. Eles querem, além da reforma, mais ajuste.

O cenário internacional agora é ainda pior do que durante o período Temer. Os grandes capitais estão fugindo de praticamente todos os países latino-americanos. Crise na Argentina. O Brasil perdeu divisas até durante o carnaval, período em que normalmente o turismo se apresenta.

O governo Bolsonaro não tem nenhuma perspectiva de sobrevivência se não conseguir crescimento econômico.

Fragmentos

(Tudo isso aí são pedaços de comentários neste sábado do trotskista Rui Costa, líder do Partido da Causa Operária. Ele acha que Bolsonaro tende a cair como Collor. Bolsonaro já está sendo chamado de moleque em editoriais dos jornais burgueses.

O tuíte pornográfico e a ameça de implantar ditadura naquele curto discurso diante de fuzileiros navais irritaram os donos do golpe. Bolsonaro e generais estão sendo avisados pela alta burguesia que eles caem se entrarem nessa. Eles ou crescem ou desaparecem; a crise é grave.

Os militares tutelando Bolsonaro negaram possibilidade de golpe neste momento. Mas nem num prazo mais pra frente uma ditadura arreganhada não teria apoio de ninguém…).

Alfredo Herkenhoff é jornalista.

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