Geneticista fala sobre estudo que identificou nova variante da covid-19 no Rio

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Publicado quinta-feira, 24 de dezembro de 2020 as 11:14, por: CdB

Pesquisadores identificaram uma nova linhagem do vírus SARS-Cov-2 circulando no Estado do Rio de Janeiro. Segundo as análises, as mutações foram identificadas em 38 dos 180 genomas sequenciados no estudo.

Por Redação, com Sputnik – do Rio de Janeiro

Pesquisadores identificaram uma nova linhagem do vírus SARS-Cov-2 circulando no Estado do Rio de Janeiro. Segundo as análises, as mutações foram identificadas em 38 dos 180 genomas sequenciados no estudo.

Geneticista fala sobre estudo que identificou nova variante do coronavírus no Estado do Rio
Geneticista fala sobre estudo que identificou nova variante do coronavírus no Estado do Rio

O Laboratório de Bioinformática (Labinfo), do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações) identificou cinco mutações no vírus SARS-CoV-2 somente no estado, caracterizando uma possível nova linhagem originária da B.1.1.28 do novo coronavírus.

​A coordenadora da pesquisa é a geneticista, bioinformata com doutorado em Genética pela UFRJ e pesquisadora do LNCC, Ana Tereza Ribeiro de Vasconcelos, que explicou à Sputnik Brasil a importância da identificação dessa linhagem do vírus e que repercussão pode ter no atual momento da pandemia no país.

– Como ele é um vírus que está entrando no hospedeiro recentemente, é muito importante acompanharmos essas taxas de modificações e ver em quais regiões de quais proteínas essas mutações estão acontecendo. O que o SARS-Cov-2 está mostrando com essas mutações é que ainda estamos na fase aguda da pandemia, estamos com uma circulação do vírus muito grande no Brasil, e temos que monitorar e acompanhar pra ver como ele está mudando – disse Ana Tereza.

Monitoramento

De acordo com a pesquisadora, o monitoramento vai continuar acontecendo no Estado do Rio e vários outros grupos de pesquisadores estão realizando o mesmo trabalho em outras regiões do país.

– Estamos trabalhando em rede, há várias integradas. A nossa, por exemplo, do Ministério da Ciência e Tecnologia junto com as das instituições aqui do Rio de Janeiro. Precisamos ter um panorama, uma fotografia de como esse vírus está se dispersando pelo Brasil, e quais são as mutações que estão acontecendo – declarou a cientista.

Tecnicamente falando, segundo Ana Tereza, a linhagem B.1.1.28 já circulava no Brasil no início do ano. As mutações são cinco, além de uma específica no domínio de ligação ao receptor da proteína da espícula (spike), a E484K, anteriormente associada ao escape de anticorpos neutralizantes contra SARS-CoV-2, amplamente espalhada nos genomas dessa linhagem.

Anticorpos produzidos pelo sistema imune

A especialista esclareceu que alguns estudos publicados por cientistas internacionais relataram, em experimentos laboratoriais, que os vírus que possuem a mutação E484K podem escapar dos anticorpos produzidos pelo sistema imune em alguns pacientes. Há indícios de que os anticorpos que são produzidos por algumas pessoas infectadas têm dificuldade de agir sobre vírus com essa mutação.

– A mutação se encontra justamente na spike, responsável por se ligar às células humanas e introduzir o material genético do vírus no hospedeiro. Apesar dos estudos laboratoriais, não temos evidências do comportamento dos vírus com esta mutação do ponto de vista populacional. Muitos testes ainda têm que ser realizados para validar esse experimento – explicou a geneticista.

Ana Tereza disse que, de acordo com as análises filogenéticas, o surgimento desta nova linhagem ocorreu em julho de 2020 e foi identificada, principalmente, na cidade do Rio de Janeiro. Além da capital, também surgiu em amostras vindas de Niterói (Região Metropolitana), Cabo Frio (Região dos Lagos) e Duque de Caxias (Baixada Fluminense).

Segundo a cientista não existe indicação de que essa linhagem seja mais transmissível ou que possa interferir na efetividade das vacinas que estão sendo desenvolvidas.

– As mutações não estão em regiões importantes do vírus que prejudiquem a pesquisa das vacinas. Quando estiver disponível, temos que tomar a vacina porque, com isso, esse vírus vai diminuir e quem sabe chegar a zero algum dia – finalizou.

O Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), tem sua sede em Petrópolis, na Região Serrana do estado. A análise foi conduzida em colaboração com o Laboratório de Virologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), as Secretarias de Saúde de Maricá e do Rio de Janeiro, e o Laboratório Central de Saúde Pública Noel Nutels.

A pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações.