Geração que só conhece Merkel no poder vota pela primeira vez

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Publicado quinta-feira, 23 de setembro de 2021 as 11:15, por: CdB

Cerca de 3 milhões de jovens poderão pela primeira vez participar de uma eleição alemã. Eles nunca viram outra pessoa na chefia de governo e querem mudanças, o que pode beneficiar o Partido Verde. O pleito definirá o sucessor de Angela Merkel, que, após 16 anos no poder, representa a única chanceler federal para toda uma geração de novos eleitores.

Por Redação, com DW – de Berlim

Jona, Cornelius e Thurid estão entre os quase 3 milhões de jovens que, no próximo domingo, poderão pela primeira vez votar numa eleição para o Parlamento alemão. O pleito definirá o sucessor de Angela Merkel, que, após 16 anos no poder, representa a única chanceler federal para toda uma geração de novos eleitores.

Jona, Thurid e Cornelius: eles querem mudanças, mas se veem representados por partidos diferentes

Jona já votou pelo correio. Thurid e Cornelius querem ir pessoalmente depositar o voto na urna. “Estou muito feliz por finalmente poder votar. E também estou relativamente otimista de que a eleição vai mudar muita coisa”, diz Cornelius. Thurid, por sua vez, afirma estar consciente da responsabilidade que possui como eleitor: “Você reflete muito. É definitivamente emocionante”.

Os três, que vivem no oeste e leste do país, têm muito em comum, e de certa forma encarnam o que muitos acreditam definir esta geração: estão bem informados; leram os programas eleitorais de seus partidos favoritos; a proteção climática é uma de suas preocupações mais importantes. E eles só conhecem uma chanceler: Merkel.

– O fato de que algo novo está vindo depois de 16 anos de Merkel dá à eleição um tom muito especial – comenta Cornelius. Quando Merkel tomou posse, em 2005, Jona e Thurid tinham 2 anos, e Cornelius tinha 4.

Todos os três elogiam a chanceler, dizem que ela é um “bastião de tranquilidade”, uma “política competente” e, de alguma forma, sempre presente. “É estranho que ela vá embora. É interessante quando você tem que pensar em quem você quer ver como o novo chanceler e toma Merkel como parâmetro”, diz Thurid. Jona diz que, se Merkel fosse candidata, ele poderia até votar na conservadora CDU, partido que tem sua base eleitoral entre os mais velhos. “Mas eu não posso apoiar Armin Laschet”, completa o jovem, que votou no Partido Verde.

Verdes são favoritos entre os jovens

Um olhar sobre as pesquisas revela que o Partido Verde é especialmente popular entre os eleitores jovens: segundo a sondagem “Teengeist”, feita pela agência Fischer-Appelt em cooperação com o instituto Appinio, entre alemães de 16 a 24 anos a legenda ambientalista tem 18,7% de apoio, mais do que qualquer outro partido.

Em segundo lugar ficariam o social-democrata SPD (centro-esquerda) e o FDP (liberal, pró-mercado), com pouco mais de 16% cada. Outras pesquisas chegam a apontar uma vantagem ainda maior de verdes e liberais em relação a outros partidos entre menores de 30 anos.

– Vemos que FDP e verdes têm impacto relativamente forte nos jovens eleitores simplesmente por causa do foco de sua própria campanha eleitoral e da temática – diz a cientista política Anne Goldmann, da Universidade de Duisburg-Essen. Ela aponta dois campos como particularmente decisivos: a proteção climática e a digitalização.

– O movimento Fridays for Future cresceu fortemente nos últimos anos, e você pode dizer que a nível político o Partido Verde está mais próximo do movimento e tenta capitalizar isso de forma centralizada – analisa Goldmann.

Com Cornelius, por exemplo, a estratégia funcionou. Ele está envolvido nos protestos do Fridays for Future e votará nos verdes no domingo. O jovem pondera, ao mesmo tempo, que não concorda com tudo o que os verdes exigem. Por exemplo: o partido fala sobre aspectos individuais da proteção climática, mas não suficientemente sobre a mudança climática como um todo.

Os verdes parecem ter entendido que possuem uma grande mina de potenciais eleitores entre os jovens. O partido, por exemplo, enviou cartas personalizadas aos eleitores de primeira viagem, Cornelius e Jona também receberam uma. Outros partidos também fizeram isso, mas apenas os verdes, quando indagados, deram uma visão clara da campanha por correio: cerca de dois milhões de cartas foram enviadas.

“Os movimentos juvenis dos últimos anos fazem campanha pela proteção do clima, por uma sociedade diversificada em uma Europa unida e pela justiça global. O compromisso deles mudou a sociedade. Agora é o momento de levar essa mudança ao Parlamento”, diz o partido ambientalista.

Thurid também considerou votar no Partido Verde. Mas agora ela está inclinada a escolher o FDP, mostrando-se particularmente convencida pela política econômica dos liberais. Em vez de apenas exigir que o dinheiro seja gasto, argumenta a jovem, o FDP também está preocupado em como o dinheiro pode ser arrecadado.

Thurid diz que, com seu voto, ela quer oferecer um contraponto ao que vê como uma tendência econômica “muito orientada à esquerda”. Ela conheceu o FDP por causa da política de combate à pandemia e suas consequências: “Minha mãe é cuidadora de idosos e não está vacinada. Seu maior medo é perder seu emprego por causa disso. Percebi os efeitos que a vacinação obrigatória poderia ter”.

Ela dá crédito ao FDP por ser particularmente claro em sua oposição à vacinação obrigatória. A própria Thurid foi vacinada contra a covid-19. Ela teve longas discussões com a mãe, mas diz que consegue ao menos entender seu temor da vacinação contra covid-19.

Anseio por mudança

Basicamente, dos três eleitores ouve-se a mesma demanda: mudança. “Os eleitores mais jovens estão unidos acima de tudo por sua insatisfação com a política, mas em uma medida diferente dos mais velhos”, afirma Jona.

Segundo ele, enquanto os eleitores mais velhos tendem a ficar insatisfeitos com os desenvolvimentos do passado, os jovens eleitores têm mais medo do futuro. Para ele, a campanha eleitoral dos partidos atualmente no poder, a CDU de Merkel e o social-democrata SPD, parece algo distante da realidade.

Thurid credita o sucesso dos verdes e dos liberais a ambos representarem, em sua opinião, uma alternativa democrática. “Muitas pessoas estão fartas de CDU e SPD, e há um desejo de algo novo, e eu acho que os verdes e o FDP como partidos democráticos são os mais propensos a transmitir isso. São abordagens modernas que não são radicais, mas, ao mesmo tempo, não são CDU/SPD, que é o que você sempre teve nos últimos anos.” O socialista A Esquerda e a ultradireitista AfD, diz ele, frequentemente tomam posições radicais demais.

No entanto, especialmente na Alemanha Oriental, a populista de direita AfD, que tem em suas fileiras extremistas de direita, é popular entre os jovens, principalmente no Leste do país. Uma eleição recente com milhares de jovens menores de 18 anos mostrou que a AfD obteve o maior número de votos na Turíngia e na Saxônia, dois estados que compunham a antiga Alemanha Oriental.

Thurid sabe disso, por viver em uma pequena cidade no estado vizinho da Saxônia-Anhalt. Todos os domingos há manifestações da AfD. “É incrível como a AfD se impõe e ninguém fala nada. E isso ocorre também entre jovens, os com posições de direita, que também são propagadas pelos pais deles.” A jovem afirma que há figuras de inimigos imaginários com apelo entre os jovens. “E, como um eleitor de primeira viagem, você pode ser influenciado”, complementa.

Também chama a atenção que muitos eleitores de primeira viagem sejam atraídos por partidos nanicos, muito mais do que o eleitorado como um todo. Na pesquisa “Teengeist”, mais de 23% dos entrevistados disseram ter tendência a votar em um pequeno partido.

Na Alemanha, mais de 50 partidos estão na ativa, como o Volt (paneuropeu) e o Partido de Proteção Animal. Presumivelmente, a grande maioria dessas legendas não conseguirá superar a barreira de 5% de votos necessária para entrar no Parlamento. Isso afastou Cornelius, bem como Thurid e Jona de escolherem uma legenda nanica. A eleição é “importante demais” para isso, diz Cornelius. Thurid também se decidiu contra um nanico, apesar de ressaltar que ela não vota “apenas estrategicamente”, mas também de acordo com seus valores.

Independentemente de quem escolham, eleitores e eleitoras de primeira viagem são uma minoria na Alemanha. Em comparação com os 60 milhões de eleitores habilitados, eles formam um grupo pequeno com seus três milhões de votos.

Jona está um pouco desiludido com isso e duvida que seu grupo eleitoral tenha um grande impacto. Cornelius é mais otimista. Ele diz que o espírito de otimismo que emana dos jovens também está presente no resto da população: “A vontade de mudar não vem somente de nós. Acredito que já existe uma vontade clara de que algo tem que mudar”.

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