Geraldo Alckmin: ruim para São Paulo, despreparado para o Brasil

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Publicado terça-feira, 24 de abril de 2018 as 09:19, por: CdB

Geraldo Alckmin deixa o governo de São Paulo para candidatar-se à Presidência da República com o discurso de que levará seus feitos à frente do estado para todo o país. Definitivamente, o Brasil merece melhor destino

Por Fernando Borgonovi – de São Paulo:

O PSDB dirige o estado desde 1995, há quase 24 anos ininterruptos. Neste período, Geraldo Alckmin governou por 4 vezes, 14 anos, sendo o político que mais tempo ocupou o executivo estadual no período republicano.

Geraldo Alckmin deixa o governo de São Paulo para candidatar-se à Presidência da República

Aqui fica uma primeira constatação: nos anos de oposição aos governos Lula e Dilma; o PSDB sempre criticou a “eternização” de um grupo político no poder; e os métodos supostamente vis para a obtenção de apoio para a manutenção do poder.

Pois bem, passado um quarto de século, constata-se que não há no Brasil projeto de “eternização”; no poder semelhante ao comandado pelo tucanato paulista; inclusive com o aparelhamento da máquina pública e utilização do poder político e econômico para fins eleitorais.

Mas se sobrou tempo, qual é mesmo o legado deixado para a população nessas mais de duas décadas? Vejamos.

SP

Cada vez mais sucateada, a educação pública paulista passa longe de estar à altura do estado mais rico da Federação. No último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB); São Paulo não atingiu as metas estabelecidas para o aprendizado no ensino médio, obteve nota de 3.9; quando o mínimo esperado era 4.2.

Professores

O governo trata mal os professores da rede estadual e apenas recentemente passou a pagar o piso nacional da categoria; remunerando menos que Estados como Maranhão, Acre, Rio de Janeiro.

Segundo o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de São Paulo (Apeoesp); contando o aumento de 2018, o salário-base dos docentes passará a ser de R$ 2.459,71 (Educação Básica I); e de R$ 2.585,00 (Educação Básica II) – o piso nacional em 2018 é de R$2.455.

O enfraquecimento do Estado

O enfraquecimento do Estado e de sua capacidade de indução fica escancarado na incrível lentidão com; que se expande a malha metroferroviária. A Cidade do México iniciou a operação do transporte de trilho na década de 70; mais ou menos no mesmo período que São Paulo.

Mas já conta com mais de 200 quilômetros de vias; enquanto aqui; se novos atrasos não ocorrerem, só chegaremos aos 100 quilômetros de malha (somados Metrô e CPTM) até o final de 2018.

Parece piada, mas a ligação sobre trilhos ao aeroporto de Guarulhos; inicialmente prevista para 2005; depois prometida para funcionar em 2014; está atrasada no mínimo há uma Copa do Mundo; pois só começará a operar agora em 2018. Isso sem falarmos das fartas denúncias de corrupção envolvendo dirigentes tucanos; e as empresas prestadoras em contratos de obras e reformas de trens.

Crise hídrica

Entre 2014 e 2016, portanto sob o comando de Alckmin; São Paulo atravessou a mais grave crise hídrica de sua história. Ao contrário do que diz a propaganda do governo, foi a má gestão e falta de planejamento que ajudou; a agravar os efeitos da seca e obrigou milhões de famílias das regiões metropolitanas de SP e Campinas a conviver com o racionamento diário de água.

Recentemente, a população sentiu mais uma vez os efeitos nocivos da política irresponsável de corte de gastos; dessa vez na saúde pública. Em meio ao surto de casos de febre amarela; foi divulgado que o orçamento destinado a combater doenças transmitidas por vetores; em 2017, foi 19% menor que o do ano anterior.

Drama permanente das grandes cidades, a crise na segurança pública teve como símbolo maior no longo mandarinato do PSDB paulista a bárbara Chacina de Osasco. Mas, quando olhamos os números da violência policial; a tragédia não causa surpresa: em 2016, foram 266 mortes causadas por policiais fora do expediente, 163 delas só na capital.

O “Atlas da Violência” (IPEA/FBSP) registrou 5.427 homicídios no Estado; cujas vítimas são principalmente jovens de 15 a 29 anos. Por outro lado, os aviltantes salários pagos aos policiais; a falta de preparo e de investimento suficientes na segurança pública contrastam com o avanço dos tentáculos do crime organizado; imiscuindo-se cada vez mais nas diversas esferas da sociedade.

Economia

Há tempos a economia tem dado sinais de estagnação, diminuindo ano a ano sua participação no PIB nacional e perdido protagonismo; situação que só não é mais grave graças ao crescente desempenho do agronegócio; que já responde por mais de 13% de todo o produto do estado (CEPEA-Esalq/USP).

Parte das dificuldades, é certo, dizem respeito ao alarmante processo de desindustrialização verificado em todo o país; mas também porque o governo do Estado; por motivos de ordem política; optou por se colocar em contradição aos principais programas federais realizados no período de prosperidade verificado no país entre a metade dos anos 2000 até 2014.

Por fim, o meio consagrado pelo PSDB para enfrentar os dilemas da administração pública – seja aqui ou nos governos de FHC no plano nacional – sempre foi terceirizar à iniciativa privada, através de privatizações, as responsabilidades do poder público. Acostumou-se a abrir mão da obrigação de planejar o longo prazo, induzir o crescimento econômico de acordo com as vocações locais, desobstruir os entraves ao desenvolvimento. Quem paga quando o Estado se enfraquece é a população.

PSDB

O fato é que o prolongado ciclo de governos do PSDB à frente do Estado resulta hoje em fadiga de material; e reclama a necessidade de mudanças na condução política para o próximo período.

Geraldo Alckmin legará a seu sucessor um estado com grandes; e variados problemas, tendo sido o principal condutor das políticas aqui implantadas. Não foi bom para São Paulo; não está preparado para o Brasil. Aliás, o Brasil merece muito mais.

Fernando Borgonovi, é Secretário de Organização do Comitê Municipal do PCdoB de São Paulo.