Golpes nada Democráticos

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Publicado terça-feira, 9 de julho de 2024 as 09:35, por: CdB

Crítica aos golpes e manobras políticas no Brasil, que comprometem a democracia enquanto buscam poder absoluto, ameaçando a estabilidade do país.

Por Abraham B. Sicsú – de Brasília

Nada mais falso pode existir. O discurso sempre é a defesa da Democracia. A prática não. O objetivo é o Poder, se possível absoluto. A história nos deixa claro.

Manifestação contra o golpe na Cinelândia, Centro do Rio de Janeiro, é reprimida pelo Exército em 1º abril de 1964

Dia 25 de agosto de 1961. O presidente é Jânio Quadros. Um lunático que se elegeu com um discurso anticorrupção. Vassourinha que ficou famosa. Varreria o país dos usurpadores dos bens públicos. Um bilhete ao Congresso Nacional, estrondoso.  Renunciava devido a “forças ocultas”.  Em apenas sete meses de governo, “entrega” o poder, por existirem “fantasmas” nada esclarecidos.

Uma análise detalhada mostra a realidade. Um golpe de Estado para se firmar como ditador. Tinha como certo que a renúncia jamais seria aceita. Com o apoio das Forças Armadas e do Congresso seria galgado ao poder supremo. O pedido para reconsiderar seria certo. Exigiria poder absoluto e rasgaria a Constituição. Não tinha como dar errado, mas deu.

Ano 1962, Jango assume o poder. Não muito, porque teve que ceder ao parlamentarismo. Procura um projeto que defenda os interesses nacionais. Cria uma Lei de Remessa de Lucros que impede multinacionais de enviar mais do que 10% de seus lucros ao exterior. Uma política exterior independente que não se articulava aos interesses norte-americanos.

Forças Armadas

Os conservadores se unem às forças do Exterior e às Forças Armadas e é dado o Golpe. Mais de vinte e um anos de obscurantismo, sem liberdade, sem Democracia.

Ano de 2016. Dilma é Presidente. Temer vice. A disputa é clara. As regras democráticas, num país presidencialista, não deixam muitas dúvidas. Quem dá o rumo é a Presidente, o vice não tem essa função.

Temer faz um plano, Ponte para o Futuro, com seu partido o PMDB. Quer impor, mais, quer se legitimar como condutor do Brasil. Não é aceito pela Presidência. Articula com o Congresso um impeachment.

Pegam um pretexto, as tais pedaladas fiscais. Nada que qualquer gestor público não tenha feito em prol da governabilidade. Mas, vira um escândalo nacional. O Golpe é dado. Abertura para a extrema direita vir a trazer anos de trevas para o Brasil. Um desastre nacional.

Bem diz Rousseff quando afirmou: “O golpe não foi cometido apenas contra mim e contra o meu partido. Isto foi apenas o começo. O golpe vai atingir indistintamente qualquer organização política progressista e democrática.”

E, com a clareza possível, no Senado, declarou:

“Os senadores que votaram pelo impeachment escolheram rasgar a Constituição Federal. Decidiram pela interrupção do mandato de uma presidenta que não cometeu crime de responsabilidade. Condenaram uma inocente e consumaram um golpe parlamentar.”

Quatro anos preparando outro Golpe. 2018 a 2022. Bolsonaro não administra, apenas se preocupa em perpetuar sua estada no poder. Mil estratagemas, mil tentativas de conseguir a adesão das forças ultraconservadoras e das Forças Armadas. Não consegue e tem que ir às eleições.

Perde e continua tramando, continua tentando um golpe. 8 de janeiro de triste memória. A ameaça à Democracia é patente. Felizmente não se concretiza, não consegue seu intento. Mas, foi planejado. E os objetivos claros. Tomar o poder a qualquer custo.

Golpe

Não acaba aí. A busca de poder continua. Não se desiste facilmente. Novos estratagemas são idealizados. Tem que dar errado a reconstrução do País. Não adiantam conseguir resultados bons para a população, bons para o regime democrático. O importante é criar as bases para um novo golpe.

A estratégia é definida. Criar condições adversas, um clima de desconfiança. O desemprego cai ao menor patamar, a renda das famílias cresce consistentemente, voltam a se reestruturar os movimentos sociais e populares. Mas, é preciso desconstruir, relativizar e ignorar o crescimento. Mídia e Mercado Financeiro se juntam.

Leio um artigo. De um ingênuo redator. Tenta caracterizar o Mercado Financeiro como se agisse em concorrência perfeita, em que tudo se explica por oferta e demanda. Como se o mercado financeiro fosse guiado pela economia real, pela valorização efetiva dos ativos. Absurdo assim pensar, leviano ignorar o jogo de poder e interesses que está por trás.

Ledo engano. Nada mais oligopolizado, mais articulado a interesses específicos, a manobras que definem seus rumos e sua valorização do que o Mercado Financeiro. Ignorar os grandes grupos, os interesses das grandes corretoras, o jogo especulativo do capital, é, no mínimo, ingenuidade, normalmente, má fé.

O dito Mercado se articula à mídia. Neste jogo conjunto vendem uma imagem irresponsável. Jogam no atual presidente da Nação a responsabilidade pelas flutuações fora do normal de câmbio e Bolsa. E querem dar-lhe uma imagem de irresponsabilidade, de falastrão, quando apenas está dizendo o que facilmente pode ser constatado na prática. A política monetária do Banco Central dificulta e trava o processo de desenvolvimento, o atrair de novos investimentos, o voltar ao pleno emprego que quase tivemos nos governos anteriores de Lula.

Importante ter em mente que há sim uma tentativa de articular um golpe contra o atual governo. E, nessa direção, a base principal está no mercado financeiro e nas mídias, no minar a confiança da população, em criar um clima de insegurança.

Não basta ter resultados econômicos e sociais relevantes e bem direcionados, fundamental explicitar para a população esse jogo, deixar claro o que está por trás, o que se pretende. Em outras palavras, enfrentasse agora uma batalha efetiva, na busca de poder, contra aqueles que democraticamente foram vencidos.

O dilema é manter o direcionamento ou perdê-lo. A história nos mostra o quão poderosos são os interesses no capitalismo e sua força destrutiva. Não podemos deixar de seguir nosso rumo.

 

Abraham B. Sicsú, é professor aposentado do Departamento de Engenharia de Produção da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e pesquisador aposentado da Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco).

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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