Grande golpe no ensino

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Publicado quinta-feira, 9 de maio de 2019 as 09:39, por: CdB

O corte nos orçamentos das universidades, escolas federais e instituições de pesquisa em todo o Brasil, que já anda navegando na casa dos bilhões de reais, não é um lance econômico pontual, passageiro. É um plano muito bem urdido de eliminação do ensino público e gratuito e das ciências no país.

Por Jaime Sautchuk – de São Paulo

Faz parte da estratégia das elites conservadoras, a direita hoje no poder, que quer privatizar até o último recurso do Estado e acabar com todo e qualquer direito social dos trabalhadores e do povo pobre no país. E mostra as caras de quem faz o que e com que intenções.

Grandes escolas federais de todo o país já demonstraram os efeitos das medidas oficiais

Na Educação, por exemplo, preenche os espaços com empresas privadas de ensino, numa tarefa desempenhada por Elizabeth Guedes, vice-presidente da Associação Nacional de Universidades Privadas (Anup), que representa os interesses de grandes monopólios educacionais, como Anhanguera, Estácio, Kroton, Uninove e Pitágoras. Pura coincidência, talvez.

Elizabeth é irmã do chefão da economia no Governo, Paulo Guedes, o ministro ultraliberal de Bolsonaro. Ela apoia a transferência das universidades para a pasta de Ciência e Tecnologia, como o chefe do governo quer, que devem sair da responsabilidade do Ministério da Educação e Cultura (MEC), que os detentores do poder pretendem enfraquecer e até acabar.

Como defensora do interesse dos empresários da educação, Elizabeth já advogou disparates como Ensino à Distância (EaD) para cursos de saúde, algo feito sob medida para aumentar os lucros, demitindo professores e reduzindo os custos de infraestrutura. Mas, segundo Elizabeth, “O setor particular de ensino superior é o que tem mais avançado em qualidade.”

As medidas privatistas da dupla conseguiram acordar o movimento estudantil, que viu nelas motivos pra grandes manifestações estudantis em todo país. O primeiro exemplo foi no próprio Colégio Militar do Rio de Janeiro, que fez 130 anos na segunda-feira passada, e comemorou com a presença do presidente da República. Em frente ao colégio, porém, os estudantes demonstravam sua indignação em animada manifestação. “Não vai ter corte, vai ter luta”, diz um bordão do movimento.

O ato militar, no entanto, chamou a atenção a outro aspecto da questão. É que os colégios militares ficarão de fora dos cortes orçamentários promovidos pelo governo federal. Uma vez mais, só entram as escolas subordinadas ao MEC.

Grandes escolas federais de todo o país já demonstraram os efeitos das medidas oficiais. No Rio, o Colégio Pedro II, a mais antiga escola pública brasileira, reagiu com firmeza aos cortes, emitindo nota pública e promovendo reuniões de conselheiros na tentativa de reverter os cortes, mas em vão.

Também as universidades federais já demonstram os efeitos da sangria. Elas já vinham sendo atingidas por medidas restritivas do governo de Michel Temer, mas agora são mais diretamente afetadas pela fúria privatista da direita, que já ostenta resultados em todas elas, seja na redução do quadro de professores e outros funcionários, paralização de obras, extinção de programas e assim por diante.

O alvo principal é a produção de artigos e pesquisas científicas, especialmente na área de Ciências Humanas. A proibição de disciplinas como Filosofia faz parte desse roteiro de medidas restritivas, que são reveladoras. Apenas 2% dos universitários manifestam interesse por essa disciplina, mas ela forma “comunistas”, no entender do guru do presidente, o astrólogo Olavo de Carvalho. Por isso, é perigosa.

Jaime Sautchuk, é jornalista.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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