Há uma relação entre a vitamina D e o coronavírus?

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Publicado quinta-feira, 9 de julho de 2020 as 10:56, por: CdB

Estudo de universidade alemã associa deficiência de vitamina D a desenvolvimento de quadros mais graves da doença causada pelo coronavírus. Especialista, entretanto, ressalta que efeitos não foram comprovados.

Por Redação, com DW – de Berlim

É indiscutível que a vitamina D desempenha um papel em todo o corpo e cumpre funções importantes. Uma grave deficiência de vitamina D, considerada quando o valor é igual ou inferior a 12 nanogramas por mililitro de sangue, leva a deformações ósseas graves e dolorosas, chamadas de raquitismo em bebês e crianças pequenas e osteomalacia em adultos. É aqui que o consenso científico termina.

Vitamina D vem se tornando cada vez mais popular como complemento alimentar
Vitamina D vem se tornando cada vez mais popular como complemento alimentar

Ninguém sabe exatamente de quanta vitamina D as pessoas realmente precisam. A questão de quando passa a haver um quadro de deficiência também é controversa. Por esse motivo, vários valores-limite são frequentemente usados como critério. Fato é, no entanto, que a vitamina D está se tornando cada vez mais popular.

Não apenas a literatura pseudocientífica faz com que haja uma onda de novas publicações sobre a vitamina D, o número de estudos publicados sobre o tema também aumentou enormemente nos últimos anos. A vitamina D é vista atualmente não apenas como responsável por um esqueleto funcional, mas também está associada a doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e vários tipos de câncer.

O nível de vitamina D no sangue depende principalmente da luz solar. Se a radiação UV atingir a pele em quantidade suficiente, o corpo poderá produzir ele mesmo a vitamina. Estima-se que apenas de 10% a 20% da necessidade do organismo sejam cobertos através dos alimentos.

A vitamina D que sintetizamos através da radiação solar ou dos alimentos não é inicialmente biologicamente ativa. Alguns processos metabólicos devem ocorrer antes que a forma biologicamente ativa da vitamina, o chamado calcitriol, seja formada nos rins e liberada no sangue.

Além disso, muitos órgãos têm receptores aos quais a substância precursora do calcitriol se liga. Ela também está presente no sangue.

Os órgãos então usam essa substância preliminar para produzir calcitriol, que é usado para inúmeros outros processos no corpo. Esta forma de vitamina D regula a liberação de insulina, inibe o crescimento de tumores, promove a formação de glóbulos vermelhos e a sobrevivência e atividade dos macrófagos, importantes para o sistema imunológico.

Conexão com a covid-19?

Uma análise da Universidade de Hohenheim, na Alemanha, estabeleceu uma conexão entre a deficiência de vitamina D, certas doenças pré-existentes e casos mais graves de covid-19.

O texto diz: “Existem inúmeros indícios de que várias doenças não transmissíveis (pressão alta, diabetes, doenças cardiovasculares, síndrome metabólica) estão associadas a baixos níveis plasmáticos de vitamina D. Essas comorbidades, juntamente com a deficiência de vitamina D com que são frequentemente associadas, aumentam o risco de eventos graves de covid-19”.

– Esta afirmação está completamente correta – diz Martin Fassnacht, chefe de endocrinologia do Hospital Universitário de Würzburg. No entanto, ele ressalva que é uma pura associação, “uma mera observação de que esses eventos ocorrem juntos”.

O endocrinologista vê de forma bastante crítica essa moda de vitamina D. Não porque negue suas funções importantes, mas porque, até agora, estudos em humanos não foram capazes de mostrar que a vitamina D tem os poderes de cura frequentemente propagados, diz Fassnacht.

– Se você olhar mais atentamente, as esperanças de que a administração de vitamina D tenha um efeito curativo não foram confirmadas até agora – afirma.

Estudos de associação versus de intervenção

O endocrinologista ressalta que muitos estudos sobre a vitamina são estudos observacionais ou de associação. “Por definição, esses estudos não podem provar a relação causal, mas apenas apontam para meras correlações”, diz Fassnacht.

O médico tenta ilustrar isso com um exemplo. “Imagine dois grupos de pessoas de 80 anos. Um grupo é alegre, ativo e pratica esportes. Se você compará-los com o outro grupo na casa de repouso, a diferença nos níveis de vitamina D será dramática. Também a expectativa de vida seria extremamente diferente.”

No entanto, segundo o especialista, tentar explicar os diferentes níveis de condicionamento físico apenas com base no status da vitamina D deixa muito a desejar. “O nível de vitamina D no sangue é uma boa referência de quão doente alguém está. Mas nada mais do que isso”, diz Fassnacht.

Segundo Fassnacht, nenhum dos estudos de intervenção realizados até o momento, nos quais o efeito da administração de vitamina D em várias doenças foi examinado especificamente, conseguiu confirmar os estudos anteriores de associação e de laboratório que alegavam um suposto efeito positivo da vitamina D.

O artigo publicado pela Universidade de Hohenheim recomenda que “se houver suspeita de infecção pelo coronavírus, o status da vitamina D deve ser verificado e um possível déficit, sanado rapidamente”.

– Estão sendo realizados estudos para verificar se a vitamina D ajuda em relação à infecção por covid-19, mas pessoalmente eu não acredito que isso ocorra – diz o endocrinologista. No entanto, ele frisa que essas pesquisas devem ser feitas.

– Não quero descartar que existam realmente subgrupos de pessoas que se beneficiam de uma dose adicional de vitamina D”, diz, acrescentando que, afinal, está comprovado que um déficit grave é prejudicial. “Minha crença de que a vitamina ajuda é muito pequena. Mas é claro que posso estar errado.