Hong Kong condena ativistas por protesto de 2019

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Publicado quinta-feira, 1 de abril de 2021 as 10:56, por: CdB

 

O movimento pró-democracia de Hong Kong sofreu um duro golpe nesta quinta-feira. Um tribunal local condenou nove ativistas por terem organizado e participado de uma manifestação pacífica em 2019.

Por Redação, com DW – de Hong Kong

O movimento pró-democracia de Hong Kong sofreu um duro golpe nesta quinta-feira. Um tribunal local condenou nove ativistas por terem organizado e participado de uma manifestação pacífica em 2019. Na época, os manifestantes protestavam contra uma proposta de lei que permitira a extradição de cidadãos de Hong Kong para julgamentos criminais na China continental.

Hong Kong condena ativistas por protesto de 2019

O julgamento durou quatro semanas e, nesta quinta-feira, sete réus foram declarados culpados pelo Tribunal Distrital de Hong Kong de organizar e participar de uma assembleia não autorizada. Outros dois haviam se declarado culpados previamente. Os ativistas podem pegar até 10 anos de prisão, embora suas sentenças, que serão anunciadas em data posterior, provavelmente serão mais brandas.

Entre os réus estão ex-deputados e o magnata da comunicação Jimmy Lai, fundador do jornal Apple Daily, tabloide crítico do governo. Lai foi preso em agosto depois que cerca de 200 policiais invadiram a redação do Apple Daily. Ele também foi acusado de conspiração com potências estrangeiras e colocar em risco a segurança nacional.

No banco dos réus, esteve ainda o proeminente advogado e ex-deputado Martin Lee, de 82 anos, considerado o pai da democracia de Hong Kong. Antes da transferência da antiga colônia britânica à China, em 1997, Lee foi um dos juristas escolhidos por Pequim para redigir a Lei Básica do território, uma miniconstituição que deveria vigorar durante 50 anos. Em um caso separado, Lee enfrenta acusações por supostas violações à segurança nacional.

Os réus restantes são as ex-legisladoras Margaret Ng e Cid Ho Sal-lan, o advogado Alberto Ho Chun-yan, e os ativistas veteranos Lee Cheuk-yan e Leung Kwok-hung. Os ex-deputados Au Nok-hin e Leung Yiu-chung são os dois ativistas que se declararam culpados previamente.

“Vamos continuar a luta”

Pouco antes de entrar no tribunal, Lee Cheuk-yan relatou a repórteres sobre uma “situação difícil em Hong Kong” e classificou o processo como retaliação política. “Vamos continuar a luta”, disse. Um pequeno grupo de manifestantes protestou em frente ao tribunal, reivindicando, entre outras questões, anistia aos participantes nas manifestações.

Na véspera da decisão judicial, o correspondente da agência alemã de notícias Deutsche Welle (DW) em Taipei, William Yang, entrevistou Lee, que demonstrou manter seu posicionamento, apesar da ameaça de prisão. “Eles podem nos prender, mas não podem prender nosso espírito”, disse Lee, que acrescentou que Hong Kong está se transformando numa China, mas que ainda há esperança.

– Estamos chegando muito perto do sistema da China, mas ainda não atingimos – disse. “Devemos nos ater ao espaço muito estreito que temos. Embora as coisas estejam ficando muito difíceis para as pessoas em Hong Kong e parece que tanto o sistema jurídico quanto o sistema político se parecem mas com os da China, acho que ainda temos uma sociedade civil muito forte e precisamos mantê-la.”

Por fim, Lee convocou a comunidade internacional “a lutar pelos valores e por aquilo em que acredita, que não se comprometa em prol do retorno econômico”. “Acho que pelo povo de Hong Kong continuaremos lutando, manteremos o espírito ativo e continuaremos acendendo velas para mostrar o caminho a ser seguido, mesmo em um túnel muito escuro. Esperamos que o mundo possa ver nossa luz e estar conosco”, finalizou.

Lee é conhecido por ajudar a organizar as vigílias anuais à luz de velas realizadas em Hong Kong no aniversário da repressão violenta aos protestos pró-democracia ocorrida na Praça da Paz Celestial, em Pequim, em 1989.

Comício autorizado virou passeata proibida

Os ativistas foram considerados culpados por seu envolvimento num protesto realizado em 18 de agosto de 2019, quando cerca de 1,7 milhão de pessoas marcharam pelas ruas da cidade contra um projeto de lei que permitiria a extradição de suspeitos de crimes à China continental.

Na época, os organizadores da Frente de Direitos Humanos Civis receberam a permissão para realizar um comício no Parque Vitória, mas não a marcha, o que acabou por ocorrer quando as multidões se espalharam pelas ruas, ocupando as principais vias da cidade numa caminhada até os principais edifícios do governo. Diferentemente de muitos protestos em 2019, este permaneceu pacífico.

Os réus foram presos em abril de 2020 entre um grupo de 15 pessoas acusadas de organizar o comício e outros dois protestos. A ação das autoridades de Hong Kong gerou repreensão e condenação internacional, incluindo uma notificação formal das Nações Unidas.