Irã ataca bases usadas pelos Estados Unidos no Iraque

Arquivado em: América do Norte, Destaque do Dia, Mundo, Últimas Notícias
Publicado quarta-feira, 8 de janeiro de 2020 as 10:16, por: CdB

Pentágono confirma que duas bases que abrigam tropas norte-americanas foram atingidas por mísseis lançados a partir do Irã. Ataque ocorre horas depois de sepultamento de general iraniano morto pelos EUA.

Por Redação, com DW – de Teerã 

O Irã lançou mísseis contra duas bases que abrigam tropas norte-americanas no Iraque. Segundo os EUA, pelo menos 12 mísseis foram lançados a partir do Irã contra as bases de Al Asad e Erbil na madrugada desta quarta-feira.

Irã ataca bases usadas pelos EUA no Iraque
Irã ataca bases usadas pelos EUA no Iraque

O anúncio do ataque foi originalmente divulgado pela imprensa estatal do Irã. Segundo o governo iraniano, a operação faz parte de uma campanha de retaliação contra os EUA pelo ataque que matou o general Qassim Soleimani na semana passada.

A operação, segundo a imprensa iraniana, foi batizada como “Mártir Soleimani” e foi conduzida pela divisão aeroespacial da Guarda Revolucionária, que lançou mísseis superfície-ar contra as bases.

“A vingança feroz da Guarda Revolucionária já começou”, disse a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã em um comunicado no Telegram, segundo o jornal The New York Times.

A base aérea de Al Asad fica a 120 quilômetros a oeste de Bagdá. Já a base de Erbil fica no norte do Iraque. Ainda não há informações oficiais sobre mortes e extensão dos danos, mas relatos iniciais indicam que nenhum norte-americano ou membro das forças da coalizão que atua no Iraque foi morto ou ferido.

Pouco depois de o ataque ser anunciado pelos iranianos, o Pentágono confirmou a ação em um comunicado. “Aproximadamente às 17:30 (horário da costa leste dos EUA) de 7 de janeiro, o Irã lançou mais de uma dúzia de mísseis balísticos contra as forças militares dos EUA e da coalizão no Iraque. Está claro que esses mísseis foram lançados do Irã e tiveram como alvo pelo menos duas bases militares iraquianas que abrigam militares dos EUA e da coalizão em Al Asad e Erbil.”

Segundo o Pentágono, as bases já estavam em alerta máximo por conta de “indicações de que o regime iraniano planejava atacar” forças norte-americanas na região.

O regime iraniano

Além de tropas norte-americanas, Erbil também abriga pelo menos 115 militares da Alemanha que atuam como consultores e no treinamento de forças iraquianas e curdas. A base de Al Asad, por sua vez, também abriga cerca de 70 militares da Noruega e foi visitada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, em 2018.

Segundo a agência de notícias alemã DPA, o comando local das Forças Armadas da Alemanha informou que nenhum soldado do país ficou ferido no ataque a Erbil. “Eles estão bem”, disse um porta-voz.

Já a Casa Branca afirmou que o presidente dos EUA, Donald Trump, foi informado sobre os ataques.

– Estamos cientes dos relatos de ataques às instalações dos EUA no Iraque. O presidente foi informado e está monitorando a situação de perto e consultando sua equipe de segurança nacional – disse Stephanie Grisham, secretária de imprensa da Casa Branca.

A equipe do presidente Trump chegou a afirmar que o presidente estava se preparando para um possível pronunciamento ainda durante a noite, mas, depois, a Casa Branca informou que ele não falaria mais. Pelo Twitter, Trump disse que uma declaração oficial será divulgada na quarta-feira. “Até aqui tudo bem! Temos as Forças Armadas mais poderosas e bem equipadas do mundo!”, escreveu o presidente, com uma retórica menos agressiva do que em tuítes publicados nos últimos dias.

Após o ataque, a Guarda Revolucionária do Irã ainda ameaçou envolver mais aliados dos EUA em sua vingança.

“Estamos alertando todos os aliados dos norte-americanos que deram suas bases ao seu exército terrorista de que qualquer território que seja usado como ponto de partida de atos agressivos contra o Irã será alvo (de retaliação) “, diz um comunicado divulgado pela TV do Irã.

Na terça-feira, o Parlamento do Irã aprovou uma lei que designou as Forças Armadas dos EUA como “terroristas”. A Guarda citou como possíveis alvos de uma retaliação as cidades de Haifa, em Israel, e de Dubai, nos Emirados Árabes.

O ataque ocorreu horas depois do sepultamento do comandante militar iraniano Qassim Soleimani, que foi morto em Bagdá na última sexta-feira durante um ataque norte-americano conduzido por um drone.

Soldados

Ainda na terça-feira, o secretário de Defesa dos EUA, Mark Esper, já havia dito que os EUA estavam esperando uma eventual retaliação do Irã pela morte de Soleimani.

– Acho que devemos esperar que eles retaliem de alguma forma – disse Esper em entrevista coletiva no Pentágono. “Estamos preparados para qualquer contingência. E então responderemos adequadamente ao que eles fizerem.”

Os EUA têm cerca de 5 mil soldados no Iraque.

Após o ataque, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif, disse que a operação contra as bases foi “concluída” e que a ação foi “proporcional” ao que prevê o artigo 51 da Carta das Nações Unidas, cujo texto autoriza países a agir em autodefesa. Segundo ele, a operação teve como alvo bases “usadas num ataque covarde” contra cidadãos do Irã.

Ele também disse que seu país “não busca agravar” a situação ou provocar uma guerra, mas que Teerã “vai se defender contra qualquer agressão”, aparentemente sugerindo que o Irã não deve tomar novas ações retaliatórias por enquanto e que vai aguardar a reação norte-americana.

Já Saeed Jalili, um conselheiro do líder supremo do Irã. Ali Khamenei, publicou no Twitter uma imagem com a bandeira do Irã.

A publicação parece uma referência a uma mensagem que Donald Trump publicou na última sexta-feira, após a morte do general Soleimani, que mostrava uma bandeira dos EUA.

O ministro das Telecomunicações do Irã, Mohammad-Javad Azari Jahromi, por sua vez, escreveu no Twitter: “Caiam fora da nossa região!”

O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, disse nesta quarta-feira que o ataque não foi suficiente para se vingar dos EUA e defendeu a expulsão de todas as tropas norte-americanas da região do Oriente Médio.

– Eles ganharam uma tapa na cara, mas tal ação militar não é suficiente. A presença corrupta dos EUA deve acabar – disse o líder, em um discurso na cidade de Qom, que foi transmitido pela televisão.

Guerra, revolta e destruição

Khamenei disse ainda que os norte-americanos levaram “guerra, revolta e destruição” para o Oriente Médio, diante de uma multidão que repetidamente gritava “morte aos EUA” e “morte a Israel”. “A região não aceita a presença dos Estados Unidos”, insistiu.

O líder supremo elogiou também Soleimani, a quem descreveu como “corajoso” e “grande combatente e revolucionário”, comprometido com a Revolução Islâmica e o legado do aiatolá Ruhollah Khomeini.

O general Soleimani, de 62 anos, era líder da poderosa Força Quds da Guarda Revolucionária iraniana, unidade de elite responsável pelo serviço de inteligência e por conduzir operações militares secretas no exterior. Ele era considerado a segunda pessoa mais importante do Irã, atrás apenas do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.

Além de prometer vingança, o Irã anunciou que deixará de respeitar todos os limites impostos pelo acordo nuclear assinado em 2015.

Para justificar o bombardeiro que matou o general, os Estados Unidos o acusaram de matar soldados norte-americanos e de estar planejando a ataques a tropas do país. A morte de Soleimani, por sua vez, ocorreu três dias depois de uma milícia iraquiana apoiada pelo Irã atacar a embaixada dos EUA em Bagdá.

Antes disso, o ano de 2019 já havia sido marcado por uma série de choques entre o Irã, os EUA e os aliados dos norte-americanos na região. Os episódios de tensão incluíram o bombardeio de uma mega refinaria saudita, a derrubada de um drone dos EUA e a tomada de um petroleiro britânico pelos iranianos. No ano passado, Trump afirmou ainda que cancelou na última hora um ataque iminente ao Irã.

As relações entre os EUA e o Irã, que são turbulentas desde 1980, voltaram a se deteriorar em 2018, quando os norte-americanos se retiraram do acordo nuclear assinado com Teerã e voltaram a impor sanções contra os iranianos.

Ameaças

Em meio às ameaças de retaliação por parte de Teerã,  o presidente dos EUA, Donald Trump, avisou que os militares dos EUA fizeram uma lista de 52 locais no Irã que podem ser atacados e que as forças norte-americanas os atingiriam “muito rápido e com muita força” se a república islâmica atacasse pessoal ou bens norte-americanos.

Devido à escalada na tensão no Oriente Médio, a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) proibiu voos norte-americanos sobre o espaço aéreo do Iraque, Irã e em algumas regiões do Golfo Pérsico. A agência alertou para o “potencial erro de cálculo ou identificação incorreta” de aeronaves civis.

As restrições de voo costumam ser preventivas para evitar que em zonas de conflitos aviões civis sejam confundidos com militares. A FAA disse que emitiu a proibição devido à “intensificação das atividades militares e ao aumento das tensões políticas no Oriente Médio”.

Companhias aéreas e também suspenderam voos pelo espaço aéreo do Irã e do Iraque depois que um avião ucraniano caiu logo após decolar do aeroporto de Teerã. Investigações preliminares apontam que o incidente teria sido causado por uma falha mecânica.

Entre as empresa que estão evitando a rota estão a Lufthansa, Air France, Qantas, Malaysia Airlines e Singapore Airlines. A Lufthansa cancelou ainda voos diários entre Frankfurt e Teerã e um para Erbil, no Iraque, que estava programado para o próximo sábado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *