Jornalistas mulheres estão sob ameaça no Brasil

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Publicado terça-feira, 3 de maio de 2022 as 12:51, por: CdB

Alvos cada vez mais constantes de ataques misóginos, repórteres mulheres enfrentam dificuldades de exercer plenamente a profissão no país. Agressões pioraram durante o governo Bolsonaro.

Por Redação, com DW – de Brasília

Em 12 anos de experiência em redações dos grupos Estado e Folha, em São Paulo, a jornalista Fabiana Cambricoli foi vítima de diversas agressões virtuais por conta de seu trabalho como repórter. Durante a pandemia, ela sofreu perseguições orquestradas a cada reportagem que questionava o uso de medicamentos sem evidência científica contra covid-19.

Mulheres jornalistas estão sob ameaça no Brasil

– Ameaças e xingamentos misóginos passaram a ser constantes – conta Cambricoli. “Me senti completamente vulnerável e desamparada.” A jornalista relata ainda outro episódio que ocorre após uma reportagem com críticas de pacientes de um serviço de saúde implementado pela prefeitura paulistana sob a gestão do tucano João Doria, em 2017.

– Uma página do Facebook, que apoiava o Doria, publicou meu perfil pessoal, inclusive destacando uma foto minha de viagem, em férias, a Cuba. Começaram a dizer que eu era comunista. Descobriram meu celular e passei a receber mensagens ameaçadoras por WhatsApp – conta. “Se fossem críticas à matéria, tudo bem, mas a maioria eram ofensas pessoais, com xingamentos típicos dirigidos a mulheres, como ‘vadia’, ‘putinha’, ‘vaca’, ‘vagabunda’. Havia ameaças e incitação ao ódio.”

Apesar dos ataques, Cambricoli jamais deixou de realizar seu trabalho, porém, passou a tentar antecipar as reações que surgiriam após a publicação de determinadas reportagens e restringiu sua atuação nas redes sociais. “Isso não me impedia de trabalhar, mas me deixava mais tensa, como se estivesse sempre com a faca no pescoço, pensando na repercussão pessoal do trabalho”, diz. “Mesmo tendo 100% de segurança de minha apuração e sendo supercriteriosa, dando espaço para todos os lados.”

Os ataques a Cambricoli não são um caso isolado na realidade de jornalistas no Brasil. Uma pesquisa divulgada no mês passado pelas organizações Gênero e Número e Repórteres Sem Fronteiras aponta que 55% das jornalistas mulheres e/ou LGBTs enfrentam dificuldades no trabalho diário no atual contexto de desinformação, para 92,5% delas, o fenômeno está em um estágio “muito grave”.

Para 86% das entrevistadas, o cenário piorou no governo do atual presidente Jair Bolsonaro, iniciado em 2018. Quase 42% delas relataram já terem sido vítimas de violência online por causa do exercício da profissão e 85% se viram obrigadas a mudar o comportamento nas redes sociais como forma de se protegerem de ataques.

– Toda vez que você publica uma matéria contra o governo Bolsonaro, você sofre agressões. Nós mulheres chegamos a receber até imagens pornográficas – contou uma jornalista que trabalha na capital paulista ouvida pela agência alemã Deutsche Welle (DW) que preferiu não ser identificada por temer represálias.

– Uma vez recebi uma mensagem no WhatsApp. A pessoa dava detalhes sobre minha rotina, falava sobre meu filho citando o nome dele e a escola onde ele estudava. Dizia para eu tomar cuidado, apenas. Fiquei algumas semanas completamente em choque, olhando para todos os lados sempre que estava em local aberto. Depois, passou. O pior disso tudo é que a gente acaba se acostumando e até naturalizando um problema que não deveria existir num estado democrático – conta uma jornalista de Brasília, que também preferiu falar na condição de anonimato.

Mulheres como alvo

Segundo a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), as agressões contra jornalistas aumentaram 248% de 2019 até hoje. Somente em 2021, foram registrados 453 ataques contra comunicadores e meios de comunicação, em 69% das vezes, agentes estatais eram os perpetuadores, sendo que o presidente Bolsonaro, sozinho, foi responsável por 89 destas agressões no último ano.

Destes ataques, 10% foram classificados como “de gênero”, ou seja, que trazem elementos ligados à sexualidade, orientação sexual ou identidade de gênero como recurso para agredir as vítimas. Destes 78% dos alvos foram mulheres.

Um relatório da Abraji mostrou ainda que 127 jornalistas e meios de comunicação foram alvos de ataques de gênero em 2021, sendo que mulheres, cis e trans, representam 91% das vítimas. Em 95% dos casos os agressores eram homens.

De acordo com a assessora jurídica da Abraji, Letícia Kleim as mulheres sofrem uma dupla violência, por ser jornalistas e por ser mulher. “A posição que elas ocupam de projeção com a atividade jornalística as tornam alvos frequentes do machismo e da misoginia”. No dia a dia, as jornalistas acabam sendo atacadas geralmente por argumentos que vão além do trabalho em si, mas com agressões relacionadas à moral, aparência e sexualidade.

A secretária-executiva da Abraji, Cristina Zahar acrescenta que esses ataques “cerceiam a liberdade de imprensa de várias formas”, porque “intimidam os profissionais, provocam a autocensura e desencorajam investigações de interesse público”. “E o único objetivo é prejudicar o trabalho jornalístico de fiscalizar o poder público e investigar os poderosos. E, como é sabido, sem liberdade de imprensa não há democracia”, diz ela.

Misoginia impulsiona ataques

– A misoginia e a homofobia são peculiares a uma parcela significativa dos brasileiros, que era apenas conservadora até o golpe de 2016 e a subsequente eleição de um presidente da República de extrema-direita. Com a óbvia hostilidade dele a negros, indígenas, LGBT+ e jornalistas em geral, esse preconceito violento acabou atingindo também as repórteres, outrora protegidas pela respeitabilidade dos jornais e revistas, agora também em xeque –  avalia a jornalista Leda Beck, vice-presidente da Associação Profissão Jornalista (APJor).

Para ela, Bolsonaro “dá o exemplo odiento aos berros, exatamente como fez nos seus 30 anos de deputado federal”. “Ele ‘naturaliza’ aberrações como essas e difunde a ideia de que o insulto e o desrespeito são aceitáveis”, comenta. “Pior: supõe que se trata de ‘liberdade de expressão’.”

Beck lembra, no entanto, que o assédio moral e sexual às jornalistas sempre existiu nas grandes redações brasileiras e na interação com fontes, a diferença agora é que esses comportamentos extrapolaram para o domínio público. “Para um homem que odeia jornalistas em geral [Bolsonaro], ser abordado por repórteres mulheres deve ser intolerável.”

Cerceamento do papel da mídia

Para os especialistas ouvidos pela DW, a sociedade também paga um preço por esse fenômeno. Com essa violência, muitas jornalistas acabam se impondo, conscientemente ou não, uma autocensura. Como resultado, o direito à informação fica prejudicado, já que muitas investigações podem não ser feitas a contento.

– Se a repórter não pode concluir uma entrevista porque é insultada e ameaçada, não é só a liberdade de imprensa que está sob ataque: é o próprio direito à informação, um pilar essencial das sociedades democráticas – pontua Beck.

A jornalista Márcia Neme Buzalaf, professora na Universidade Estadual de Londrina (UEL), concorda que essa situação acabou ficando “mais latente” sob o atual governo, principalmente porque há um gabinete dedicado a movimentar as redes sociais com desinformação, “usando de piadinhas, enxurrada de memes, muitas vezes sexualizando jornalistas que fazem trabalhos investigativos”.

– (Um efeito disso) é a possível autocensura”, diz ela. “Principalmente em relação a redes sociais. Isso porque a pessoa é ameaçada, muitas vezes envolvendo a família, os filhos. Fica com medo, obviamente – afirma Buzalaf.

Para a jornalista Patrícia Paixão, professora na Universidade Presbiteriana Mackenzie, um fator que abala mais é que os ataques virtuais direcionados a mulheres muitas vezes trazem “conotação sexual”. E ela concorda que muitas vezes as jornalistas são “vencidas pelo cansaço” e passam a evitar certos temas, ainda que apenas nas redes sociais. “Toda mulher que já trabalhou como repórter em Brasília, e eu fui uma delas, já sentiu na pele como o machismo atinge as mulheres nessas coberturas”, comenta.

– Autoridades e personalidades, eleitas nas urnas ou não, tendem a ameaçar mulheres repórteres caso elas questionem sobre denúncias envolvendo as empresas ou órgãos públicos que dirigem. A misoginia, a homofobia e preconceitos raciais afloram quando os repórteres não têm padrões sociais masculinos, o que demonstra um atraso cultural inaceitável – afirma o jornalista Angelo Sottovia Aranha, professor na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

– No entanto, ao facilitar a troca de ofensas em virtude do distanciamento físico, as redes sociais inviabilizaram o debate, o bom debate fundamentado em conhecimentos, na história, na vivência e na ciência. Sem debates inteligentes será difícil reverter esse quadro de desrespeito, esse abuso que só amplifica a desinformação e promove a ignorância – acrescenta Sottovia.

 

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