Lavrador morre após tortura em delegacia do Piauí

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Publicado domingo, 11 de maio de 2003 as 16:12, por: CdB

O assassinato do lavrador José Wilson Coelho, mais conhecido por Gargural, levou a polícia e entidades de direitos humanos do Piauí a ficarem estarrecidas e denunciarem nacionalmente sua morte. Ele foi morto na madrugada do último sábado (10) na cidade piauiense de Anísio de Abreu.

De acordo com laudos periciais, a vítima foi torturada e morta por afogamento dentro da delegacia daquela cidade que nunca havia registrado um homicídio em sua história. Após o crime, os policiais acusados trancaram a delegacia e fugiram.

Conforme Raimundo Coelho, tio da vítima, o seu sobrinho foi preso na noite de sexta-feira passada (9) quando participava de um evento em Anísio de Abreu. O agricultor, ao sair do evento, tentou retornar novamente, sendo impedido e obrigado a pagar ingresso outra vez. Como teria se recusado a desembolsar outra entrada, os seguranças do local chamaram os policiais da cidade, que prenderam Gargural. No momento da detenção, a vítima estava embriagada.

Durante a prisão, realizada pelos policiais militares identificados por Valdirene, Severino e Valdir, o lavrador não aceitou ser algemado. Enquanto discutiam, o lavrador se desvencilhou dos policiais, mas, em seguida, foi pego novamente.

– Ele foi levado para a delegacia e passou a madrugada tendo a cabeça colocada em um tambor de água. Isso foi um castigo porque ele fugiu dos policiais. Fizeram tanto com ele que o mataram. Há mais de 50 testemunhas do que a polícia fez com meu sobrinho – disse Raimundo Coelho.

Os policiais de Anísio de Abreu ainda levaram José Wilson para uma clínica da cidade, mas o lavrador já chegou morto. Após constatarem que tinha falecido, os três policiais acusados pelo crime fecharam a delegacia e fugiram da cidade. O corpo de José Wilson Coelho foi levado para Teresina, capital do Estado, para realização de necrópsia.

Conforme o advogado Décio Solano, da Comissão de Direitos Humanos da OAB-PI, o corpo do lavrador tinha muitas marcas de violência, sendo constatada morte por tortura. “Não podemos aceitar esse ato”, lamentou o advogado.

O comandante da Polícia Militar do Piauí, coronel Edvaldo Marques, determinou que seja instaurado inquérito policial para apurar a participação dos policiais militares no assassinato de Gargural. Com o crime e a fuga, a cidade ficou sem policiamento, uma vez que eles eram os únicos representantes da lei no município.