Líder negacionista brasileiro ajuda a disseminar o coronavírus, afirmam analistas

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Publicado sábado, 2 de janeiro de 2021 as 14:40, por: CdB

Ao longo de quase um ano, Bolsonaro usou termos como “gripezinha”, disse que não morreriam nem 800 pessoas por Covid-19, chamou o Brasil de “país de maricas”, ignorou recomendações científicas e mostrou um apego inabalável à hidroxicloroquina.

Por Redação, com Ansa – de São Paulo

Desde que o novo coronavírus começou a se propagar por diversos países do mundo, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, tem dado declarações polêmicas – e até mesmo preconceituosas – para tentar negar e minimizar os impactos da pandemia.

Bolsonaro é conhecido, mundialmente, como um vetor contra a Ciência e as vacinas
Bolsonaro é conhecido, mundialmente, como um vetor contra a Ciência e as vacinas

Ao longo de quase um ano, Bolsonaro usou termos como “gripezinha”, disse que não morreriam nem 800 pessoas por Covid-19, chamou o Brasil de “país de maricas”, ignorou recomendações científicas e mostrou um apego inabalável à hidroxicloroquina.

Até a publicação deste texto, o Brasil já contabiliza mais de 190 mil mortes e cerca de 7,4 milhões de casos confirmados na pandemia.

Alertas ignorados

Em entrevista à agência italiana de notícias Ansa, o presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Fernando Pigatto, explica que diversas autoridades se reuniram no início de fevereiro, incluindo representantes do Ministério da Saúde e da Fiocruz, para debater um plano que poderia ter evitado essa quantidade de contágios e vítimas.

A partir desse momento, foram feitas orientações, deliberações, recomendações, campanhas públicas e alertas para a população. Todas elas também foram sistematicamente ignoradas pelo presidente.

— Entristece ver todos os esforços que a gente fez e que outras autoridades no Brasil fizeram, seja de esfera governamental, da sociedade civil, dos conselhos, profissionais de saúde, autoridades sanitárias do Brasil e do mundo, para que um presidente da República negasse tudo aquilo que a ciência mostra — lamenta Pigatto.

‘Gripezinha’

Para o presidente do CNS, Bolsonaro foi um “mau exemplo” durante a crise, e sua negligência e seu negacionismo podem ser enquadrados como “crime de responsabilidade”. “Isso leva as pessoas a desacreditarem naquilo que a própria ciência mostra, porque um presidente, independentemente da forma como atua, é exemplo para as pessoas, serve de modelo.

Se o presidente diz ‘isso é uma gripezinha’ ou um ‘resfriadinho’, ‘não vai acontecer nada’, as pessoas vão achar que isso é o certo por estar vindo da boca de um presidente”, acrescenta.

Confira abaixo uma retrospectiva das declarações negacionistas de Bolsonaro e suas mudanças de acordo com a evolução da pandemia:

28 de janeiro

“Pelo que parece, tem uma família [de brasileiros] na região onde o vírus está atuando. Não seria oportuno a gente tirar de lá [China], com todo o respeito. Pelo contrário, agora não vamos colocar em risco nós aqui por uma família apenas. A gente espera que os dados da China estejam reais, só isso de pessoas contaminadas. Se bem que são bastante. Mas a gente sabe que esses países são mais fechados no tocante à informação.”

A declaração foi dita quando Bolsonaro comentava a possibilidade de resgatar brasileiros confinados em Wuhan, marco zero da pandemia. Pouco depois, o presidente mudaria de ideia e ordenaria uma missão paga com cartão corporativo para repatriar os brasileiros.

9 de março

“Tem a questão do coronavírus também que, no meu entender, está superdimensionado, o poder destruidor desse vírus.”

Frase dita em Miami, durante uma viagem oficial aos EUA, quando o Sars-CoV-2 já se alastrava pela Europa. Naquele momento, o Brasil tinha 25 casos confirmados e nenhum óbito na pandemia. Quase toda a comitiva brasileira seria diagnosticada com o novo coronavírus após a missão nos Estados Unidos.

11 de março

“Eu não sou médico, não sou infectologista. O que eu ouvi até o momento [é que] outras gripes mataram mais do que esta”.

O número de contágios havia subido de 25 para 52 em dois dias, indicando o início de uma progressão exponencial dos casos, mas, em entrevista no Palácio da Alvorada, Bolsonaro insistia em minimizar o problema.

16 de março

“Se a economia afundar, afunda o Brasil. E qual o interesse dessas lideranças políticas? Se acabar a economia, acaba qualquer governo. Acaba o meu governo. É uma luta de poder.”

Um dia antes da confirmação da primeira morte por Covid no Brasil, Bolsonaro usou um argumento que perduraria em seu governo ao longo de 2020: a suposta oposição entre saúde e economia.

22 de março

“O número de pessoas que morreram de H1N1 é na ordem de 800 pessoas. A previsão é não chegar a essa quantidade de óbitos no tocante ao coronavírus.”

Declaração dada em entrevista à TV Record. O Brasil superaria a previsão de Bolsonaro menos de 20 dias depois.

24 de março

“Pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria acometido, quando muito, de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico, daquela conhecida televisão.”

Bolsonaro disse uma das frases mais marcantes de sua gestão na pandemia durante pronunciamento nacional em rádio e televisão, no qual também criticou o fechamento de escolas e comércios para conter a crescente disseminação do vírus. Sua fala foi recebida com panelaços nas maiores cidades do país, que já somava 2.201 casos e 46 mortes por Covid.

26 de março

“O brasileiro tem que ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto […] e não acontece nada com ele. Eu acho até que muita gente já foi infectada no Brasil, há poucas semanas ou meses, e ele já tem anticorpos que ajudam a não proliferar isso daí.”

No fim de março, após os Estados Unidos se tornarem o país com mais casos de coronavírus em todo o mundo, Bolsonaro não acreditava que o Brasil seguiria pelo mesmo caminho. Hoje é o terceiro com mais contágios e o segundo em óbitos em termos absolutos.

2 de abril

“Sou católico, e minha esposa, evangélica. É um pedido dessas pessoas. Estou pedindo um dia de jejum para quem tem fé. Então, a gente vai, brevemente, com os pastores, padres e religiosos, anunciar. Pedir um dia de jejum para todo o povo brasileiro, em nome, obviamente, de que o Brasil fique livre desse mal o mais rápido possível.”

Essa foi uma das primeiras declarações de Bolsonaro em que ele reconhecia, a seu modo, que o Brasil enfrentava de fato um problema. Naquele dia, o país tinha 7.911 casos confirmados e 299 vítimas.

20 de abril

“Eu não sou coveiro, tá certo?”

Essa foi a resposta do presidente à pergunta de um jornalista que o questionava sobre o elevado número de mortos naquele dia (116).

28 de abril

“E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre.”

Bolsonaro reagiu com irritação ao ser questionado por uma jornalista sobre o fato de o Brasil ter ultrapassado a China em número de óbitos por Covid. Na sequência, ele perguntou se alguém gravava a entrevista ao vivo. Quando soube que sim, afirmou que lamentava as mortes. “Lamento a situação que nós atravessamos com o vírus. Nos solidarizamos com as famílias que perderam seus entes queridos, que a grande parte eram pessoas idosas. Mas é a vida. Amanhã vou eu”.

Em 28 de abril, o Brasil tinha 72.149 casos e 5.050 óbitos na pandemia.

19 de maio

“Toma quem quiser, quem não quiser, não toma. Quem é de direita toma cloroquina. Quem é de esquerda toma Tubaína.”

Em sua transmissão semanal ao vivo no Facebook, o presidente insistiu no uso da cloroquina e da hidroxicloroquina contra a Covid-19. Naquela época, não havia nenhuma comprovação científica da eficácia dos medicamentos, que, meses mais tarde, seriam descartados devido a resultados negativos em estudos de larga escala.

7 de julho

“Muita gente tem morrido em casa, não vai ao hospital porque tem medo de pegar o vírus. O pânico também mata. O que eu posso falar para todo mundo, eu já dizia no passado e era criticado, esse vírus é como uma chuva, vai atingir você.”

Declaração dada por Bolsonaro após ele ter anunciado que havia sido diagnosticado com o novo coronavírus. Não existem estatísticas sobre mortes causadas por pânico no Brasil, mas, naquele momento, o país contabilizava 66.741 óbitos na pandemia do novo coronavírus.

9 de agosto

“Muitos gestores e profissionais de saúde fizeram de tudo pelas vidas do próximo, diferentemente daquela grande rede de TV que só espalhou o pânico na população e a discórdia entre os Poderes. No mais, essa mesma rede de TV desdenhou, debochou e desestimulou o uso da hidroxicloroquina, que, mesmo não tendo ainda comprovação científica, salvou a minha vida e, como relatos, a de milhares de brasileiros.”

Após o Brasil ter superado as 100 mil mortes confirmadas por Covid-19, Bolsonaro atacou a Rede Globo e voltou a defender a hidroxicloroquina

18 de setembro

“Vocês não pararam durante a pandemia. Vocês não entraram na conversinha mole de ‘fica em casa’. Isso é para os fracos.”

Em evento com fazendeiros no Mato Grosso, Bolsonaro ironizou as pessoas que seguiam a recomendação de médicos e cientistas do mundo todo de ficar em casa. O distanciamento social sempre que possível ainda hoje é a principal arma contra o coronavírus. Naquele momento, o Brasil já acumulava 4.495.183 infecções e 135.793 vítimas.

10 de novembro

“Tem que acabar com esse negócio. Lamento os mortos, todos nós vamos morrer um dia. Não adianta fugir disso, fugir da realidade, tem que deixar de ser um país de maricas.”

Com o Brasil somando 5.700.044 contágios e 162.829 óbitos, Bolsonaro deu uma declaração homofóbica para, mais uma vez,

criticar medidas de distanciamento social, embora a Covid-19 já fosse uma das principais causas de morte no país em 2020.

15 de dezembro

“Eu não posso falar como cidadão uma coisa e como presidente outra. Mas como eu nunca fugi da verdade, eu te digo: eu não vou tomar vacina. E ponto final. Se alguém acha que a minha vida está em risco, o problema é meu. E ponto final.”

Após ter passado quase um ano minimizando o perigo da pandemia, Bolsonaro passou a mirar nas vacinas que começaram a ser usadas para conter o Sars-CoV-2. Em mais de uma vez ao longo de dezembro, o presidente jogou dúvidas sobre a segurança dos imunizantes, enquanto o Ministério da Saúde conduzia uma estratégia errática referente à compra das vacinas.

17 de dezembro

“Na Pfizer, está bem claro no contrato: ‘nós não nos responsabilizamos por qualquer efeito colateral’. Se você virar um jacaré, é problema de você. Não vou falar outro bicho aqui para não falar besteira. Se você virar o super-homem, se nascer barba em alguma mulher aí ou um homem começar a falar fino, eles não têm nada a ver com isso.”

19 de dezembro

“A pandemia realmente está chegando ao fim. Os números têm mostrado isso aí. Estamos com uma pequena ascensão agora, o que se chama de pequeno repique; pode acontecer. Mas a pressa para a vacina não se justifica, porque você mexe com a vida das pessoas.”

Em âmbito federal, o Brasil tem apenas uma vacina assegurada, a da Universidade de Oxford/AstraZeneca, que sofreu um atraso nos ensaios clínicos, além daquelas da Covax Facility, iniciativa para facilitar a distribuição de imunizantes no mundo e ainda sem previsão de entregar as primeiras doses.

O Brasil soma mais de 7,4 milhões de casos do novo coronavírus e 191.139 mortes, com tendência de alta.

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