Lula, mesmo sob risco de ser preso, mantém poder de indicar o sucessor

Arquivado em: Brasil, Últimas Notícias
Publicado quarta-feira, 31 de janeiro de 2018 as 17:12, por: CdB

Com prestígio inabalável diante do eleitor brasileiro, o ex-presidente Lula segue como principal força política do país, mesmo sob o risco de ser preso por ordem da Justiça Federal.

 
Por Redação – de São Paulo

 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) manteve a liderança nas intenções de voto para a eleição presidencial de outubro, apesar da condenação em Segunda Instância. Inicialmente, no cenário sem o líder petista, o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) lidera e até quatro concorrentes disputam o segundo lugar, apontou pesquisa Datafolha nesta quarta-feira.

Lula, com bebê no colo, fala a uma multidão na Baixada Fluminense
Lula, com bebê no colo, fala a uma multidão na Baixada Fluminense

De acordo com o levantamento, publicado no diário conservador paulistano Folha de S.Paulo, Lula tem 37% das intenções de voto; contra 16% de Bolsonaro e 7% tanto para o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB). Idem para o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), em um cenário sem a participação de Marina Silva (Rede). Nos demais cenários, a participação de Lula varia entre 34% e 36%, enquanto Bolsonaro aparece com 16% a 18% das intenções de voto.

No entanto, sem a presença de Lula os votos do petista são pulverizados. Até agora, Lula não indicou qualquer herdeiro para os seus votos, caso seja impedido de concorrer nas próximas eleições. Assim, Bolsonaro lidera com 18% das intenções de voto, contra 13% da ex-ministra Marina Silva (Rede); 10% de Ciro e 8% tanto para o apresentador de TV Luciano Huck (sem partido) quanto para Alckmin, em um dos cenários. Nos demais, sem Lula, Bolsonaro aparece com 19 e 20% das intenções de voto.

Fragilidade

Além de liderar em todos os cenários, vencendo com facilidade qualquer candidato, o petista ainda se apresenta como o melhor cabo eleitoral do país. É, segundo o estudo, o político com um alto potencial de transferência de votos. Ao todo, 44% dos eleitores votariam em um candidato indicado por ele. Outros 27% votariam com certeza em quem ele indicar; e outros 17% dizem que poderiam votar.

O poder da indicação de Lula é considerado o grande ativo do PT, caso a perseguição judicial em curso o impeça de chegar às urnas. Ainda segundo a pesquisa, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) teria influência certa sobre 11% dos eleitores; e possivelmente sobre outros 22%. Já 64% dos entrevistados rejeitariam a indicação feita pelo tucano, que governou o país entre 1995 e 2002.

Nada que se compare, no entanto, à fragilidade do atual presidente na transferência de votos. Michel Temer (MDB) é o cabo eleitoral mais impopular nos cenários apresentados pelo Datafolha: 87% afirmam que não votariam no candidato que tiver seu apoio. Apenas 4% escolheriam esse nome e mais 8% disseram que poderiam seguir a indicação.

Sem euforia

Os resultados apresentados, no entanto, mostram um lado obscuro dos fatos políticos, no país. Para o sociólogo e catedrático Gilson Caroni Filho, não há motivo para se comemorar nada, diante do atual quadro político-eleitoral brasileiro.

“Sério que tem gente comemorando o resultado do Datafolha? Já viram que num cenário sem Lula os candidatos do PT — e de outros partidos de esquerda — atingem percentuais bem baixos? É certo que o instituto aponta para um agravamento do quadro político. Mas sempre é bom lembrar que pesquisa é um exercício projetivo e muita água vai rolar até outubro”, afirmou, em uma rede social.

Trata-se, segundo Caroni Filho, de uma situação dramática para os brasileiros. “O pior dos mundos é o sonho dos golpistas. Eles não precisam de apoio popular para implantar sua agenda. E não descarto uma candidatura outsider — tipo a do Huck — decolar. Não subestimem a capilaridade da Globo. Não é pessimismo, mas euforia me incomoda. Por enquanto, o script da direita prossegue sem sobressaltos”.

“Fica a lição: eleição sem Lula é fraude, mas nenhum partido pode se tornar refém de uma liderança carismática”, pontua.

Ponto Central

Para o desenvolvimentista brasileiro e professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCE-UERJ), diante do quadro político-eleitoral, é necessário ampliar o diálogo no campo das esquerdas.

“Sem Lula e com a esquerda estilhaçada em milhares de candidaturas possivelmente Alckmin, Marina ou Bolsonaro disputarão um segundo turno. Precisamos recompor a referência à unidade. O ponto central: união do país em torno de uma agenda patriótica, desenvolvimentista e que coloque em último plano agendas que coloquem em risco a unidade nacional”, disse.