Malafaia, Edir Macedo e o fedor da Idade Média

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Publicado sexta-feira, 20 de março de 2020 as 13:09, por: CdB

Deus acima de tudo – acima da ciência, da inteligência, da lógica, do saber, da literatura, da história. O Deus das fogueiras da Idade Média, das inquisições, das teorias imbecis, do céu, da salvação das almas e do medo do inferno. O Deus dos espertalhões que se aproveitam dos ignorantes, dos simples e  dos pobres de espírito.

Rui Martins, editor do Direto da Redação:
Crer sem enganar

O Brasil vive em plena Idade Média. Pior do que o Coronavirus é a ignorância, o cheiro fétido do beatismo, o charlatanismo e a enganação pregada e propagada pelos chamados pastores evangélicos. Uma versão moderna de Deus e o Diabo na Terra do Sol, que deixaria apoplético Glauber Rocha – o ranço imanente dessa versão bíblica evangélica tirada dos porões do Mayflower, trazida ao Brasil e implantada à força de cantos e gritos histéricos na nossa cultura.

Deus acima de tudo – acima da ciência, da inteligência, da lógica, do saber, da literatura, da história. O Deus das fogueiras da Idade Média, das inquisições, das teorias imbecis, do céu, da salvação das almas e do medo do inferno. O Deus dos espertos que se aproveitam dos ignorarantes, dos simples e pobres de espírito.

Nas análises do Brasil de hoje de Bolsonaro (econômicas, sociais, políticas et outras tantas ), falta esse ângulo resultante da nefasta influência evangélica – o de um Brasil destruído pela crendice bíblica, pela mentira levada ao povo e pelas ações dos vendilhões do templo.

Enquanto o mundo inteiro se preparava para enfrentar esse novo virus, capaz de relançar o clima de medo, da morte e da peste que, no século XIV, enlutou durante 400 anos anos a Europa, um presidente cego ria do perigo, no qual lançava seus fanáticos seguidores.

Quatro dias depois, o mesmo presidente – apostando na idiotice de seus fiéis seguidores desmemoriados – reapareceu de máscara mal colocada no rosto, reconhecendo o risco do virus.

Tarde demais, no domingo em que a irresponsabilidade do presidente levou às ruas cegos seguidores em mais de duzentas cidades, num fenômeno de infecção coletiva, milhares contraíram o virus que desdenhavam e em cuja existência não acreditavam. Logo veremos as dramáticas consequências.

Um presidente que expõe seus cegos seguidores ao risco de morrerem, não é digno do cargo e mereceria um impechment imediato por questão de saúde pública.

Porém, isso dificilmente ocorrerá. Em torno dele, protegendo-o, estão os sacerdotes da mentira e da morte, iguais àqueles vestidos de preto e cheirando enxofre da Idade Média que, aproveitando-se do nome de Cristo, continuarão suas rendosas pregações. Seus pobres fiéis explorados não percebem, mas são seus pastores, sem dúvida, as Bestas do Apocalipse.

Enquanto o planeta (ou será que a terra é plana como diz o gurú do presidente?) pede para todos evitarem sair às ruas para se protegerem contra a nova peste, Silas Malafaia, o nome de um deles, reage contra a exigência das igrejas fecharem suas portas para evitarem aglomerações. Ele tem a oração secreta contra o virus, enviado por Satanáz, se não for ele próprio o Capeta.

Outro sacerdote, Edir Macedo, também desdenha do risco mortal do virus. O grande antídoto contra todos os virus é a Bíblia e o Evangelho, versão Igreja Universal, exatamente como diziam na época da Peste, faz sete séculos, os anunciadores da Morte.

Ora, essa mesma Bíblia, no Apocalipse ou livro das Revelações tem um versículo destinado a todos quantos se enriquecem e enganam o povo com religiões – Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados, e para que não incorras nas suas pragas.Apocalipse 18:4.

Sou ateu, creio na capacidade do homem vencer os obstáculos, como os virus, e  vencer principalmente os enganadores que se aproveitam da ignorância para lançar seu manto de trevas, como na Idade Média.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

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