Manual de sobrevivência na selva bolsonarista

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Publicado quinta-feira, 29 de novembro de 2018 as 10:13, por: CdB

Máscaras e coturnos marcam época que mistura Trump e Pinochet. Em meio à mistificação, é preciso manter o princípio da credibilidade, da seriedade e do respeito a si mesmos e a outrem.

Por Flavio Aguiar – de Berlim

Na semana passada participei de um debate na Universidade Livre de Berlim que, partindo de questões literárias, terminou por entrar por reflexões sobre a atual situação brasileira. Houve depoimentos candentes sobre o clima de perseguição e violência contra a dissidência ao candidato vitorioso, Jair Bolsonaro (PSL), e sua trupe que se implantou durante a eleição e que tende a se intensificar depois da posse.

Todo fracasso de Bolsonaro será revestido com a capa do sucesso, graças as redes sociais e parcelas domesticadas da mídia

Relatos variaram da desarticulação dos programas sociais desenvolvidos durante os governos de Lula e Dilma (como o de apoio às cisternas no Nordeste), imediatamente posta em prática pelo governo Temer, passando pelos conflitos familiares e perseguição desde já a professores, estudantes, até de estupros de mulheres simplesmente porque apoiaram o outro candidato.

No debate e depois dele me veio então a ideia de escrever um manual de sobrevivência na “selva bolsonara”.

Expectativas

Em meio a tantas idas e vindas, voltas e contravoltas da “transição”, uma coisa é clara: o governo de Bolsonaro será uma grande mascarada. A campanha já foi. O governo vai estender, ampliar e aprofundar o estilo.

Em primeiro lugar trata-se de mascarar o passado; em seguida, o futuro. Para tanto vai ser necessário mascarar indefinidamente o presente.

Mascarar o passado

A ambição do projeto em torno do qual Bolsonaro e sua “equipe” gravitam é mistificar o passado, impondo a ideia de que a ditadura de 1964 a 1985 foi um período idílico entre governo e povo, baseado na ideia de prosperidade com segurança. Vão varrer para debaixo do tapete todas as crises e percalços do regime, não apenas no sentido de edulcorar a repressão.

As crises econômicas de 66/67, o brutal endividamento externo, a falência em ler o que viria a ser a crise do petróleo a partir da guerra de 1973 no Oriente Médio, a transformação do sonho da casa própria no pesadelo da prestação e da inadimplência, o afogamento do ensino público e outras mazelas serão simplesmente negadas.

Em consequência deste delírio seria necessário mascarar tudo aquilo que foi conquista da Constituição de 88, e o período de conquistas sociais vivido durante os governos de Lula e o primeiro de Dilma. Sem falar na presença soberana da política externa brasileira.

Tudo isso vai ser jogado para debaixo do tapete da “maior corrupção que atingiu o país”, e também da cobertura fornecida pela falácia anacrônica da “ameaça comunista”, que é um dos poucos fios comuns que unem o coral desencontrado que é a “equipe” do futuro governo, onde, curiosamente, o general Mourão vem despontando como uma “voz ajuizada”.

Mascarar o futuro

Dois dos “sonhos” (na verdade, pesadelos) preferidos da “equipe”, cujo “coach” é o delirante Olavo Carvalho, são: a) realinhar a política externa do Itamaraty e do país como um todo, em torno da visão de Trump e dos Estados Unidos como os messias que salvarão o Ocidente da débâcle diante do “comunismo” e dos perigos “muçulmano” e outros; e b) enquadrar a juventude através de uma doutrinação ideológica e partidária no ensino, da creche à pós-graduação, que a vacine contra a possibilidade do temido “retorno das esquerdas” e seus “temas conexos”, ou seja, temas “comunistas” e “deletérios”, como igualdade de gênero, combate à homofobia e outros preconceitos etc.

Além disso, será necessário mascarar todas as crises futuras como “futuras aberturas para um melhor destino”. O eventual “desemprego” passaria a se chamar de “liberdade”; a fome, a falência da saúde pública, serão rebatizadas como “correção dos rumos estatizantes” e por aí irá. A doutrinação ideológica unidimensional será rebatizada como “liberdade de expressão e pensamento” contra a ideologia “estatizante”, “comunista” e “destruidora da família”. E assim por diante.

Ergo, mascarar continuamente o presente

Os primeiros momentos do governo Bolsonaro prometem ser uma montanha russa de sobe-e-desce, trepida-trepida, balança mas não cai, ou cai e aqui e ali, em quase todas as frentes. Por exemplo, e dos menores, da busca de uma tecnologia de ponta passaremos a uma tecnologia pontuda, com possível propaganda de travesseiros, com o ministro-astronauta.

Haverá trombadas com o Congresso, prováveis turbulências internas e externas com a nova política externa “de cabeça erguida”, conforme o futuro chanceler, mas ao mesmo tempo com ela enfiada na areia do anacronismo anticomunista, na obtusidade dos aspectos mais retrógrados do trumpismo, e assim por diante.

Na economia, viraremos porquinhos de laboratório das experiências mais radicais de neoliberalismo desde Pinochet. Vão privatizar até a cadeira do presidente.

Tudo isto só vai se manter de pé, ou de quatro, através de uma brutal repressão em todos os sentidos. Vai começar pela criminalização dos movimentos sociais, tipo MST, MTST. Vão tentar, com ajuda da tigrada da toga, aleijar ou extirpar definitivamente o PT da cena política.

Nas universidades, nas escolas, na saúde pública, haverá perseguições implacáveis. Com aluda da alcateia de oportunistas, haverá a instituição da delação premiada contra terceiros. Como houve na ditadura: nas universidades grupos de docentes denunciavam outros grupos de “inimigos” para ocupar cargos de direção, favores internos, fluxo financeiro, etc.

Todo fracasso será revestido com a capa do sucesso. As redes sociais regurgitarão e vomitarão sucessos. O que não for sucesso “ainda” será creditado à herança maldita dos governos no PT. Haverá ajuda nisso, pelo menos na parte econômica, por parte da mídia mainstream tradicional, que será domesticada. Vão aprovar, como vaquinhas de presépio, a criminalização dos movimentos sociais, a perseguição ao PT, a repressão aos dissidentes.

Haverá vagidos débeis contra os aspectos mais abstrusos da política governamental, por exemplo, na Folha de S.Paulo. Vamos ver até onde aguentam.

Ainda não sei como tentarão controlar a internet e dobrar a mídia alternativa e seus jornalistas, mas isso virá.

Esqueçam políticas de proteção ao meio ambiente. As ONGs e partidos de extrema-esquerda, que ajudaram a criticar acerbamente os governos petistas, terão lágrimas de sobra para chorar o leite derramado e as florestas esturricadas. Mas isso vai ser mascarado como “ordem e progresso”. Enfim, nosso inferno vai ganhar muitos matizes.

Entre eles o das novas disputas sucessórias que já estão começando.

Pós-Bolsonaro

Há, visivelmente, desde já, três projetos em marcha. O mais vistoso é o de Moro, amealhando o aparato judicial e policial disponível. Faz parte deste projeto manter Lula na cadeia, como cereja do bolo, e destruir a “máquina de corrupção do PT”, a “maior da história do Brasil”.

Vai haver o industriamento em escala industrial da pressão sobre o aparato político, em particular o Congresso. Ponto forte: terá o apoio da tigrada da toga. A ver se empalma o “acaudilhamento” da PF e arredores. Ponto fraco: Moro agora é vitrine, e está perdendo prestígio na seara internacional rapidamente.

Há o projeto Bolsonaro. Dizer que não pretende a reeleição é algo que tem nariz comprido e pernas muito curtas. Ainda mais com a prole que tem, tão ávida quanto descalibrada.

Ponto forte: está na Presidência. Ponto fraco: ele mesmo, inseguro, instável, despreparado, sujeito a chuvas internas e trovoadas externas que o deixam tão assustado como quando deveria ir a um debate na Globo e nunca foi.

Correndo por fora, há o “ajuizado” Mourão. Pode ganhar a simpatia da caserna, é seu ponto forte. Pode ser visto como o porta-voz da caserna, é seu ponto fraco. O meio financeiro e empresarial pode não gostar. Idem, o meio financeiro internacional e estadunidense, que desde a Guerra das Malvinas olha o meio militar latino-americano com desconfiança e desde o fracassado golpe contra Hugo Chávez em 2002 com desdém.

Haveria outras candidaturas, por ora, previsíveis com novos nomes do velho sistema, mas ironicamente buscando colar-se no rótulo de “nova política”, “antissistema”, e num previsível fracasso econômico. Doria, Amoêdo, Witzel, Zema são nomes que passaram a “existir”.

Autodefesa

Não esperemos qualquer ajuda por parte de instituições jurídicas, a não ser patetices apatetadas oriundas de seus escalões superiores.

Haverá ajuda internacional sim, mas de efeito limitado.

Temos de contar com o fato de que se houve, e houve, manipulação da informação e de consciências por parte das equipes virtuais da campanha de Bolsonaro, com certeza uma grande parte dos que nele votaram ouviram, nestas mentiras que lhes foram servidas via Facebook, WhatsApp etc., exatamente aquilo que queriam ouvir para justificar seu voto pelo embrutecimento político, para justificar aquilo que seu ressentimento, medo da ascensão dos “outros”, das “outras” e de tudo mais, sua sensação de desamparo, exigiam que fizessem.

Quando um erro ético dessa monta é cometido, a primeira tendência é afincar-se a ele. Depois, esquecer o que foi feito. Quando a onda Bolsonaro passar, e ela vai passar, vamos ouvir, de milhões de corações pulsantes: “Votei em Bolsonaro? Eu não!! Como você pode imaginar isso de mim, que sempre defendi a democracia?” etc.

Portanto, preparemo-nos. As amizades perdidas não se recomporão. Ou pelo menos muitas delas. As vozes familiares não se reconciliarão, pelo menos durante muito tempo.

Como dizia alguém, “hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás“.

A primeira coisa a fazer é manter o equilíbrio interno, e não ceder à tentação de imitar o comportamento dos bolsonaros. Vi horrorizado o vídeo da professora em Brasília gritando palavrões e impropérios enquanto o “eleito” passava em direção ao centro do processo de transição. Entendo a raiva e o desabafo. Mas não é por aí. Vejo também com preocupação a atitude de amigos e correligionários que propagam mensagens e informações sem checar sua procedência e veracidade. Temos de manter o princípio da credibilidade. Da seriedade. Do respeito a si mesmos e a outrem.

Segundo, é preciso organizar-se. Evitar ações individuais e voluntariosas. Valorizar a informação compartilhada. Valorizar a mídia alternativa. Evitar a militância depressiva. Alertar sobre perseguições, descalabros, violências, sim, mas também, e principalmente, sobre resistência, alegria, humor, reação ao fascismo. Valorizar as formas coletivas de resistência, de organização, mídias, sindicatos, associações de todos os tipos, organizar comitês de defesa da democracia em todos os quadrantes.

Estudar história. A pior sensação que as ditaduras transmitem é de que serão eternas. Não, elas passam. A de 64 passou. Agora tem gente querendo traze-la de volta. É uma minoria. São ditadores de pijama. Há muito outros, milhões, que embarcaram, mistificados, nesta canoa. Vai ser duro, mas poderão ser ganhos para a causa democrática. Assim como os e as abstencionistas. Os pequenos e as pequenas Pilatos e Pilatas. Poderão crescer.

Isto aqui já vai enorme. Voltaremos ao assunto. Por ora, pensemos como Mário Quintana:

Esses, que hoje
Atravancam meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho

 Flavio Aguiar, é colaborador em Berlim e traz análises nada convencionais sobre o que acontece na Europa e no mundo.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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