Mas, afinal, qual é a tática?

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Publicado quinta-feira, 9 de agosto de 2018 as 09:53, por: CdB

Entre nós, os comunas, vigora a máxima de que é melhor errar junto do que acertar sozinho. Isso é garantia de coesão presente e futura, e fator de fortalecimento de nossa democracia interna

Por Elder Vieira – de Brasília
Nossa democracia centralizada é composta de alguns fundamentos: decisão coletiva, centro único de direção, crítica e autocrítica. Tempo chegará em que faremos a avaliação da decisão tomada em torno das eleições de 2018. O critério será: o que fizemos, e como fizemos, aproximou-nos ou afastou-nos de nossos objetivos maiores? Acumulou ou desacumulou no cesto das sementes da transformação? Trouxe mais benefícios ou mais prejuízos? Crescemos ou decrescemos em tamanho, força, prestígio? Conseguimos ou não infligir ao alvo o dano almejado?

Tempo chegará em que faremos a avaliação da decisão tomada em torno das eleições de 2018
Este escriba, mesmo ainda convicto, até que a vida prove o oposto, de que o melhor seria irmos de Manu, marcha e peleja com a tropa. Nossa perspectiva não é meramente conjuntural: é histórica. Ao eleitor, que é regido por princípios e lógicas próprias, caberá concordar ou não conosco.

Todavia, para lutar o bom combate, e pugnar pelo êxito da tática definida, as tropas do povo precisam ao menos entender e incorporar as razões de seu comando, não é mesmo? E razões é que parecem não faltar.

Nas muitas aulas sobre tática política que ministro pela Escola Nacional João Amazonas, costumo dizer que um bom tático é aquele que vê a realidade objetiva em perpétuo movimento, em processo, nunca fixa, como numa foto. As placas tectônicas da vida estão sempre em choque e, via de regra, faz erguerem-se diante de nós, num átimo, obstáculos colossais. Esses obstáculos, essas mudanças, são reais, objetivas, não produtos de nossos desejos. Nossas forças podem bastar para submeter óbices e mudanças a nossos projetos. Mas, via de regra, não bastam.

A realidade está em movimento porque há muitas forças em ação, concorrendo ou colidindo umas com as outras. Até mesmo teu pretenso parceiro pode, numa partida de buraco, baixar separadas duas seqüências que, com a carta que tu tens na mão, fariam juntas a canastra do bate, o que te obriga a refazer todo o teu jogo…

Consideremos que foi isso o que aconteceu no caminho do PCdoB: um dos jogadores movimentou uma peça que agora exige o respectivo reposicionamento tático dos comunistas.

O cálculo, ao que parece, passa a ser o seguinte: reforça-se o pólo popular, ainda que parcialmente, com a junção de duas forças de esquerda decisivas, senhoras de forte militância e de ponderável peso eleitoral. Agrega-se o reforço Pros e o apoio do PCO. Aposta-se em que, conjugadas, a liderança de Lula e esta coligação provoquem o segundo turno. Nele, traz-se o PDT e Ciro, mais o PSB e outras forças e apoios. De um lado, o bloco de Tiradentes. De outro, o de Silvério dos Reis.

Com essa polarização de projetos – o ‘nacional-desenvolvimentista independente e inclusivo’ versus o ‘de inserção subordinada dependente e excludente’ – empolgar o eleitorado, mexer na correlação de forças e vencer. Ou, não vencendo, sair da batalha com o bloco nacional popular desenvolvimentista robustecido, minimante coeso e melhor posicionado, capaz de, na oposição, enfrentar os próximos e tormentosos quatro anos de gestão neoliberal.

Aliados

É certo que os comunistas e aliados de Lula e do PT ficarão entre o anti-petismo e o petismo hegemonista: de um lado, sob o selo do lulismo, sendo tachados de petistas e suportando os ônus dos erros alheios; de outro, constrangidos a engolir os sapos servidos pela “estrela guia dos povos”, que costuma não cumprir o combinado e tratar a pão e água os que marcham ao seu lado, tudo pelo fortalecimento exclusivo de suas próprias posições.

Como a vida e sua política é feita sempre da unidade de contrários, haverá uma boa dose de luta no âmbito da restrita frente ora arranjada. O segredo é travar essa luta tendo em tela o fortalecimento também dos aliados do ‘grande irmão’, em especial, do partido da futura vice, sem permitir que as contradições tomem dimensão de antagonismo.

Outro dificultador é evitar que o petismo hostilize Ciro. No segundo turno, seu apoio será crucial. A tática, portanto, mantém seu conteúdo fundamental: unir cada vez mais para resistir no longo prazo e, se possível, vencer, no curto. Muda conjunturalmente de feição, com vistas a se efetivar o mais que puder ali adiante.

Permanece a construção da Frente Ampla no centro da tática.

Os comunistas, como soe acontecer, lutaremos denodadamente para que dê certo.

Marchemos, que Curitiba não é meta: é passagem.

Elder Vieira, é escritor, servidor público, militante do PCdoB desde 1983.

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