Massacre do Carandiru: sobrevivente relata clima durante a chacina

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Publicado quarta-feira, 2 de outubro de 2019 as 14:09, por: CdB

Barulho de tiros, corpos empilhados e banho de sangue: MC Kric, que esteve na penitenciária por 20 anos, conta detalhes do 2 de outubro de 1992.

Por Redação, com RBA – de São Paulo

MC Kric passou 28 anos dentro do sistema prisional, quase 20 deles dentro do pavilhão oito do Carandiru, na Zona Norte de São Paulo. Por meio do grupo Comunidade Carcerária, formado por pessoas que se conheceram dentro da prisão, encontrou seu caminho para a recuperação. Entretanto, os dias atuais ainda carregam as marcas do 2 de outubro de 1992, quando ocorreu o Massacre do Carandiru. Hoje, 27 anos depois da chacina policial dentro da penitenciária, MC Kric diz que lembra dos detalhes daquele dia. No cargo de encarregado cultural, ele lembra do início da saga que resultaria em um dos episódios mais violentos da história recente do país.

‘Ouve-se muito tiro, mas muito tiro mesmo, com uma gritaria’, contou MC Krick
‘Ouve-se muito tiro, mas muito tiro mesmo, com uma gritaria’, contou MC Krick

– Os encarregados de outro pavilhão resolviam os problemas dos outros pavilhões para evitar as mortes, mas quando começou a briga no pavilhão nove, um funcionário não deixou que alguém do oito fosse lá, e ainda chamou a polícia militar – relatou, em entrevista ao jornalista Glauco Faria, da Rádio Brasil Atual, nesta quarta-feira.

Ao ver a entrada da Polícia Militar, o rapper conta que todos tiraram a roupa e colocaram as mãos na cabeça, sem esperar a ordem dos agentes. O barulho das ações policiais próximo a ele não sai de sua cabeça. “É um barulho ensurdecedor. Quando eles entram no pavilhão nove ouve-se muito tiro, mas muito tiro mesmo, com uma gritaria”, contou.

– De repente, os tiros pararam e a tropa saiu carregando corpos, abriu para os encarregados do pavilhão oito irem até o nove para ajudar nisso. Eu fui um dos primeiros a ir. Quando cheguei, encontrei vísceras e muito, muito sangue no chão. Tinha menino novo que morreu, muitos nem foram condenados. O pavilhão nove era cheio de jovens – disse ele.

– A gente esperava a morte a qualquer momento, achando que os policiais voltariam – acrescenta MC Kric, que acredita que os funcionários do pavilhão nove tinham condição de evitar o massacre. Após a chacina, ele e outros detentos foram transferidos para a unidade penitenciária de Araraquara.

Ele explica que foi uma forma de silenciar os sobreviventes. “Como se fôssemos culpados ou para não relatarmos o que vimos. O Judiciário que julgou o caso foi omisso e é tão culpado quanto os assassinos. Eu não pude dar meu depoimento no caso, tinha uma turma da PM que ficava ameaçando a gente”, criticou.

Em setembro do ano passado, a 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) manteve a anulação do julgamento de 73 policiais militares (PM) envolvidos no caso do Massacre do Carandiru. A defesa dos agentes alegou que o devido processo penal não foi cumprido pelo tribunal do júri e pediram também a absolvição deles. Os PMs foram julgados em várias sessões distintas entre agosto de 2013 e junho de 2014. No episódio, 111 detentos foram assassinados pela polícia.

E o que mudou?

De lá para cá, houveram outras mortes e massacres em prisões, mas provocadas por conflitos entre facções criminosas, com omissão do poder público. Em agosto deste ano, por exemplo, morreram 62 no presídio de Altamira, no Pará. Isabel Figueiredo, advogada e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirma que o problema não irá melhorar com superlotação do sistema prisional.

– O sistema penitenciário brasileiro é caótico. A partir do momento que você tem o dobro de presos em relação às vagas, fica impossível ter programas de qualificação profissional e ensino. Este sistema só gera coisas ruins para a sociedade – afirmou.

Para ela, o sentimento punitivista só fortalece as facções criminosas dentro das prisões. O Primeiro Comando da Capital (PCC), por exemplo, surge após o Massacre do Carandiru. “A sociedade pega um criminoso que cometeu um crime simples, como usuários de drogas, para fortalecer a mão de obra barata às facções. O Estado propicia o surgimento deles e os fortalece, com o encarceramento”, lamentou.

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