Medicamento mostra resultado contra o covid-19 nos Estados Unidos

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Publicado sexta-feira, 17 de abril de 2020 as 10:38, por: CdB

Antiviral Remdesivir demonstra eficácia em pacientes em estado grave, mas farmacêutica Gilead Sciences pede cautela, pois estudo não está concluído. Informações “vazaram” de conversa entre pesquisadores.

Por Redação, com DW – de Nova York

Um grupo de pacientes infectado com o coronavírus Sars-Cov-2 e tratado com o medicamento Remdesivir mostrou uma rápida recuperação em sintomas como febre e dificuldades para respirar, informou o site de medicina americano Stat na quinta-feira.

O antiviral Remdesivir, que demostrou eficácia no alívio de sintomas da covid-19
O antiviral Remdesivir, que demostrou eficácia no alívio de sintomas da covid-19

A notícia fez disparar as ações da empresa fabricante, a Gilead Sciences, e impulsionou as bolsas de valores em todo o mundo, incluindo a de Frankfurt.

Segundo o site, a maioria dos pacientes que tomaram parte no estudo, em Chicago, teve alta em poucas semanas. Apenas dois morreram. O estudo foi feito com 125 pacientes, dos quais 113 gravemente doentes.

Pesquisadores de um hospital da Universidade de Chicago que participaram dos estudos sobre o medicamento antiviral relataram ter observado melhoras rápidas em sintomas como febres e dificuldades respiratórias.

A instituição, porém, afirmou que a notícia sobre a eficácia do medicamento se baseia em informações de conversas de pesquisadores em debates internos, que foram vazadas sem autorização.

A Gilead afirmou que “a totalidade dos dados deve ser analisada para que se possa fazer quaisquer conclusões sobre os testes”. O UChicago Medicine, o centro médico da universidade, afirmou que “dados parciais sobre um teste clínico em andamento são, por definição, incompletos e jamais devem ser utilizados para se chegar a conclusões”.

A Gilead aguarda para o final de abril os resultados da terceira fase do estudo em pacientes humanos com infecções graves de covid-19. Dados adicionais sobre a pesquisa deverão estar disponíveis em maio.

Pesquisa

A Universidade de Chicago é um dos 152 locais que participam dos testes realizados pela Gilead envolvendo pacientes de covid-19 em estado grave. Outra pesquisa, com pacientes com o coronavírus em condição moderada, é realizada em 169 locais. Ainda não há nenhum tratamento aprovado para covid-19.

O interesse no medicamento da Gilead tem sido bastante alto. O New England Journal of Medicine publicou na semana passada uma análise que afirma que dois terços dos pacientes em estado grave, em um grupo reduzido, tiveram melhoras em suas condições após serem tratados com o Remdesivir.

O Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos iniciou em fevereiro testes em 800 pacientes que receberam doses de Remdesivir ou placebos, mas os resultados ainda não foram divulgados.

“Achei que fosse bobeira esse negócio de isolamento”

Desde que enterrou o irmão mais velho, morto em decorrência da covid-19, Antônio* vem tentando desmentir boatos nas redes sociais sobre as circunstâncias da morte do familiar. A vítima tinha 39 anos e ficou internada 16 dias até falecer no último domingo em São José dos Campos, no interior de São Paulo.

– Inventam que ele já estava gravemente doente e pegou a covid-19 no hospital. Dizem que meu irmão foi para a China, pegou lá a doença e espalhou aqui – contou Antônio por telefone à Deutsche Welle (DW).

Segundo a prefeitura da cidade, o exame que confirmou o óbito por covid-19, a doença respiratória causada pelo novo coronavírus, o Sars-Cov-2, foi feito por um laboratório privado credenciado pelo Ministério da Saúde.

Antônio diz não entender por que as pessoas inventam tantas mentiras na internet. “Dói muito no meu coração. A nossa mãe está arrasada. As pessoas falam muita besteira sem saber. Nunca passei por isso na minha vida”, desabafa.

Segundo ele, a vítima apresentou sintomas de gripe no fim de março. Atendida num hospital da rede privada, foi medicada, considerada como caso suspeito de covid-19 e mandada de volta para casa. Dias depois, o quadro de saúde da vítima, que era hipertensa, piorou. A equipe médica informou aos familiares que usou cloroquina no tratamento.

– Eu mesmo perguntei para os médicos sobre a cloroquina, se estava sendo usada. Eles disseram que sim, que foi usada por sete dias. No meu irmão, não fez efeito nenhum – diz Antônio, que acompanhava diariamente os boletins médicos e atuou como mediador da família.

A substância é defendida pelo presidente Jair Bolsonaro para o tratamento da covid-19. Usada contra a malária, a cloroquina tem efeitos colaterais fortes, e ainda não há comprovação científica de seu efeito benéfico contra o novo coronavírus.

Natália Pasternak, microbiologista e presidente do Instituto Questão de Ciência, alerta para o risco cardíaco que a cloroquina e a hidroxicloroquina, também defendida por Bolsonaro, representam.

– Podem causar arritmias, mais ainda quando associadas à azitromicina – comenta Pasternak, em concordância com posicionamentos de várias associações médicas internacionais, como a Canadian Medical Association e a American Heart Association.

– Recentemente, um trabalho em preprint (artigo científico ainda não revisado por pares e não publicado em periódico científico) da Fiocruz e do Instituto de Medicina Tropical de Manaus alertou para efeitos colaterais cardíacos em testes clínicos que compararam doses diferentes de cloroquina – adverte a pesquisadora.

Isolamento e contágio

O estado de São Paulo, epicentro da pandemia no Brasil desde a chegada do novo coronavírus ao país, alcançou um recorde na terça-feira. Em 24 horas, 87 pacientes morreram de covid-19, totalizando 695 óbitos. Mais de 2 mil pessoas estão internadas em hospitais paulistas.

Em todo o Brasil, há 1.532 mortes e 25.262 mil infectados confirmados. A fila de exames que aguardam resultados é longa: são mais de 120 mil no país, segundo dados do Ministério da Saúde.

De acordo com o monitoramento do governo paulista, a taxa de isolamento social, medida recomendada para impedir o avanço da doença, é de 59% no estado. A meta, segundo o governador João Dória, é chegar a 70% da população.

Em São José dos Campos, onde o irmão de Antônio faleceu, 61% da população têm ficado em casa para evitar a disseminação do vírus. Antônio admite que estava fora dessa estatística inicialmente.

– Eu mesmo achei que fosse bobeira esse negócio de isolamento. Não estava nem aí. Quando meu irmão voltou para o hospital e ficou internado, eu fiquei preocupado e entendi que a doença pega mesmo qualquer pessoa – conta.

Ele foi o último a ver o irmão vivo. “Minha visita à UTI foi autorizada, eu tive que me vestir igual a um astronauta e vi meu irmão, que ainda estava respirando”, relembra.

Os familiares se despediram de um caixão lacrado, sem velório, num cortejo rápido até o túmulo no cemitério.

– Meu irmão era jovem, feliz, cheio de sonhos, casado há menos de dois anos. Nós estamos arrasados – diz Antônio.

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