Médicos intensivistas vivem desafios em tempos da pandemia

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Publicado terça-feira, 10 de novembro de 2020 as 14:09, por: CdB

Ser um médico intensivista em tempos da pandemia da covid-19 é muito mais que ter a função de monitorar as funções orgânicas e perceber alterações em fases iniciais de determinadas doenças. É enfrentar o desconhecido com muita sabedoria e determinação.

Por Redação, com ACS – do Rio de Janeiro

Ser um médico intensivista em tempos da pandemia da covid-19 é muito mais que ter a função de monitorar as funções orgânicas e perceber alterações em fases iniciais de determinadas doenças. É enfrentar o desconhecido com muita sabedoria e determinação. É se arriscar e abdicar dos próprios interesses, e até mesmo da presença da família, em prol dos pacientes. Com o trabalho do intensivista, é possível intervir decisivamente no prognóstico dos pacientes que se encontram em estados graves. É dessa área da medicina a responsabilidade pelo cuidado das Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Para valorizar e agradecer o trabalho dos médicos intensivistas, que são lembrados no Dia Nacional do Intensivista, 10 de novembro, a Secretaria de Estado de Saúde conversou com alguns profissionais da área para saber um pouco da rotina de trabalho.

Médicos intensivistas vivem desafios em tempos da pandemia
Médicos intensivistas vivem desafios em tempos da pandemia

O Estado do Rio tem 81.203 pacientes que foram atendidos na rede estadual de saúde com suspeita da covid-19. Destes, 49.209 foram classificados como Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por COVID, sendo que 16.658 dos casos informados foram para UTI, local onde o médico intensivista atua.

Atuante em terapia intensiva há 16 anos, Carlos Rocha, que trabalha no Hospital Estadual Carlos Chagas (HECC), fala da mudança na rotina durante a pandemia.

– Costumamos dizer que esse foi o ano mais ‘intensivo’ na rotina de tratamento dos pacientes das UTIs. Nunca, no passado recente, fomos tão demandados com uma doença gravíssima que acomete as pessoas independentemente das condições físicas e doenças prévias. Foi o momento que mais precisamos ficar focados nas novas terapias e nos estudos científicos – diz.

Segundo Carlos, a inexistência de um tratamento comprovadamente eficaz para o novo coronavírus é um dos fatores que difere os pacientes das demais patologias.

– Ao mesmo tempo em que nos deparamos com a gravidade desses pacientes, alguns deles saudáveis e jovens, também percebemos que, diferentemente das demais patologias, o tratamento no primeiro semestre, auge da pandemia, consistiu em prestar assistência básica, principalmente no suporte respiratório, mantendo os sinais vitais preservados e a ventilação mecânica, que é essencial. O nosso papel tem sido muito importante no início em manter o paciente vivo para o próprio organismo conseguir combater o vírus. Sem a terapia intensiva, dificilmente esses pacientes teriam êxito na recuperação – ressalta.

Ele destaca que numa UTI é importante que haja o entendimento da patologia e a forma que a doença está se desenvolvendo no paciente.

–  Sabemos que, para uma mesma doença, existem desfechos diferentes para cada paciente. Isso está relacionado a condições e doenças prévias. Diante disso, é necessário planejar medicação, procedimentos, cirurgias e também aguardar a resposta do organismo. Sempre explicamos isso para as famílias, que precisamos de tempo para entender e analisar corretamente o tratamento do paciente – pontua.

A intubação dos pacientes

Carlos relembra momentos que mais marcaram durante o atendimento da covid-19, ressaltando o trabalho incansável para evitar a intubação dos pacientes.

– A equipe fazia de tudo para os pacientes conseguirem se manter respirando sozinhos. Eu via na expressão facial do paciente o medo de ser intubado, muitos deles falavam: ‘doutor, eu não quero ser intubado, porque eu vi na televisão que quando esse procedimento é feito a pessoa morre’. Isso marcava muito a gente, até mesmo em pacientes jovens. Então, a equipe tinha que trabalhar também a ansiedade das pessoas – conta.

Cláudia Falconiere traz em sua trajetória a implementação do primeiro Centro de Tratamento Intensivo Pediátrico (Cetipe) da rede estadual. Com especialidade em Terapia Intensiva e coordenadora médica do Cetipe do Hospital Estadual Adão Pereira Nunes há mais de 20 anos, a médica chama atenção para a importância da prevenção.

– Essa doença vem fazer o papel de um grande alerta para conceitos básicos, como lavagem das mãos e higiene. A medicina começa na prevenção, então a educação sanitária da população é muito importante, não apenas para prevenção da covid-19, mas para várias outras doenças igualmente graves – declara.

Cláudia desmistifica a ideia de que o intensivista fica fechado no CTI, pois o profissional precisa atuar juntamente ao lado de uma equipe multidisciplinar.

– Ele também é um divisor de águas por atuar no momento em que o quadro do paciente está potencialmente grave, evitando o avanço da doença com a monitoração contínua. Queremos mudar a ideia de que o intensivista fica isolado no CTI. São profissionais intensos em tudo. A intensidade da ação está naquele momento que vai ser fundamental para salvar uma vida – afirma.

Uma das ações para diminuir a angústia no momento de internação e aproximar os responsáveis das crianças é “interná-los” para que possam ficar 24h ao lado dos filhos.

– Neste momento de pandemia, não há visita de responsáveis enquanto a criança está intubada. Todos os dias, a equipe emite boletim diário via telefone. No momento que o paciente sai do respirador, os pais ficam internados junto com a criança dentro do isolamento, sem poder sair, até mesmo para comer. O mais incrível é que eles aceitam prontamente, e essa iniciativa tem dado muito certo. Na hora que a criança está mais agitada a presença dos pais acalma – avalia.

Momento difícil

O intensivista do Hospital Estadual Azevedo Lima Felipe Ribeiro Henriques atua desde 2003 na unidade e vê neste momento difícil uma oportunidade de aprender e vivenciar novas experiências.

–  Atuar como médico na pandemia é uma experiência única, pela questão social e humanitária, que está na missão de ajudar pessoas, no dever de salvar vidas e no chamamento à vocação. É um cenário que a humanidade precisa de ajuda e de cuidado de saúde, e a ajuda médica é imprescindível. É um momento que requer muito trabalho e, ao mesmo tempo, muito gratificante, afinal, poder ser útil é uma das melhores oportunidades da vida – afirma Felipe.

Para Felipe, lidar com a morte, mesmo com 17 anos de atuação, não é algo fácil.

–  É doloroso lidar com sofrimento o dia inteiro, vários medos ao mesmo tempo, o próprio medo de adoecer, o de perder as pessoas que gosta, de perder vários pacientes. É muito difícil para um médico lidar com a perda dos pacientes, mesmo quando foram colocados todos os esforços para salvar aquela vida. Essa perda dói afetivamente e profissionalmente – completa o médico.