Milicianos em guerra contam com ajuda de policiais civis, denuncia testemunha

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Publicado sábado, 5 de dezembro de 2020 as 14:06, por: CdB

Testemunha ocular dos fatos, Jéssica Rodrigues, que vivia com o miliciano conhecido como PV e é a proprietária da casa onde ocorreu o crime, tem procurado autoridades há mais de um ano, sem sucesso.

Por Redação – do Rio de Janeiro

Uma guerra surda, nos bastidores da Justiça, está em curso no Estado do Rio de Janeiro entre setores da Polícia Civil, de um lado, e da milícia armada que domina vastas áreas do território fluminense, segundo documentos vazados para o site de notícias Diário do Centro do Mundo (DCM), neste sábado. Anteriormente, o DCM já havia publicado a denúncia de uma ação ocorrida há três semanas contra a família do ex-vereador Jerônimo Guimarães, o Jerominho, que “revela que há uma guerra de milícias no Rio de Janeiro, com envolvimento das forças policiais”.

Homens da milícia, na Baixada Fluminense, fortemente armados para o confronto com adversários de grupos rivais
Homens da milícia, na Baixada Fluminense, fortemente armados para o confronto com adversários de outros grupos milicianos, que contam com apoio de policiais

“Há algumas semanas, a operação foi contra uma milícia rival, de Ecko. Neste caso, foi uma ação da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Foi também uma ação a pretexto de envolvimento eleitoral. A suspeita é que grupos de policiais estariam agindo para favorecer um grupo ou outro, e abrir território para exploração de moradores da Zona Oeste e Baixada Fluminense. Um dos grupos reuniu provas de que não houve confronto, no caso do massacre na Baixada Fluminense. Foi execução pura e simples”, denuncia o DCM.

Ainda de acordo com o site, “esse grupo tem áudios e vídeos que indicam ação criminoso por parte daqueles que agem em nome do Estado. Esse grupo estaria disposto a revelar esquema de extorsão por parte desses policiais”. Uma parcela desse material chegou, neste sábado, à Redação do Correio do Brasil e revela que policiais estão envolvidos em cenas de violência extrema, investigadas pela Corregedoria Interna da Polícia Civil (Coimpol).

Corregedoria

Há mais de um ano, foi destaque nas páginas policiais dos principais diários do país a a morte de Paulo Vítor Luciano Lima, conhecido como PV. O suspeito seria integrante da milícia conhecida como Liga da Justiça ou Bonde do Ecko, que atua na Zona Oeste do Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense.

PV foi morto, segundo relato oficial, em confronto com policiais da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), na casa de sua companheira, no bairro da Paciência, Zona Oeste do Rio. Testemunha ocular dos fatos, Jéssica Rodrigues, que vivia com o miliciano e é a proprietária da casa onde ocorreu o crime, tem procurado autoridades há mais de um ano; além de organizações de defesa dos Direitos Humanos para denunciar que Paulo Vítor foi, na verdade, executado.

Nenhuma autoridade se pronunciou, ainda, sobre as denúncias de Rodrigues. Na sequência, houve outras ações da Polícia Civil que também seriam teriam sido abusivas, “relatadas à Corregedoria da Polícia Civil e também a morte de outras pessoas, com indícios de execução. No último dia 15 de outubro, por exemplo, doze pessoas foram mortas numa operação na região de Itaguaí, anunciada como de combate às milícias”, continua o DCM, que informa ainda sobre “áudios trocados por policiais que indicam execução depois de supostos criminosos estarem rendidos”.

O CdB teve acesso ao comunicado da Draco sobre a morte de Paulo Vítor, emitido em 17 de setembro de 2019, dia do crime:

“Homicídio decorrente de intervenção policial

“Agentes policiais, no deflagrar de uma ação de inteligência, visando a captura do nacional PAULO VITOR LUCIANO LIMA ,vulgo “PV”, “miliciano” integrante da LIGA DA JUSTIÇA, entraram em confronto com o alvo no interior do imóvel, localizado no bairro de Paciência, e em decorrência de sua injusta agressão contra a equipe,o mesmo foi alvejado fatalmente no local.

“Equipes da DH foram prontamente acionadas, sendo todos os procedimentos de polícia judiciária adotados na hipótese, com foco na perícia de local, onde tudo foi devidamente preservado pela equipe.

“Em tempo, alvo possuía 04 mandados expedidos em seu desfavor por crimes relacionados à organização criminosa e em seu poder foi arrecada uma pistola, que foi utilizado para realizar disparos em desfavor da equipe.

“Após vistoria no imóvel, foram, ainda, arrecadados um revólver, dois carregadores de fuzis e rádios transmissores.”

Outro relato

Na representação que encaminhou à Corregedoria da Polícia Civil, ao Ministério Público e à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, no entanto, Rodrigues narra uma outra história aos policiais da Corregedoria.

Reprodução de parte dos autos de investigação em curso na Corregedoria
Reprodução de parte dos autos de investigação em curso na Corregedoria

“Grávida de PV, teria falado com ele na véspera e perguntado se iria para a casa dela para levar dinheiro que seria usado na compra de enxoval para o bebê. Segundo ela, PV disse que só iria no dia seguinte, mas, tarde da noite, ele entrou na casa, pelo portão da garagem, que ela deixou aberto, já imaginando que talvez ele mudasse de ideia.

— Entrou, trocou de roupa e veio deitar ao meu lado, e pôs a mão na minha barriga, a gente dormiu bem assim — lembra”.

Pesadelo

“Às 6 da manhã, acordaram com a explosão do portão da garagem. Ela pensou estar tendo um pesadelo até que ouviu gritos de “polícia, polícia”.

‘Me levantei da cama junto com meu companheiro, eu estava muito assustada e fomos para a sala, que estava cheia de policial com fuzil na mão. Daí o PV falou ‘Perdi, perdi’, e se entregou para a polícia, e ele estava desarmado, usando uma cueca só’.

“Passando mal, ela teria avisado que estava grávida e o chefe da operação, delegado Fábio Salvadoretti, teria mandado que a tirassem da sala.

— Um policial coroa me puxou para outro cômodo da casa — afirmou. Foi quando ela ouviu tiros e gritos.

Resistência

“Quando se virou, viu que Paulo Vítor tinha sido jogado ao chão e levado um tiro. ‘Foi questão de contar um, dois, três, quatro e paf. Ele estava se entregando, mas empurraram ele, jogaram ele no chão e mataram ele na covardia. Foi uma execução’, disse a companheira do suspeito morto.

Adiante, o delegado Salvadoretti teria dito:

— Pô, já faz cinco meses que estou querendo pegar esse cara, hoje foi.

Rodrigues relata, ainda, que os próprios policiais atiraram na geladeira dela e na parede, para simular que a morte foi por resistência. A polícia apresentou uma arma como se fosse de PV, mas, segundo ela, a pistola foi plantada. Ela disse que uma condição para ele entrar na casa é que não levasse arma.

‘Esculacho’

Depois dos tiros, os policiais teriam estranhado a “tranquilidade” dela. Na verdade, contou, estava nervosa, mas também com medo de morrer.

— Eu não fiquei muito desesperada naquela hora porque eu não estava acreditando, e fiquei com medo de alguém fazer alguma coisa comigo — acrescentou.

Salvadoretti teria dito que só não iria dar esculacho nela porque a havia investigado e descoberto que não tinha envolvimento com a milícia.

— Tá com pena dele? Ele te traía. A gente sabia o quanto você estava sofrendo. Ele tinha várias amantes, e uma fixa — teria dito o policial

E Rodrigues devolveu:

— Eu sei tudo o que ele estava passando, mas o sonho dele era ser pai do meu filho, e estava se entregando, agora meu filho vai nascer e o pai já está morto.

O CdB tentou contato com a Assessoria de Comunicação da Polícia Civil do Estado do Rio, que não respondeu de imediato às perguntas da reportagem.