Missa de réquiem para Lula

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Publicado quarta-feira, 24 de janeiro de 2018 as 20:49, por: CdB

Era de se esperar essa condenação unânime de Lula. Só não viu chegar quem não quis, esse o grande erro dos petistas – o de não querer ver e tentar promover a cegueira geral, insistir nas frases que não dizem mais nada, numa cegueira obsessiva, como os roedores lêmingues que, muitas vezes sem rumo, avançam sem ver os perigos e caem de penhascos ou se afogam nos rios como se cometessem suicídio coletivo. Me lembro sempre do chanceler alemão Helmut Kohl, quando procuro um exemplo de queda parecida com a do Lula. Helmut era um super-poderoso político quando foi alvo da denúncia de fraude no financiamento de sua campanha eleitoral. A comparação não vai mais longe, porque não havia corrupção e nem enriquecimento pessoal e, principalmente, porque Helmut encerrou voluntariamente sua carreira, quando a Justiça alemã reconheceu ter havido fraude, sem tentar desmoralizar os juízes e sem querer abalar o funcionamento da democracia alemã.

Lula e o desvio populista

Como se costuma dizer, pegou seu chapéu e foi embora, E com isso evitou ser massacrado. Errar todo mundo erra, mas em certos países o erro é corrigido e punido. E com isso se evita a propagação da infeção ou a metástase. Os democratas-cristãos alemães sofreram um choque mas logo substituíram Helmut por Angela Merkel e o trauma foi esquecido e o partido voltou ao poder. O PT não tem essa largueza de espírito. Apanhado com a boca na botija, já em 2005 com o Mensalão, Lula jurou inocência e conseguiu ficar no poder, porém,  em lugar de levar a sério a advertência, prosseguiu no mesmo caminho se julgando intocável e invencível.

Isso tem um nome, é uma palavra de origem grega – húbris – usada para designar aqueles que se embriagam com o poder, quando o poder lhes sobe à cabeça, donde decorre também a afirmativa de que o poder corrompe. Muitos detentores do poder sofrem de húbris e perdem a noção da realidade, situação agravada pelos que os envolvem e estimulam essa húbris. Lula sofre de húbris, outros tantos políticos já contraíram essa deformação psíquica e cometeram atos ilícitos que julgavam permissíveis para eles, por serem poderosos.

A história teria sido outra, se Lula tivesse optado pela aposentadoria e se o PT, em lugar de continuar culpando a Justiça, tivesse enfiado a carapuça, feito sua mea culpa, expulsado os envolvidos em tramóias, e nomeado gente decente, tipo Tarso Genro ou Valter Pomar, no lugar. Em vez de ficar martirizando nossa democracia com a ladaínha do “houve golpe”. A insistência petista lembra doentes que rejeitam as receitas e conselhos médicos e enfisemados que insistem em tragar seus cigarros. Não fosse essa cegueira fanática, visível nas redes sociais, hoje o PT já teria seu candidato provável à presidência, ao qual Lula do seu sítio poderia dar seu apoio. Mas não, os solertes conselheiros do PT levaram o partido para o suicídio, numa espécie de masoquismo público voluntário, num gesto nada marxista mas pietista. É a húbris que fez Lula pensar num levante popular contra sua condenação e provável prisão.

O problema é que o PT se dizia de esquerda e o estrago feito irá atingir toda esquerda. Não sou só eu e o Celso Lungaretti que afirmamos isso, mas ainda hoje podemos citar reações de Cesar Benjamin e Fernando Gabeira, gente muito mais competente que nós em análise política e de esquerda.

O que chorar ao ouvir a missa do réquiem de Lula? A nossa tristeza por termos embarcado como tantos outros numa canoa furada, porque num piscar de olhos a herança de Lula-Dilma, que não tinha consistência, era um mero populismo de esquerda, já foi dilapidada, e o Brasil retorna rapidamente às desigualdades de sempre.

Após esta Nota, segue uma coluna de Celso Lungaretti e alguns trechos de um texto de Cesar Benjamin. Boa leitura. (Nota do Editor, Rui Martins)

Por Celso Lungaretti, de São Paulo:

LULA É HOJE UM PERSONAGEM NOCIVO PARA A REVOLUÇÃO BRASILEIRA

O artigo do veterano e ótimo jornalista Clóvis Rossi, hoje na Folha, é uma espécie de julgamento moral do Lula, à luz dos valores republicanos e do Estado democrático de Direito, que têm sido incensados pelo PT desde que abandonou de vez a luta contra a exploração do homem pelo homem e, consequentemente, pela substituição da democracia burguesa por uma democracia que pertença a todos e a todos expresse, ao invés dessa que esta aí: um mero arcabouço institucional da imposição dos interesses da classe dominante aos dominados.
 
Meu ângulo de análise é outro, o de um revolucionário que está se lixando para os valores republicanos e o Estado democrático de Direito. Então, não me aterei a detalhes policiais do caso, mas, tão somente, ao papel histórico do Lula.
 
Nordestino pobre que, embora tenha vindo para São Paulo aos sete anos de idade, chegou a absorver bem a cultura do coronelismo (tanto que sempre se deu às mil maravilhas com os ACM’s e Sarneys da vida), mesclando-as depois com as do nascente sindicalismo de resultados do final da ditadura.
Lula diante da Volks: greves convenientes para os dois lados?


O certo é que sua projeção como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP) se deu graças a greves sobre as quais sempre pairou a suspeita de que fossem combinadas com as grandes montadoras: querendo livrar-se do congelamento de preços que a ditadura lhes impunha, interessava-lhes que houvesse tais paralisações, dando-lhes pretexto para cobrar mais pelos veículos como forma de compensar os aumentos de salários por elas concedidos. Os ministros da Fazenda da ditadura acabavam cedendo às suas pressões e abrindo uma exceção para elas. 

 
 
Durante tais greves, muitos militantes de esquerda tentavam entrar no território de Lula e sua patota sindicalista, sendo firmemente rechaçados. 
 
Depois, contudo, com a volta de Leonel Brizola ao Brasil, Lula percebeu que, se o deixasse sair na frente na organização de um partido de esquerda, acabaria se tornando um mero satélite na sua órbita. Mas, como estruturar um partido nacional se ele e seus seguidores só eram influentes em São Paulo? 
Lula e Brizola: rivais na disputa da hegemonia na esquerda

Assim, embora viesse até então zelosamente evitando que os esquerdistas de fora do ABC desempenhassem papel com um mínimo de destaque nas greves e nas assembleias no estádio de Vila Euclides, isolando-os tanto quanto podia, foi obrigado a negociar com os dirigentes dos ditos cujos para obter a abrangência geográfica que lhe permitisse vencer a corrida contra o tempo para consolidar nacionalmente o PT, antes que decolasse o PTB (acabou sendo PDT) do Brizola. 

 
As forças que se uniram para formar o Partido dos Trabalhadores foram os sindicalistas do ABC, os partidos e grupos de esquerda que haviam sobrevivido ao terrorismo de Estado da ditadura e a chamada esquerda católica.

 
Ou seja, circunstancialmente Lula foi obrigado a somar forças com a esquerda, mas nunca morreu de amores por ela. Solapou sua influência na década de 1980 estimulando o inchaço do PT (a permissão do ingresso em massa de ambiciosos e oportunistas de todos os matizes, interessados em encherem seus bolsos e não em tornarem a sociedade mais justa), esvaziando/expurgando as tendências de esquerda e, enfim, alinhando-se sempre com as posições que conduziam à desideologização do partido.


A seu mando, Zé Dirceu fechou com os poderosos da economia o acordo pelo qual estes não se oporiam à eleição e posse de Lula como presidente da República, comprometendo-se o novo governo, em contrapartida, a não tomar decisões macroeconômicas desfavoráveis aos donos do Brasil. Cada vez que eu o escutava repetir que os banqueiros nunca haviam lucrado tanto quanto com ele no poder, quase vomitava!
 
Então, o verdadeiro significado dos governos petistas foi o engessamento da luta contra o capitalismo, com os explorados sendo levados a crer que, de migalha em migalha, acabariam enchendo o papo. Deveriam saber que isto não dá certo nem para as galinhas, nem para os seres humanos. 

Quando a economia entrou em crise e não havia mais migalhas a distribuir, eles se viram sob uma das piores recessões brasileiras de todos os tempos, daí terem assistido indiferentes à derrubada de Dilma Rousseff. 
 
O que poderemos esperar de Lula, caso os poderosos lhe permitam concorrer à eleição presidencial e, vencendo, ser empossado? 
 
Existe alguém que acredite numa conversão miraculosa aos ideais revolucionários? 
 
Ou ele protagonizará mais uma (de antemão fracassada) tentativa de provar que a conciliação de classe e o reformismo ainda podem fazer a felicidade do povo brasileiro, embora tal crença nos faça marcar passo desde 1986?

Neste sentido, eu também prefiro que Lula seja rechaçado pelo eleitorado e não afastado da eleição pela Justiça burguesa. Pois, hoje, ele nada mais é do que um empecilho para que os explorados tomem seu destino na mão e passem a construir uma sociedade bem diferente da atual, que se mostra cada vez mais desigual e bárbara. 

  
O certo é que, aconteça o que acontecer no julgamento legal do Lula, seu papel histórico já está encerrado. Deveria ter pendurado as chuteiras há muito tempo.
 
Torço para que sua aposentadoria não se dê sob a humilhação e o constrangimento das grades, pois é algo que nenhum ancião merece quando não houver cometido crimes hediondos nem se constituir numa ameaça para a sociedade. 

Mas, para a necessária e, mais do que nunca, imprescindível revolução brasileira, ele hoje não passa de um personagem nocivo.
 
Celso Lungaretti, jornalista e escritor, foi resistente à ditadura militar ainda secundarista e participou da Vanguarda Popular Revolucionária. Preso e processado, escreveu o livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial). Tem um ativo blog com esse mesmo título.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

Segue um trecho de autoria de Cesar Benjamin-

As pessoas reconhecem o difícil presente em que vivem e pressentem um futuro incerto para si e para seus filhos. A vontade de transformar as circunstâncias vigentes é clara, mas o caminho para isso permanece indefinido. A necessidade de mudar fica pendente, sem se realizar nem desaparecer. Isso é a crise.

Há muitos anos essa crise experimenta idas e vindas, tendendo a agravar-se, pois a única forma de solucioná-la —fazer o povo comandar a nação, pela primeira vez, para resgatá-la, reinventá-la e desenvolvê-la— não foi alcançada.

Nossa história recente é uma impressionante sequência de promessas frustradas, que —tudo indica— se renovarão em 2018. A política deixou de ser um instrumento de transformação, reduzida a doses cavalares de marketing e de uma infindável sucessão de pequenos acordos, tudo a serviço da conquista e da preservação de posições de poder.

O futuro que daí resulta é apenas o prolongamento do presente, pois não contém o caráter novo de um verdadeiro futuro. O país marca passo, sem sair do lugar. Sob esse ponto de vista, nossos partidos políticos são todos iguais.

Em vez de políticos que se adaptam ao que a sociedade é, ou parece ser, precisamos de líderes que aceitem correr o risco de pensar no que ela não é, nem parece ser, mas pode vir a ser. Para que possamos despertar qualidades novas que estejam latentes.

Onde eles estão?

César de Queiroz Benjamin  é um cientista político, jornalista, editor e político. Durante a ditadura militar (1964-1985), participou da luta armada contra o regime, foi perseguido, preso e exilado. Cofundador do PT, foi também filiado ao PSOL, tendo se desligado dos dois partidos. Atualmente é o editor da Contraponto Editora, colunista da Folha de S. Paulo e secretário da Educação na cidade do Rio de Janeiro.

 

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