Mortes por coronavírus aceleram em 12 Estados brasileiros

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Publicado domingo, 26 de julho de 2020 as 11:24, por: CdB

Após desacelerar nos primeiros epicentros brasileiros, doença respiratória avança no interior e em locais que a tinham sob controle. Fiocruz vê sinais de segunda onda em quatro Estados. Índice de isolamento cai no país.

Por Redação, com DW – de Brasília

Há exatos cinco meses, o Brasil confirmava oficialmente seu primeiro caso de covid-19: um homem de 61 anos, de São Paulo, que havia chegado da Itália. Após mais de 2,3 milhões de infectados, 86 mil mortos, números que só ficam atrás dos vistos nos Estados Unidos, e três ministros da Saúde, o país parece ter chegado a uma relativa estabilidade de novos casos, conforme afirmou a Organização Mundial de Saúde (OMS) no dia 17 de julho, não sem um alerta.

Manaus foi uma das primeiras cidades a enfrentar explosão no número de mortes
Manaus foi uma das primeiras cidades a enfrentar explosão no número de mortes

– Os números se estabilizaram. Mas o que eles não fizeram foi começar a cair de uma forma sistemática e diária – disse o diretor executivo da OMS, Michael Ryan, em coletiva de imprensa. “O Brasil ainda está no meio dessa luta.”

É um platô que vem, portanto, com uma lista de ressalvas. Uma delas é que a estabilidade resulta da soma de diferentes curvas: em alguns Estados, a curva já superou o pico, e a doença desacelera; em outros, há estabilidade; e nos demais, o que se vê agora é uma aceleração da epidemia.

Em 12 unidades da federação há aceleração do número de mortes por covid-19, conforme dados do consórcio de veículos de imprensa brasileiros que apuram números junto às secretarias estaduais de saúde.

Quando considerados os municípios do país, 30,4% mostravam algum tipo de aceleração no número de novos casos em 21 de julho. Outros 24,5 % apresentavam estabilidade, e os 30,9% restantes, queda. O levantamento com recorte municipal foi feito com exclusividade para à agência alemã de notícias Deutsche Welle (DW) por Renato Vicente, professor associado do Departamento de Matemática Aplicada da Universidade de São Paulo (USP) e Rodrigo Veiga, doutorando do Instituto de Física da USP, ambos membros da coalizão COVID Radar.

Na análise de municípios por Estado, sete têm aceleração do número de novos casos diários. O ranking mostra Sergipe, onde 86,2% das cidades estão em aceleração, na pior situação, seguido por Bahia (75,8%), Roraima (72,7%), Santa Catarina (72,6%), Piauí (72,3%), Paraná (64,2%) e Minas Gerais (64,2%).

Além disso, Amapá, Maranhão, Ceará e Rio de Janeiro já podem estar enfrentando uma segunda onda, dado o aumento de casos semanais de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), conforme o último boletim InfoGripe da Fiocruz, de 23 de julho.

Outra ressalva apontada para o platô brasileiro é que ele foi alcançado com um número relativamente alto de mortes diárias. “É como se estivéssemos em um carro na estrada e parássemos de acelerar, mas estamos correndo a 200 km/h; vamos tomar multa“, afirma Domingos Alves, professor e pesquisador do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), que trabalha com projeções no grupo Covid-19 Brasil.

– Estamos mantendo uma média diária de mil mortes, e a gente sabe que esses números estão subestimados – alerta o ex-ministro da Saúde e pesquisador da Fiocruz José Gomes Temporão, que esteve à frente do combate à H1N1. Um estudo da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que testou 89 mil pessoas pelo país, concluiu que os números oficiais estão subestimados em cerca de seis vezes.

Centro-Oeste e Sul viram novos focos

À medida que desacelera nos primeiros epicentros da doença no país, a epidemia de covid-19  avança para o interior e, ao mesmo tempo, se mostra mais forte em locais que tinham números relativamente baixos antes da flexibilização de medidas de quarentena.

– O que nós vimos é que as capitais que estavam em situação mais aguda e que lideravam a epidemia, que são São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza e Manaus, começaram a deixar de ter tanta importância, inclusive algumas têm observado uma estabilidade –  explica Alves. “Agora, vemos uma interiorização da epidemia, principalmente para esses Estados que tinham a capital em situação aguda, e um crescimento nas regiões Centro-Oeste e Sul e no Estado de Minas Gerais.”

Após a reabertura de suas economias, os três Estados do Sul viram o número de casos sair de quase 50 mil no dia 20 de junho para pouco mais de 155 mil um mês depois, enquanto as mortes passaram de 1.095 para 3.264.

O novo cenário forçou os gestores estaduais a repensarem as medidas de relaxamento da quarentena. Em Santa Catarina, o governo voltou a restringir a circulação de pessoas em sete regiões classificadas como em situação gravíssima.

Desde junho, o Centro-Oeste é também um dos novos focos da epidemia. Entre 8 e 28 de junho, o número de mortes cresceu mais de 191% na região, e o de casos, 198%, segundo levantamento do consórcio dos veículos de imprensa. Foram as maiores altas do período entre as regiões do país. A ocupação de leitos de UTI subiu em todo o Centro-Oeste, com Mato Grosso tendo o pior cenário, 92% de ocupação, no começo de julho.

Há aceleração do número de mortes diárias também no Tocantins, na Paraíba e em Minas Gerais. Somente em Belo Horizonte, a ocupação de leitos de UTI saltou de 45% para 85% em junho, forçando a prefeitura a recuar da flexibilização.

– Agora teria de fazer um lockdown no Sul e no Centro-Oeste. Nos lugares onde o número de casos diários ainda está subindo ou estabilizando num patamar muito alto, tem que fazer lockdown – considera o epidemiologista e reitor da UFPel, Pedro Hallal.

Manaus e capital paulista não veem repiques

O fato de haver cidades que foram duramente atingidas inicialmente nas quais a reabertura não veio acompanhada de um novo avanço da covid-19 intriga pesquisadores.

Mesmo após a reabertura do comércio de rua e shoppings no dia 10 de junho, a cidade de São Paulo não viu o repique que cientistas esperavam em relação ao número de novos casos e óbitos.  A taxa de isolamento ajuda a explicar isso. No dia 9 de junho, a capital paulista registrava 47% de índice de isolamento, segundo dados do governo estadual. Esse número caiu, mas não de forma significativa: era de 43% em 20 de julho. No pico para um dia útil, a cidade registrou 57%, em 10 de abril.

O professor aposentado da Faculdade de Bioquímica da USP e colunista do Estado de S. Paulo Fernando Reinach aponta, no entanto, que a taxa de isolamento não explica tudo. “Na Europa, a curva caiu porque teve um distanciamento social, então todo mundo falava que se relaxassem (as medidas de isolamento) ia subir de novo o número de casos (diários), e aparentemente em São Paulo não está subindo. É a primeira grande metrópole em que essa receita não foi feita, ou foi mal feita”, diz.

Outro caso citado por Reinach e por mais pesquisadores é Manaus. A capital do Amazonas chegou a abrir covas coletivas para enterrar seus mortos no pico da epidemia, mas agora vive uma queda. Isso sem que tenham sido implementadas políticas públicas mais efetivas para conter o vírus ou que entre 60% e 70% da população tenha sido infectada, o que caracterizaria, segundo pesquisadores, a chamada imunidade de rebanho.

Para Hallal, que coordenou o estudo da UFPel, há a possibilidade de que a imunidade de rebanho possa ser atingida com uma parcela menor da população imunizada: “Nos últimos dias começaram a pipocar estudos sugerindo que nem todas as pessoas são suscetíveis. Pode ser que a imunidade de rebanho possa ser atingida com menos de 60% ou 70%.”

Há estudos sobre a possibilidade de que a vacina BCG (para tuberculose) e a vacina da poliomielite ajudem a proteger contra o Sars-Cov-2, o coronavírus causador da covid-19. No entanto, ainda não existe nada comprovado a respeito.

Entre abre e fecha, isolamento cai no país

Atualmente, o país vive, na média, uma queda do índice de isolamento social na comparação com o observado em março. Apesar da ausência de uma coordenação federal mais sólida para enfrentamento da epidemia, todos os Estados adotaram medidas de distanciamento social a partir de março, tendo sido São Paulo e o Distrito Federal os primeiros.

A partir de abril, no entanto, já começou a haver flexibilização das regras. O pesquisador da Rede de Pesquisa Solidária e mestrando do Departamento de Ciência Política da USP Luiz Cantarello, que tem acompanhado e pesquisado o tema, ressalta, no entanto, que sempre houve diferentes níveis de rigidez: “Na Bahia, hoje, ainda não há flexibilização, e mesmo assim, as regras são menos rígidas que em Goiás, por exemplo, que já flexibilizou.”

Independentemente das políticas públicas, o índice geral de isolamento social no Brasil ficou aquém do que é tido como efetivo, a partir de 70%. De acordo com a professora do Departamento de Ciência Política da USP e coordenadora científica da Rede de Pesquisa Solidária, Lorena Barberia, os Estados com os maiores índices de isolamento – Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Goiás – chegaram perto de 70% entre o final de março e o começo de abril. No último levantamento, dos dias 2 e 3 de julho, todos as unidades da federação estavam com taxas entre 35% e 40%, com exceção do Tocantins, que registrava 33%.

– Como desde o início as políticas implantadas foram moderadas, isso nos colocou em um contexto que tivemos transmissão local por período contínuo. A gente nunca conseguiu atingir o objetivo que outros lugares (do mundo) com políticas mais rígidas conseguiram, ter o fator de transmissão abaixo de um – avalia Barberia. “Se tivéssemos fechado mais rigidamente inicialmente, talvez tivéssemos poupado a economia.”