Mourão se descola de Bolsonaro e já não poupa críticas ao presidente

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Publicado terça-feira, 3 de novembro de 2020 as 14:11, por: CdB

Nesta manhã, Mourão mais uma vez estragou o roteiro do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ao afirmar que o Brasil tende a adotar uma posição “neutra”, caso as eleições presidenciais nos Estados Unidos sigam para uma decisão na Suprema Corte daquele país.

Por Redação – de Brasília

Vice-presidente da República, o general Hamilton Mourão torna-se, um dia depois do outro, a nêmesis do companheiro de uma chapa que tende a não se renovar para 2020. Avisado por fontes próximas a ambos que não deverá figurar na mesma lista eleitoral, nas próximas eleições presidenciais, Mourão tem deixado sua franqueza pesar nas declarações sobre o cadete que, um dia, frequentou as mesmas carteiras que ele, na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). Entre eles, o relacionamento azedou por completo, segundo disseram fontes à reportagem do Correio do Brasil, no fim da noite passada.

Para Hamilton Mourão, o presidente não tem poder suficiente para alterar o rumo da política externa brasileira quanto aos EUA

Mas essa não é a primeira vez que o general enquadra o capitão expulso do exército. E nem parece que seja a última. Nesta manhã, Mourão mais uma vez rasgou o roteiro do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ao afirmar que o Brasil tende a adotar uma posição “neutra”, caso as eleições presidenciais nos Estados Unidos sigam para uma decisão na Suprema Corte daquele país.

— Neutra, lógico. Não temos nada a ver com as questões internas americanas. Isso é princípio constitucional nosso. A gente não admite ingerência nos nossos assuntos internos e também não fazemos nos assuntos internos dos outros — disse ele nesta terça-feira, a jornalistas.

Vacina

Mourão se pronunciou logo depois de Bolsonaro usar as redes sociais para dizer que o pleito norte-americano desperta “interesses globais” e levantam suspeitas de “ingerências de outras potências no resultado final das urnas”. A ideia parece absurda aos ouvidos de Mourão.

Pouco antes do feriado, na semana passada, o general discordara da posição de Bolsonaro quanto à recusa na aquisição da CoronaVac, vacina desenvolvida pela chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. Nas redes sociais, Bolsonaro alegou existir um “descrédito muito grande” em torno da vacina chinesa.

Mas, segundo Mourão, a mensagem de Bolsonaro não passa de uma “opinião pessoal”.

— Isso é bobagem. Opinião pessoal dele. Se bem que quando o presidente fala, ele fala por todos do governo. O relacionamento do Brasil com os EUA é um relacionamento de Estado para Estado, independente do governo que estiver lá. Claro que cada governo tem suas prioridades, tem suas características pontuais, mas no conjunto da obra nós vamos continuar com as mesmas — acrescentou.

Responsabilidade

Mas, ao mesmo tempo, Mourão tem evitado escancarar o conflito. Ainda nesta manhã, logo após reduzir o peso das declarações de Bolsonaro, ele negou qualquer atrito com o presidente. Para ele, a questão da vacina está resolvida.

— Aqui não há briga. Existem opiniões que ora coincidem e ora não, mas quem decide é o presidente e ele foi eleito para isso. Não conversei com o presidente (sobre o assunto), o que eu quis colocar ali é que é o seguinte, a vacina é uma vacina brasileira. Qualquer vacina vai ser produzida aqui no Brasil e, óbvio, o presidente vai tomar a decisão que for melhor para o conjunto da população brasileira, que é essa a responsabilidade dele — declarou Mourão quando questionado por jornalistas ao chegar à Vice-Presidência.

O general afirmou que não conversou com Bolsonaro sobre o assunto, mas que acredita que o presidente fará o que for melhor para o população.

Adversário

Bolsonaro e o governador do Estado de São Paulo, João Doria (PSDB), divergem publicamente sobre a obrigatoriedade da vacinação contra a covid-19. Enquanto o presidente, que é candidato à reeleição em 2022, diz que o governo federal não obrigará a imunização, o governador paulista, principal adversário de Bolsonaro, até agora, já disse que a vacina será obrigatória no Estado.

Bolsonaro revogou, em setembro, o acordo feito pelo Ministério da Saúde para a compra de 46 milhões de doses da Coronavac, vacina da farmacêutica chinesa Sinovac que será produzida pelo Instituto Butantã.

— Ele que arrume alguém para bancar a (vacina) dele — retaliou o mandatário.