Mudanças na conjuntura e eleições municipais

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Publicado segunda-feira, 31 de agosto de 2020 as 10:01, por: CdB

Nessa conjuntura adversa, de tempo indefinido, quais os desafios das esquerdas políticas e sociais? Não tem muito para onde correr. É preciso persistir na denúncia desse governo autoritário na política, reacionário nos direitos civis e ultraneoliberal na economia.

Por Altamiro Borges – de São Paulo

De forma telegráfica, em tópicos, algumas observações e preocupações sobre o cenário político brasileiro e a importantíssima batalha das eleições municipais deste ano:

De forma telegráfica, em tópicos, algumas observações e preocupações sobre o cenário político brasileiro
De forma telegráfica, em tópicos, algumas observações e preocupações sobre o cenário político brasileiro

Há sinais de mudança na conjuntura nacional. Essa alteração pode ser momentânea, fugaz. Pode?! Mas ela interfere na luta política nos próximos meses.

O “capetão” Bolsonaro estava nas cordas, correndo sério risco de até sofrer impeachment. Ele se desgastou em decorrência da prolongada crise econômica, do seu persistente piriri verborrágico e, principalmente, da sua postura criminosa, negacionista e irresponsável diante da pandemia do novo coronavírus.

O troglodita também se isolava celeremente, tendo comprado brigas com sua legenda de aluguel (PSL), com governadores que subiram ao seu palanque (como Doria e Witzel) e com lavajatistas subordinados a Moro. Até expoentes da cloaca burguesa já advertiam que o governo poderia deixar de ser funcional ao “deus-mercado”.

Devido ao desgaste e ao isolamento, o cerco político ao “capetão” Bolsonaro cresceu no último período, em especial por parte do Supremo Tribunal Federal.

Neste quadro radicalizado, o presidente fascistoide até pensou em dar um golpe, em enviar tropas ao STF – como revelou a revista Piauí. Como não reuniu forças para a aventura, ele teve que recuar momentaneamente. Num quadro de “empate”, de impasse entre o “cerco” e “golpe”, ele agora tenta se reposicionar politicamente.

Entre outras medidas inusitadas, o presidente despachou o olavete histérico Abraham Weintraub, calou seus filhotes tagarelas, chutou deputados bolsonaristas-raiz de postos de comando no Congresso Nacional, diminuiu sua cólera nas redes sociais, encerrou o circo do chiqueirinho do Palácio da Alvorada.

Nessa manobra de risco, o farsante da antipolítica se ampara nos profissionais do Centrão, nos pragmáticos generais, nos líderes do Congresso e em alguns ministros do STF. Gente que ameaçava reforçar a frente ampla de oposição já dá sinais de pragmatismo e de retorno à base do governo, principalmente para implementar sua agenda econômica neoliberal.

A mudança de comportamento do fascista ganha maior impulso com o recente aumento de sua popularidade expresso em várias pesquisas. Este é um elemento essencial na nova conjuntura e tem relação direta com o enorme impacto social do auxílio-emergencial de R$ 600, que beneficia milhões de famílias e dá sobrevida ao mercado interno de consumo, à combalida economia.

Este valor, bem superior à média de R$ 170,00 do programa Bolsa Família, decorre da pressão dos partidos de oposição e dos movimentos sociais. O austericida neoliberal Paulo Guedes era contra e o governo só cedeu no último instante. Agora, porém, ele libera o dinheiro e capitaliza seus efeitos. Até no Nordeste, o oportunista Bolsonaro cresce em popularidade.

O auxílio-emergencial

O auxílio-emergencial escancara o estado de miséria da sofrida população. Ele também evidencia o grande erro, o maior pecado, dos governos progressistas, que é o de não ter apostado na politização dos brasileiros, no aumento da sua consciência política. A despolitização facilita a manipulação, mesmo que momentânea.

Fruto desses fatores, Bolsonaro começa a sair do isolamento e ganha algum prestígio, que pode ser fugaz. É evidente que esse cenário tem muitas contradições. O “capetão” não renegará seu DNA fascista, sua truculência. O “Jairzinho paz e amor” é fake news. Sentindo-se fortalecido e com a oposição dispersa, ele voltará à carga.

A outra contradição, que ganha centralidade, ocorre na economia. O auxílio-emergencial não vai durar para sempre. A chiadeira do “deus-mercado” já é violenta. O “laranja” não foi eleito para bancar políticas públicas. Depois da queda do Moro e do Mandetta, qual seria o impacto da derrubada do abutre Paulo Guedes?

Nessa conjuntura adversa, de tempo indefinido, quais os desafios das esquerdas políticas e sociais? Não tem muito para onde correr. É preciso persistir na denúncia desse governo autoritário na política, reacionário nos direitos civis e ultraneoliberal na economia. Só a denúncia persistente e competente poderá resultar em nova acumulação de forças após as surras levadas no golpe do impeachment e na eleição do fascista.

Nessa resistência, num cenário ainda grave de pandemia, a prioridade segue sendo a de defender a vida, prestando solidariedade ativa ao sofrido povo e exigindo medidas de redução dos danos econômicos e sociais. É preciso bater bumbo na defesa da manutenção do auxílio-emergencial de R$ 600,00, na luta pela superação do genocida Teto de Gastos, e da reforma tributária que cobre dos ricaços. É preciso defender o papel do Estado, das políticas públicas, do SUS.

As derrotas dos últimos anos

Nessa resistência, que promete ser prolongada, é preciso também ir superando as dificuldades da oposição popular e progressista do país. As derrotas dos últimos anos foram profundas e as feridas ainda estão expostas. As forças oposicionistas têm feito esforço para superar a dispersão e apatia – como nas ações conjuntas no Congresso Nacional ou nas mobilizações unitárias das frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo.

Apesar dessas valiosas iniciativas, a oposição popular-democrática permanece dispersa, fragmentada e sem conseguir dar maior repercussão aos seus atos. Ela ainda não consegue disputar a direção política e a narrativa na sociedade. Por motivos óbvios, a invisibilidade ainda é grande na mídia burguesa e as redes sociais seguem dominadas pela extrema-direita. Já as ruas estão vazias devido à pandemia do coronavírus.

Nesta conjuntura adversa, as dificuldades do campo popular e democrático podem aumentar ainda mais na decisiva, quase plebiscitária, eleição municipal de novembro. Não há sinais de que o pleito de 2020 repetirá a sangria desatada de 2016, quando as esquerdas levaram uma surra. Nas 26 capitais e 70 cidades com mais de 200 mil eleitores, o G-96 onde há segundo turno –, o PT despencou de 18 para um prefeito, o PCdoB caiu de quatro para um (Aracaju, que depois deixou a sigla) e o PSOL perdeu a única capital que governava. PSB e PDT também tiveram redução de mais de 50% no número de prefeitos no G-96.

Agora, a tendência é de que a avalanche ultradireitista tenha sido contida. Mas ela não está encerrada e será preciso sentir os impactos do aumento recente da popularidade de Bolsonaro. Há ainda um aparente crescimento das forças de centro e centro-direita. Ou seja: a conjuntura aparentemente não é favorável às forças de esquerda nesta eleição. Até agora, com raras exceções, as pesquisas são negativas nas capitais e nas principais cidades.

É urgente pulsar melhor este cenário. De forma conjunta e sem hegemonismos, é preciso maturidade e muita coragem para reavaliar apostas. As forças de esquerda seguem divididas, fragmentadas e dispersas. Correm sério risco de não ir ao segundo turno em nenhuma das capitais e nos maiores centros urbanos. Uma derrota fragorosa em 2020 fortalecerá o fascismo ou a centro-direita para 2022. O jogo está sendo jogado!

 

Altamiro Borges, é jornalista.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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