Mulher do ‘capitão Adriano’ corre risco de morrer em nova queima de arquivo

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Publicado segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020 as 16:09, por: CdB

Sem que o governo petista da Bahia tenha se pronunciado sobre o caso, exceto para elogiar a conduta dos policiais que realizaram o cerco à casa onde o miliciano se escondia, em seus últimos momentos, os celulares usados por Nóbrega ainda não foram periciados.

 

Por Redação – do Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo

Os segredos que o ex-capitão Adriano da Nóbrega levou para o túmulo estão agora guardados com a mulher dele, Júlia Emília Mello Lotufo, e ela também corre o risco de ser alvo de uma queima de arquivo, segundo apurou a reportagem do Correio do Brasil. A jovem, de 28 anos, está fora do radar policial desde que foi detida, para averiguação, no trecho baiano da BR-116, há quatro dias.

O 'capitão Adriano' e a mulher estavam foragidos, em uma fazenda na Bahia
O ‘capitão Adriano’ e a mulher estavam foragidos, em uma fazenda na Bahia

Sem que o governo petista da Bahia tenha se pronunciado sobre o caso, exceto para elogiar a conduta dos policiais que realizaram o cerco à casa onde o miliciano se escondia, em seus últimos momentos, os celulares usados por Nóbrega ainda não foram periciados. Neles, segundo apurou o CdB, há traços da intensa comunicação entre o “herói”, condecorado pela família do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), e a mulher.

Lotufo, de acordo com um dos investigadores da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro próximo às investigações, que prefere manter o anonimato “por questões óbvias”, afirmou, tem sido monitorada de perto, há mais de três meses. Ela exerceu cargos tanto na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), no gabinete do então deputado do PSL fluminense Flávio Bolsonaro (hoje senador, sem partido), quanto no governo estadual e na prefeitura do Rio. Discreta, a viúva de Nóbrega dificultou ao máximo a descoberta do local onde se escondia o marido e pai de sua filha, de 8 anos.

Suspeito

Embora seja suspeita de transportar recursos ilícitos da contravenção e da milícia de Rio das Pedras até o local onde o ex-capitão se escondia, Lotufo permanece livre e, atualmente, sem um endereço conhecido. Seu último contato com as autoridades ocorreu há quatro dias, logo após a morte do companheiro, durante uma fiscalização de rotina da Polícia Rodoviária Federal (PRF), perto de Vitória da Conquista (BA).

Ao ser interceptada, a mulher do ‘capitão Adriano’ disse aos agentes federais que acabara de vender um cavalo de raça, para justificar os cerca de R$ 15 mil que levava na bolsa. Júlia Lotufo acrescentou que havia saído do Rio com destino a uma fazenda em Esplanada, de propriedade do empresário Leandro Abreu Guimarães. Tratava-se do dono do sítio onde o miliciano estava hospedado. Ele foi preso, acusado de facilitar a fuga do suspeito, mas a Justiça determinou sua soltura, por falta de provas.

A viúva, no entanto, acredita que o ex-marido foi vítima de uma “queima de arquivo”.

— Meu marido foi envolvido numa conspiração armada pelo governador do Rio, Wilson Witzel, que queria matar o Adriano como queima de arquivo — disse a viúva, a uma revista semanal, que também publicou fotos da necrópsia.

‘Rachadinha’

O médico legista, no entanto, não soube precisar se houve o emprego de tortura ou algum meio cruel para a morte do ex-capitão. “Não tem como afirmar ou negar”, escreveu o médico legista Alexandre Silva.

Para os promotores do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPE-RJ), as investigações continuam, sem descartar a linha que indica o envolvimento do chefe da milícia com a prática ilícita da ‘rachadinha’, no gabinete de Flávio Bolsonaro. Adriano receberia parte dos salários pagos a funcionários do gabinete que não apareciam para trabalhar, entre eles a mãe e a ex-mulher de Adriano. Ele também era suspeito de fazer parte do Escritório do Crime, um grupo de matadores de aluguel”, informa a reportagem.

“No dia 31 de janeiro, Adriano foi visto dentro de casa por policiais que já estavam monitorando o condomínio. Eles acionaram o reforço para cumprir o mandado de prisão. Mas a mulher de Adriano, que estava fora da casa, percebeu a movimentação e avisou o marido por mensagem de áudio. Quando a polícia chegou, só encontrou roupas guardadas dentro das malas. Adriano havia escapado pelo pântano. Apesar de estarem lá há mais de um mês, ele e a mulher viviam como se estivessem prontos para sair a qualquer momento”, descreveu uma reportagem exibida, na noite passada, em um programa semanal na TV aberta.

Explicações

Para o jornalista Breno Altman, filiado ao PT, o governador petista da Bahia, Rui Costa ainda deve uma explicação pública sobre o caso.

— Rui (Costa) deveria colocar todos os policiais que participaram da operação (que executou Nóbrega) sob escrutínio. O PT deve não somente nos bastidores, mas publicamente cobrar uma postura do governador — afirmou, em seu blog.

Altman acredita que “a esquerda deve enfrentar o tema da segurança pública”, pois haveria “um imenso descontrole dos governadores em relação às polícias militares”.

— Os policiais deveriam estar sob estrito controle dos governos estaduais. Os governos de esquerda cruzam o braços e deixam a polícia pintar e bordar com suas estruturas autoritárias. O único governador que conseguiu enfrentar a policia chama-se Leonel Brizola — concluiu.

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