Municípios do Rio são contra a privatização de água e esgotos

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Publicado segunda-feira, 13 de julho de 2020 as 12:53, por: CdB

O estado de calamidade no tratamento de esgotos na Região Metropolitana do Rio se agravou nos últimos anos e metas de duas décadas atrás jamais foram cumpridas.

Por Emanuel Alencar/#Colabora – do Rio de Janeiro

O estado de calamidade no tratamento de esgotos na Região Metropolitana do Rio se agravou nos últimos anos e metas de duas décadas atrás jamais foram cumpridas. Com base na Lei de Acesso à Informação, o #Colabora apurou que as oito principais plantas que circundam a Baía de Guanabara tratam 5.112 litros por segundo de esgotos, o que representa apenas 43% da capacidade projetada dessas unidades há 26 anos.

Desde 2014, quando a última planta de tratamento foi reinaugurada, houve queda nas vazões das unidades operadas pela Cedae
Desde 2014, quando a última planta de tratamento foi reinaugurada, houve queda nas vazões das unidades operadas pela Cedae

Não houve avanços nem mesmo desde fevereiro 2014, quando o então governador Sérgio Cabral reinaugurou a Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) Pavuna, a última ação merecedora de pompa e solenidade por causa das Olimpíadas. Naquele ano o percentual divulgado pela Companhia Estadual de Águas e Esgoto (Cedae) chegava a 51%. Os dados fornecidos ao #Colabora pela Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do Rio (Agenersa) têm como base as vazões médias de cada unidade.

Um misto de falta de investimentos, desvios de verbas e ausência de tubulações, as artérias de qualquer sistema de saneamento, explicam o naufrágio da política estadual. Decorridos nove governos estaduais desde que o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG) foi assinado, de Leonel Brizola a Wilson Witzel, os investimentos permanecem irrisórios e as estações operam de forma precária. Das estações, a situação da ETE Sarapuí, às margens de rio homônimo, em Belford Roxo, ilustra bem a marcha a ré do saneamento no Grande Rio: projetada para tratar 1.500 litros por segundo, a unidade recebia 725 em 2014, e hoje recebe apenas 200 litros por segundo de dejetos.

O engenheiro José Stelberto Soares, que no ano 2000 coordenou o programa de urbanização Nova Baixada, conta que a ETE simplesmente ficou desabastecida de esgotos por falta de redes. A ligação de uma tubulação que captava os esgotos do município de Mesquita, de 4 quilômetros de extensão, à ETE Sarapuí, jamais foi concluída. O trabalho foi feito até a interseção da Via Dutra. E parou.

– O coletor vem pela beira do Rio Sarapuí, desde a Chatuba de Mesquita, até Rodovia Dutra, mas ficou descontinuado. Ficaram faltando outros quatro quilômetros. O pessoal do PDBG era o responsável por dar sequência, mas nada foi feito – diz Stelberto. “A questão não é técnica, é simplesmente política”.

Outra planta claudicante é a de Pavuna, que deveria coletar e tratar os esgotos produzidos nos bairros de Acari, Colégio, Irajá, Vista Alegre, Jardim América, Vigário Geral e Pavuna, no Rio de Janeiro, e de parte dos municípios de São João de Meriti, Nilópolis e Duque de Caxias. A ETE trata hoje apenas 23,3% da capacidade projetada em 2000, quando foi erguida. Sobre a ETE Pavuna há, inclusive um detalhado projeto executivo pronto, sobre a expansão do sistema, engavetado. O documento, concluído em 2015 pelo governo do Estado, custou R$ 15 milhões aos cofres públicos.

Um dado curioso é que a favela de Vigário Geral está dotada de nove elevatórias prontas para se conectarem à ETE Pavuna. Construídas pelo programa Favela Bairro (1994 e 2008), da prefeitura do Rio, todas estão desativas.

Faz o tronco, mas não chega

Escaldado pela ausência de redes coletoras há décadas na Região Metropolitana do Rio, Gandhi Giordano, professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Meio Ambiente da Faculdade de Engenharia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), lembra que estações foram inauguradas “a seco” no início do século XXI, e governantes chegaram a fazer manobras de by-pass de rios para maquiar o funcionamento.

– Sarapuí e Pavuna, por exemplo, foram inauguradas sem as redes. Houve correria para que as empreiteiras fossem pagas, lá atrás. Se essa má performance fosse decorrente de entupimento isso acabaria extravasando nas ruas. Então é necessário que a Cedae explique essa queda – comenta Gandhi.

Para o engenheiro, a operação “copo meio vazio” das plantas é nociva para a infraestrutura: “O que pode estar acontecendo também é manutenção precária. Mas só isso não explica. Existe um bloco de carnaval chamado “Concentra, mas não sai”. Nesse caso é “Faz o tronco, mas não chega”. Outro complicador é que essas estações foram feitas para ficarem cheias. Se ficam vazias, isso evidentemente dá problema”, completa.

Nos descaminhos, há até histórias pitorescas, como a da ETE Paquetá, inaugurada no início dos anos 1990 e estruturada no modelo “graúna”, no qual o esgoto é jogado num tubulão com bombeamento de oxigênio. Com o tempo, o terreno argiloso amassou a estação. De lá para cá, nada foi feito.

O que diz a Cedae

O #Colabora enviou questionamentos à Cedae no último dia 3, e, até esta segunda-feira, aguarda as respostas.

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