Não Milton Ribeiro, você não é Dietrich Bonhoeffer

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Publicado quinta-feira, 23 de junho de 2022 as 02:47, por: CdB

Com a prisão do pastor Milton Ribeiro por corrupção,, depois de pertencer a um governo em decomposição, o Direto da Redação reedita um comentário publicado em julho de 2020, quando o pastor Milton Ribeiro assumiu o posto de Ministro da Educação, com todos os problemas decorrentes para a educação no Brasil, entre o eles o da ameaça de uma gradativa substituição do ensino laico pelo religioso influenciado pelos evangélicos.  A outra ameaça era a de copiar os Estados Unidos e tornar pagas as universidades, o que impediria o acesso à formação universitária aos jovens sem recursos mesmo capazes de serem aprovados no vestibular. O Brasil vive um momento importante, no qual se desmascara a falácia e a mentira de um governo corrupto mas que se diz sem corrupção. Ao mesmo tempo, os dirigentes evangélicos e protestantes que se atrelaram ao nazifascismo bolsonarista, imitando de certa forma a adesão dos protestantes alemães a Hitler nos anos 30, estão sendo desmascarados e perdendo o pouco de credibilidade que lhes restava.

Por Rui Martins
Evangélicos não podem continuar apoiando o governo Bolsonaro
Líderes evangélicos pregam o que não praticam e perdem a credibilidade

Olhem bem para a foto do alemão Dietrich Bonhoeffer na edição francesa do Wikipedia, aqui reproduzida.

Não é exagero se dizer que nas fotos divulgadas do pastor brasileiro Milton Ribeiro, indicado para Ministro da Educação, ele se parece com o pastor alemão Dietrich Bonhoeffer, nessa foto tirada em 1939.

Só mesmo a aparência… Dietrich Bonhoeffer foi um herói contra o nazismo

Ambos se parecem, mas atenção, o pastor presbiteriano santista Milton Ribeiro não é nem de longe o pastor alemão Dietrich Bonhoeffer.

Arrependo mesmo de ter imaginado escrever um texto destinado a comparar os dois pastores. Isso porque, antes de ter iniciado este quarto parágrafo, fui fazer uma pesquisa sobre o “teólogo” Milton Ribeiro e agora me sinto constrangido por ter ousado citar Dietrich Bonhoeffer no título deste artigo.

Por quê? Porque o pastor luterano alemão Dietrich Bonhoeffer é um herói nacional e também europeu, com estátuas construídas em sua homenagem, não só na Alemanha como na Inglaterra, Estados Unidos e países que lutaram na Segunda Guerra Mundial contra o nazismo e seu criminoso líder, Adolf Hitler.

Porque Dietrich Bonhoeffer foi um corajoso combatente da resistência alemã, quando a própria Igreja Luterana alemã havia aderido ao nacional-socialismo de Hitler.

Porque Bonhoeffer foi dos primeiros a denunciar o risco do nazismo de Hitler provocar uma Segunda Guerra Mundial. E pagou caro por isso: preso num campo de concentração foi enforcado, por ordem de Hitler, pouco antes da derrota da Alemanha.

Ainda mais, Dietrich Bonhoeffer era um teólogo erudito, que não se satisfazia com interpretações fáceis e evidentes dos textos bíblicos. Estudioso da teologia de Kart Barth, não deixava de lado Hegel e Max Weber. Bolsista durante um ano, em Nova Iorque, logo depois da Grande Depressão, descobriu a importância do Evangelho Social ao constatar a miséria em que viviam principalmente os negros norte-americanos.

Seu retorno à Alemanha, depois de exercer o pastorado na Inglaterra, coincidiu com a ascensão de Hitler e da ideologia nazista. Um de seus primeiros combates foi contra o controle da Igreja Luterana por Hitler.

E o que se sabe sobre o pastor Milton Ribeiro? Alguma semelhança com a resistência de Dietrich Bonhoeffer ao nazismo de Hitler na Alemanha? Não, nenhuma.

Muito ao contrário. Embora não sejam de hoje as revelações extremistas de direita do ex-deputado federal e do candidato à presidência Jair Bolsonaro, isso não impediu ao pastor Milton Ribeiro lhe dar seu apoio na campanha eleitoral. E sabemos que os apoios dos pastores evangélicos em geral equivalem ao de cabos eleitorais.

O culto às armas, as declarações de que bastariam serem mortos uns 30 mil, a linguagem violenta e suja, as referências à uma política indígena contrária às reservas, a destruição da Amazônia, os gracejos racistas contra os negros, a posição agressiva contra os homossexuais, além das denúncias veiculadas na imprensa sobre as tendências nazifascistas do candidato não foram obstáculos ao apoio do pastor Milton Ribeiro à Jair Bolsonaro.

A recompensa não demorou — o pastor Milton Ribeiro foi contemplado com um cargo na Comissão de Ética do governo, encarregada de localizar a oposição ao presidente. Agora, a cereja em cima do bolo é a atual indicação para cuidar da Educação, sem levar em conta se tratar de um pastor ultra conservador e fundamentalista, sabendo-se que não aprovará nenhum projeto, nenhuma promoção, nenhuma atividade artística fora dos rígidos padrões morais puritanos presbiterianos, dignos dos passageiros do Mayflower e das primeiras colônias inglesas nas terras norte-americanas.

O Ministério da Educação entrará em plena Idade Média com o risco de se tentar modificar a Lei das Diretrizes e Bases da Educação, em vigor desde 1996 e que fixava como fundamentos básicos princípios como estes:

Art. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas; respeito à liberdade e apreço à tolerância; coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino; vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais; e consideração com a diversidade étnico-racial.

Com a quebra do princípio da laicidade e a pressão dos evangélicos, o novo ministro poderá permitir a influência da religião na fixação dos currículos escolares, num tipo de censura velada mas que poderá desvirtuar e corromper todo o programa educacional do Brasil. Foi isso o que ocorreu durante as ditaduras de Franco e Salazar, com prejuízo cultural enorme para Espanha e Portugal.

É evidente que alterada a maneira de se educar, sob pressão religiosa nos princípios pedagógicos, haverá consequências em outra área — na maneira de se propor a Cultura ao povo, e isso inclui espetáculos, música, cinema, teatro e literatura. Caso continue o governo Bolsonaro, ou pior ainda no caso de uma reeleição, a censura educacional se alastrará e repercutirá nos programas culturais do Brasil sob o controle de igrejas e pastores, num retrocesso cultural alarmante.

E a influência do privatismo educacional norte-americano poderá chegar às universidades brasileiras, colocando em perigo sua gratuidade tornando um privilégio das classes alta e média o acesso às universidades.

Do retrocesso educacional ao retrocesso cultura bastará um passo. Haverá queima de livros considerados amorais, imorais? Quem sabe do que será capaz o novo defensor da verdade e da moral bíblicas. Haverá apoio à montagem de espetáculo musicais que não sejam gospels? Até onde irá a censura ao teatro, ao cinema e à televisão?

Será punido o ato sexual sem casamento? Em todo caso, reviveremos a época antepassada em que amigar sem casar era mal visto. Num dos quatro vídeos do pastor puritano moralista Milton Ribeiro, só vale sexo no casamento. E a punheta e a masturbação? Sem dúvida levam ao inferno.

Se eu não tivesse visto o vídeo do próprio pastor Milton Ribeiro não acreditaria — nos casos de pedofilia, são as vítimas que provocam o pedófilo. Quando sai da ordem moral, o pastor condena o bolsa família por incentivar a vagabundagem.

Deve haver ainda outros absurdos suficientes para impedir a esse pastor dirigir um Ministério da Cultura, porém um só deles bastaria para os pais e mães saírem às ruas e exigirem a demissão antes da posse dessa figura: é quando Milton Ribeiro nos revolta ao defender com voz de anjo o retorno do castigo corporal nas crianças, talvez influenciado por textos do Velho Testamento.

Ou seja: teremos um ministro contrário ao Estatuto Nacional das Crianças, que, numa igreja, prega para seus fiéis aplicarem corretivo corporal no seu filho ou filha, a fim de andarem no bom caminho. O Estatuto no seu Art. 5º, diz — Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.

Vale ainda um adendo — em 1964, por influência do pastor Boanerges Ribeiro, ex-pastor da Igreja Presbiteriana de Santos, logo depois do Golpe Militar, foi instaurado um Inquérito Policial Militar (IPM) no Seminário Presbiteriano de Campinas (hoje Seminário do Sul) e no de Recife. Boanerges Ribeiro, até hoje a mais importante figura do presbiterianismo brasileiro. Teólogo, intelectual e escritor, conservador fundamentalista, homem de direita, dirigiu durante 12 anos o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil e, logo depois, assumiu a direção e a reitoria da Universidade Mackenzie, sempre imprimindo suas convicções religiosas e políticas.

O IPM nos seminários presbiterianos significou o desligamento de numerosos seminaristas e professores, que tivessem mostrado qualquer interesse ou entusiasmo pelas chamadas Reformas de Base que agitavam o Brasil da época ou que tivessem escrito ou apoiado críticas ao chamado Evangelho Fundamentalista, nos jornais Brasil Presbiteriano ou Mocidade.

Depois da limpeza, com novos professores sem a mesma formação teológica inspirada nos grandes teólogos europeus, sem o mesmo espírito crítico que caracterizou a Reforma de Lutero e Calvino, não se pode esperar de Campinas, que surjam teólogos da têmpera de Dietrich Bonhoeffer.

Outra coisa a lamentar é ter sido a defesa da laicidade no poder público uma bandeira do protestantismo, hoje ignorada no Brasil pelos evangélicos em geral. Assim, como ignoram a defesa de nossas florestas, de nossos indígenas e dos direitos humanos dos homossexuais, numa rejeição do legado conceitual da Reforma.

***

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e RFI.

Direto da Redação é um fórum de debates publicado no Correio do Brasil pelo jornalista Rui Martins.

1 thought on “Não Milton Ribeiro, você não é Dietrich Bonhoeffer

  1. Estimado colega, Ruis Martins. Dietrich Bonhoeffer se levanta contra el nazismo en un instante critico de la vida de Alemania. Es la voz de la conciencia contra una sociedad adormecida por los discursos que prometian mucho, pero que eran solo una leccion de retorica. Y lo pago con el martirio. Milton Ribeiro no es ni quiere ser el martir aleman. Solo que en su imaginacion, a lo mejor quiere ver y vivir en la decada de los 50s, cuando todo marecia estatico y a lo mejor, en su imaginacion, la sociedad se conformaba con estilos de vida y valores que no eran los mejores, porque los pecados de los poderosos se escondian en un sistema que la sociedad y los medios de comunicacion tambien “colaboraban” en no hacer publicos.
    Perteneciendo la cristiandad, yo reconozco mis propios pecados cuando callo ante la discriminacion, el racismo o ante la destruccion del habitat natural de animales, y foresta por el avance voraz de empresas que arrassn con todo para construir condominios y malls sin mirar la destruccion de arboles que nos permiten respirar mejor. Usted colega, Martins no puede ignorar que la meta de todas las religiones -y Brasil es muy rica en eso- solo se preocupan de su propio bienestar y miran para el costado cuando los gobiernos cometen actos de corrupcion, sia ellas, a las religiones la dejan tranquilas en su labor de proselitismo. Pero usted tiene razon, cuando indica que el suegno de muchos es mirarase en en el espejo que les brindan los Estados Unidos en su afan de privatizarlo todo, incluyendo en el paquete la educacion publica. Hoy en los Estados Unidos, cualquier joven que se gradua, sale con una deuda de mas de 100 mil dolares a pagar cuando comiencen a trabajar. El problema es que comienzan esos jovenes con salarios muy precarios que alargaran sus pagos por 15 o 20 agnos! Nosotros lo sabemos de primera mano, cuando nuestros hijos se demoraron 10 agnos en pagarle al estado. Y eso fue posible, por nosotros como familia procuramos ayudarles en el pago de esos prestamos que tienen muy buena propaganda, pero que no responden a la realidad que vivimos. Volviendo a Milton Ribeiro, yo creo que cada persona debe responder por sus actos ante la ley y ante Dios. Sin embargo, creo que es posible, por que no, que senor queria “colaborar” en en su imaginacion y respondiendo a la figura y convicciones del presidente, para ser el hombre del momento en el sistema politico brasileiro. Si, puede que se haya equivocado, pero como Bonhoeffer, no sera posible que este dispuesto al martirio politico y legal por el lider al que sigue y en el que cree? Debajo del sol, todo es posible, no?

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