Ninguém levou o general Heleno a sério, uma pena!

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Publicado terça-feira, 9 de fevereiro de 2021 as 09:00, por: CdB

 

Em meados de 2018, o general Augusto Heleno, em um misto de se fazer parecer crítico e ao mesmo tempo engraçadinho, divertiu a plateia da Convenção Nacional do PSL puxando uma paródia da música dos Originais do Samba, trocando a palavra ladrão por centrão.

Por Jorge Gregory de Brasília

Em meados de 2018, o general Augusto Heleno, em um misto de se fazer parecer crítico e ao mesmo tempo engraçadinho, divertiu a plateia da Convenção Nacional do PSL puxando uma paródia da música dos Originais do Samba, trocando a palavra ladrão por centrão. O hilário de tal manifestação foi ter ocorrido naquele ambiente e na companhia daquelas pessoas.

General Augusto Heleno

O PSL, partido que abrigou Bolsonaro, foi fundado em 1996 pelo “empresário” pernambucano Luciano Bivar, pelo qual foi eleito deputado federal em 1998 e novamente em 2017, assumindo como primeiro suplente, em uma coligação com o então PMDB. Até a convenção do show de Heleno, Bivar havia sido o único a ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados pelo PSL, um dos tantos partidos que surgiram após a redemocratização cujo único objetivo é o de abrigar os segmentos mais fisiológicos da política brasileira.

O termo Centrão foi atribuído inicialmente a um bloco suprapartidário, de perfil centro-direitista, formado no primeiro ano da Constituinte, em 1985. O bloco era constituído por parlamentares de seis dos treze partidos que compunham a Assembleia: PFL (atual DEM), PMDB, PDS (sucedâneo da ARENA), PTB, PL e PDC. Serviram de sustentação ao governo Sarney e o abandonaram quando ele caiu em desgraça. Na primeira eleição presidencial direta, a maioria dos líderes centristas aderiram à candidatura de Collor, que havia alugado a legenda do PJ (Partido da Juventude) para sair candidato.

Benefícios e cargos

Nos anos que se seguiram, ainda que o nome de boa parte dos personagens tenha mudado, o bloco se manteve ativo e sempre com o mesmo modus operandi, ou seja, prestar apoio ao governo de plantão a troco de benefícios e cargos, caindo fora quando conveniente. Mas não só a barganha fisiológica marcou esse grupamento. Vários partidos, a exemplo do PJ utilizado por Collor, passaram a surgir não só para eleger deputados, mas para serem alugados a candidaturas a presidente, governadores e prefeitos que não conseguissem se viabilizar nas grandes legendas. Uma parte significativa dos deputados do PFL (atual DEM) e principalmente do PMDB (atual MDB) continuaram atuando no Centrão.

A prática sempre foi a de puro fisiologismo. O perfil dos parlamentares do bloco passou a ser predominantemente de comunicadores ou indivíduos ligados aos aparatos de segurança, com o discurso de bandido bom é bandido morto, ex-jogadores ou indivíduos ligados ao futebol e um número cada vez maior de pastores e religiosos, especialmente ligados a igrejas neopentecostais, com discurso recheado de falsos moralismos. Este segmento do Centrão passou a ser conhecido como a bancada BBB, bancada da Bala, da Bola e da Bíblia. A plateia que Heleno brindou com sua desafinação estava repleta de representantes do segmento BBB, em especial dos discípulos da bala e da bíblia, alguns já com mandato e outros tantos na expectativa de entrar para o seleto clube que mama nas tetas do Estado e do Congresso.

A grande estrela da festa

A grande estrela da festa, o então deputado Jair Bolsonaro, começou sua carreira política sendo eleito vereador em 1989. O discurso era o do segmento da bala e o partido ao qual estava filiado era o PDC, partido que compunha o Centrão e um dos partidos que apoiou Collor no segundo turno e também constituiu sua base de governo. Ainda pelo PDC, foi eleito deputado federal em 1990, migrando para o PPR, também do Centrão, quase ao final do seu primeiro mandato. Em 1995, filiou-se ao PPB e, em 2003, ao PTB, ambos do Centrão, este último comandado por Roberto Jefferson, que naquele ano passou a compor a base aliada do governo do PT. Em 2005 foi para o PFL, que sempre teve parcela significativa de sua bancada fazendo parte do Centrão. Ainda nesse ano, foi para o PP, o partido do Maluf, e, em 2016, para o PSC, ambos também do Centrão. Finalmente, em 2018, filiou-se ao PSL. Em resumo, em toda a sua carreira política, Bolsonaro não esteve um minuto sequer distante do Centrão. Foi membro integrante do grupo de forma permanente. Isso estava em seu DNA.

Sobre a filiação ao PSL, essa foi uma barganha típica da corriola do Centrão. Bolsonaro, com um bom percentual de intenções de votos, mas rejeitado pela quase totalidade dos partidos, precisava de uma legenda para se candidatar à presidência da República. Saiu à caça de uma legenda de aluguel e traria com ele uma legião de candidatos à Câmara Federal, e alguns seriam inevitavelmente eleitos. O PSL, por sua vez, em mais de 20 anos de existência não havia eleito nenhum deputado, exceto Luciano Bivar, seu presidente. E aqui temos que lembrar que 95% do Fundo Partidário é distribuído proporcionalmente ao quantitativo de votos obtidos por cada partido nas eleições para a Câmara dos Deputados e o Fundo Eleitoral é distribuído na proporção das bancadas de cada partido.

Independente de Bolsonaro ser eleito ou não, era presumível que puxaria uma razoável bancada. Consequentemente, Luciano Bivar, de um partideco que detinha um único mandado, passaria a administrar recursos financeiros que até então jamais tinha imaginado. O resultado superou qualquer expectativa que provavelmente Bivar tenha estabelecido. Não só Bolsonaro foi eleito, como puxou consigo a eleição de 52 deputados federais. Não foi por nada que os primeiros desentendimentos entre Bivar e o clã Bolsonaro, que levaria ao racha no PSL, decorreu exatamente do controle dos fundos. Não é pouco dinheiro.

Bolsonaro, ao ser eleito, muito provavelmente acreditou que poderia restaurar a ditadura militar com o apoio dos fanáticos de extrema direita e da milicada. Percebendo que tal insanidade não se sustentava e que a única possibilidade de se manter no poder seria buscar a reeleição, compreendeu (ou foi forçado a compreender), que precisava construir uma base política. Obviamente foi buscar o Centrão, sempre disposto a barganhar com o governo de plantão. Ao mesmo tempo, podemos afirmar que Bolsonaro nada mais fez que retornar ao seu leito natural, à sua turma de 30 anos de parlamento. O problema é que os membros das quadrilhas quase sempre se desentendem na partilha do saque. Vamos ver até quando esta barganha sobrevive.

Tivessem os convencionais do PSL levado o general Heleno a sério naquela Convenção de 2018, não teria sobrado um, meu irmão. Esvaziada a convenção, o traste não teria sido candidato e não estaríamos assistindo a esta tragédia. Uma pena!

 

Jorge Gregory, é jornalista e professor universitário, trabalhou no Ministério da Educação (MEC).

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil