No meio do caminho tem a correlação de forças

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Publicado sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021 as 09:00, por: CdB

 

Questiona-se uma suposta incoerência na oposição à esquerda, que defende o impeachment do presidente Jair Bolsonaro mas não pressiona para que a matéria transite de imediato na Câmara dos Deputados.

Por Luciano Siqueira – de Brasília

Questiona-se uma suposta incoerência na oposição à esquerda, que defende o impeachment do presidente Jair Bolsonaro mas não pressiona para que a matéria transite de imediato na Câmara dos Deputados.

Não será apenas pela vontade subjetiva que inverteremos a equação política do país

Na mesma linha, muito se criticou o ex-presidente Rodrigo Maia por não ter acolhido nenhum dos mais de sessenta pedidos de impeachment que vieram à sua mesa, alguns respaldados por amplos segmentos da sociedade.

A hipotética incoerência se deve ao receio de que ao final do processo o presidente poderia permanecer onde está, fortalecido.

Não há incoerência.

Há, sim, a percepção exata da correlação de forças, essa “maldita” variável que há de ser sopesada em qualquer circunstância.

Vale para toda luta, inclusive as circunscritas a determinada categoria ou segmento social.

Quantas vezes não vimos ótimas intenções esbarrarem na impossibilidade de vingarem precisamente porque as forças contrárias se mostraram superiores?

Tanto que o genial líder da Revolução Russa, Vladimir Ilyich Ulianov Lenin, chegou a cunhar a assertiva de que a essência da política está na tática e a tática decorre da correlação de forças.

Daí devamos observar a cena política em movimento.

Forças adversárias

Qual o estado atual das nossas forças, qual o estado das forças adversárias; o grau de coesão de ambas; para onde se deslocam momentaneamente maiorias sociais, a grande massa do povo, sobretudo; qual a possibilidade de subtrair do adversário principal aliados que possam migrar para o nosso lado ou, pelo menos, adotarem postura momentaneamente neutra…

Nada está parado. Aprendemos com a dialética de que o repouso é relativo, o movimento é que absoluto.

E a todos os que detém posição de liderança nas diversas hostes que compõem o nosso campo, digamos assim, cabe observar a situação ao modo do pescador experiente, capaz de perceber mínimas alterações no movimento das ondas e avaliar se a maré virá favorável, ou não.

Hoje Bolsonaro ainda não cairia através de processo de impedimento no Congresso. Ainda conta com maioria parlamentar, sabe-se à custa de quê, e no conjunto da sociedade seu desgaste é crescente, mas ainda conta com em torno de trinta por cento de apoiadores fiéis e pouco menos de 50 por cento não concordam com o impeachment.

É preciso acumular forças para inverter tendências.

Ou seja, seguir a luta erguendo bandeiras as mais urgentes e sentidas pelas maiorias sociais, como a vacinação contra a covid-19 e o auxílio emergencial satisfatório, duradouro e massivo.

Por aí é possível continuarem convergindo amplos e diferenciados segmentos da sociedade e correntes políticas, que objetivamente carreiam água para o leito de um mesmo rio.

Enfim, não será apenas pela vontade subjetiva que inverteremos a equação política do país.

Agir com os pés no chão e sob descortino atilado é o desafio. Para gradativamente alterar a correlação de forças a ponto de se alcançar, se ainda houver tempo antes do pleito de 2022, uma maioria parlamentar suficientemente pressionada a interromper o desastroso governo Bolsonaro.

Ou se ocorrer um fato novo que altere bruscamente a situação.

 

Luciano Siqueira, é Médico, vice-prefeito do Recife, membro do Comitê Central do PCdoB

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil