A nova política contra a realidade

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Publicado terça-feira, 1 de setembro de 2020 as 10:02, por: CdB

Mais uma vez venho incomodá-los com um assunto velho, mas que insiste em reverberar entre nós: a “nova política”, pregada por uns e outros país afora, não existe. Parece simples e eu poderia parar por aqui, mas alguns comentários são pertinentes para compreender a insistência tão grande no assunto.

Por Hesaú Rômulo – de Brasília

Mais uma vez venho incomodá-los com um assunto velho, mas que insiste em reverberar entre nós: a “nova política”, pregada por uns e outros país afora, não existe. Parece simples e eu poderia parar por aqui, mas alguns comentários são pertinentes para compreender a insistência tão grande no assunto.

Mais uma vez venho incomodá-los com um assunto velho, mas que insiste em reverberar entre nós
Mais uma vez venho incomodá-los com um assunto velho, mas que insiste em reverberar entre nós

Ainda vivemos sob o signo da antipolítica, em que a dita renovação do executivo e do legislativo foi conduzida, nas eleições de 2016 e de 2018, por neófitos, gestores, empreendedores da política, youtubers, aventureiros, militares, e lideranças religiosas das mais diversas e desconhecidas denominações. Esta composição ganhou destaque levantando a bandeira do combate à corrupção, negando as instituições políticas e, de forma mais grave ainda, negando o exercício da política como mecanismo de resolução de conflitos.

Foram então eleitos com um apelo antipetista gigantesco e iniciaram o mandato, no afã de cumprir parte das promessas de campanha. E como fazer isso? Sem a expertise necessária, os novos representantes se viram diante de narrativas ferozes, celulares ligados, lives e memes e pouca produção legislativa. Nos bastidores, quase ou nenhum poder de articulação.

Os escândalos

Desprovida de qualquer sentido ou direcionamento político a nova política é um verniz de baixa adesão, porque só cumpre um papel de denúncia. A todo tempo, a todo momento injustiças e incoerências estão sendo denunciadas. E o que sobra no lugar? Bem, resta uma práxis atabalhoada, que vive de polêmicas e mira no bolsonarismo como tábua de salvação.

Os escândalos recentes de corrupção envolvendo o núcleo familiar mais íntimo do presidente da República mostram, uma vez mais, que estamos longe de um patamar aceitável de fazer mudanças na condução do poder. Se concordamos que funcionário-fantasma e rachadinhas de salários são modalidades consagradas de desvio de dinheiro, nem mesmo neste aspecto a “nova política” traz algo de inovador.

Na vida real, longe do mundo da fantasia onde reinam os tuítes intermináveis e indecifráveis de Carlos Bolsonaro, a política segue sendo apenas uma, cruel com os ingênuos, impiedosa com os de pouca visão, avassaladora com aqueles que não fazem os cálculos a médio e longo prazo. A conjuntura em eleições municipais tem mostrado que tanto o arcabouço como o conteúdo das articulações partidárias têm girado em torno das mesmas agendas de antes, óbvio que com o componente da pandemia do coronavírus atravessando o cenário. De qualquer forma, pautas estruturantes comuns às cidades de médio e grande porte permanecem: saneamento básico, mobilidade urbana, educação, segurança pública.

As lideranças políticas

Pesa então sobre as lideranças políticas a habilidade de construir plataformas comuns entre os diferentes atores que compõem à cidade e, das vezes em que estas habilidades se ausentam, o preço a ser pago é altíssimo. Se tomarmos como exemplo o que aconteceu na última semana com a pré-candidatura do deputado estadual Wellington do Curso, fica mais fácil ainda de compreender como o fôlego de um projeto político pode acabar antes mesmo da campanha propriamente dita.

Ora, é injusto que uma liderança razoavelmente colocada em intenções de voto fique de fora da disputa? A seara da negociação política não contempla justiças ou rancores, ainda mais se tratando de alianças momentâneas, ou de ocasião. No caso específico da corrida pela prefeitura de São Luís, Roberto Rocha, senador pelo PSDB (mesmo partido de Wellington) atravessou os planos do deputado em busca de uma aliança consistente com o candidato que hoje lidera as pesquisas.

Por outro lado, Eduardo Braide (PODE) vai precisar ajustar o tom de campanha, para acomodar um aliado que reverbera cotidianamente as narrativas bolsonaristas em oposição ao governador Flávio Dino. Adepto da moderação e da fuga de rótulos ideológicos, Braide tem agora pela frente a manutenção de uma vantagem, mas com um discurso diferente: não é mais o candidato desconhecido, não é mais o candidato independente e vai ser o alvo das principais candidaturas que desejam disputar com ele o segundo turno da eleição.

Não é tão difícil de concluir que os elementos de articulação e desarticulação de amigos e inimigos permanece na sua vibração de costume, seja aqui na Ilha ou mesmo no Palácio da Guanabara, onde Wilson Witzel foi colocado de escanteio por um antigo aliado em 2018. O castigo é muito grande para aqueles que subestimam a política, ou para aqueles que tentam fazer dela seu playground privado.

 

Hesaú Rômulo, é professor de Ciência Política da Universidade Federal do Tocantins (UFT). Doutorando em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB). Pesquisa representação política na América Latina. Colunista do Portal Vermelho hesauromulo@gmail.com

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