O festival da água

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Publicado quinta-feira, 22 de março de 2018 as 09:30, por: CdB

O 8º Fórum Mundial da Água (FAMA), realizado em Brasília (DF) de 18 a 23 de março, mostrou-se um evento muito rico, suntuoso até, mas sem novidades de alguma relevância. Representantes de 160 países, incluindo dez chefes de governos e de estado, estiveram presentes, com uma temática que foi desde as leis que regem os recursos hídricos até o espiritualismo na água

Por Jaime Sautchuk – de São Paulo:

O encontro é organizado pelo Conselho Mundial da Água, uma entidade não-governamental, com sede em Marselha, na França, que congrega representantes de governos, ONGs e empresas privadas. É realizado desde 1996, a cada três anos, em países diferentes, sendo esta a primeira vez no Hemisfério Sul.

O festival da água

Em Brasília, exceto uma ala de visitação pública gratuita, nos 10.000 m² com atividades diversas corre muito dinheiro; com acesso restrito e caro, e debates bastante direcionados. Os ingressos, com preços variados, chegam a custar 900 Euros; ou pouco mais de R$ 3,6 mil.

UnB

Os hotéis da cidade lotaram, alguns tendo que se submeter ao rodízio de racionamento de água; há mais de um ano em vigor na capital. Já muitos conhecedores do assunto, como índios; outros povos da floresta e pescadores, ficaram de fora e promoveram um fórum alternativo, em parceria com a Universidade de Brasília (UnB).

Esses encontros paralelos foram novas oportunidades de denunciar as iniciativas do governo federal brasileiro; com forte apoio no Congresso Nacional, de privatização da água. E de reforçar a determinação constitucional de que este é um bem público; destinado ao usufruto de todose não um produto sujeito a regras de um tal mercado.

O 8º FAMA

Em verdade, o 8º FAMA foi um grande festival em que foram repetidas as sinistras previsões; sobre o futuro da água na Terra e as mesmas receitas de como encarar um problema muito presentes em muitas partes do mundo e do Brasil; mas sem exemplos de ações concretas; abrangente, que já tenham sido adotadas. Ou seja, o mesmo lero-lero de sempre.

A organização

Aliás, a organização do evento apresentou como grande inovação o manejo de uma fazenda de grãos no interior de Goiás, com irrigação e preparo do solo. A propriedade foi apresentada em vídeo e folhetos vistosos, bem elaborados; mas que fazem rir os agricultores tradicionais; e funcionários do próprio governo conhecedores de técnicas agrícolas.

Na prática, porém, o que é feito na tal propriedade; e apontado como “novo”, é a milenar curva de nível, usada desde os primórdios da agricultura; quase na Idade da Pedra. São sulcos na terra que promovem a infiltração da água no solo e impedem o escorrimento do terreno; o que; com as práticas usadas hoje em dia, assoreia veredas, córregos e rios.

Brasil

Seriam muitos os exemplos positivos no Brasil; mas frutos de esforços localizados, isolados; com efeitos restritos. Especialmente na região do Cerrado, bioma já seriamente comprometido pela agricultura predatória dos ruralistas; que retiram por completo a cobertura vegetal nativa; que garante o reabastecimento dos aquíferos subterrâneos; e comprometem os cursos d’água e a qualidade dos solos, pelo excesso de venenos lançados.

No evento, foi apresentado também o Relatório Mundial das Nações Unidas (ONU); sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos 2018. O documento repete uma vez mais; que “a saída não está só na construção de represas; estações de tratamento de água e esgoto e canais de irrigação de lavouras; mas também na preocupação de restauro e manutenção da natureza”.

Debates

Enfim, o principal momento mundial de debates a respeito da água serve como novo alerta. A nós, brasileiros, fica evidente que a má gestão e a conivência do poder público; com a ganância de alguns que buscam o lucro fácil nas atividades econômicas; nas cidades e no campo, ainda são problemas que temos de enfrentar.

Jaime Sautchuk, é jornalista.

0 thoughts on “O festival da água

  1. “Sempre houve o suficiente no mundo para todas as necessidades humanas; nunca haverá o suficiente para a cobiça humana.”
    (Gandhi)
    …///…
    Para quem é do interior e da zona rural, como no meu caso, dá uma dor no coração e angústia n’alma quando vemos as ‘Veredas, Córregos e Rios de nossa alegre e inocente infância’ assassinados pela ‘GANÂNCIA DESENFREADA DO BICHO HOMEM’, com a conivência do Poder Público e meios políticos que deveriam zelar pelos mesmos, infelizmente!…
    Fosse o Brasil um País sério esses ‘ASSASSINOS’ estariam presos e com suas ‘FORTUNAS’ confiscadas para serem aplicadas na ‘recuperação’ do que destruíram!… ACORDA BRASIL !!!…

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