O fim da guerra e a guerra sem fim

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Publicado terça-feira, 8 de abril de 2003 as 22:00, por: CdB

Desde o último fim de semana um ar de fim de guerra tomou conta do noticiário nacional e internacional sobre a invasão do Iraque. Quando digo “internacional” me refiro ao que tem origem nas agências norte-americanas e européias. Sabemos que a situação na agência Al-Jazira e na agência iraniana que cobrem a guerra é outra.
Na madrugada do dia 8 (hora de Brasília) esse ar de conclusão se intensificou com a notícia de que um avião norte-americano havia jogado quatro bombas sobre uma mansão em que se encontrariam Saddam Hussein e seus filhos, levantando-se a hipótese de que eles teriam morrido.

A notícia repetiu a que deu início à invasão: um bombardeio (naquela ocasião com mísseis) que põe em dúvida a sobrevivência ou a integridade de Saddam, pondo em dúvida portanto a credibilidade do regime de Bagdá.

Desde seu começo os Estados Unidos e a Grã-Bretanha tentaram ganhar a guerra pela imprensa. Na primeira e na segunda tentativa isso não deu certo, ainda que os invasores ganhassem de antemão a imprensa para a guerra. A primeira tentativa de lançar dúvida sobre se Saddam estava vivo não colou; a tentativa subseqüente de criar um clima de “recepção amistosa” e de “guerra rápida” também não colou.

Estamos agora na terceira tentativa de definir o fim da guerra pela imprensa: confirmada ou não, a “morte” de Saddam “põe fim” ao conflito. Os norte-americanos teriam conseguido aquilo que não conseguiram com Osama Bin Laden: um cadáver para expor ao mundo. Se for o cadáver certo, é outra história.

A imprensa fez o seu papel indigno, ainda que de modo arranhado. Toda e qualquer informação que vinha do lado iraquiano era descrita como “suposta”. Os iraquianos raramente tinham uma ação descrita de modo cabalmente afirmativo: sempre “tentavam” alguma coisa. As expressões mais nobres como “segundo fontes”, por exemplo, eram sempre reservadas para os norte-americanos e britânicos.

“Segundo o comando norte-americano dez tanques iraquianos foram destruídos”; “os iraquianos supostamente destruíram dois helicópteros”; “o comando britânico informou ter avançado em direção ao centro de Basra”; “os iraquianos tentaram oferecer uma resistência bombardeando as posições britânicas”; afirmações deste tipo conotavam sempre a confiabilidade das informações dos invasores e as dúvidas sobre as informações dos defensores.

Além destas, houve sempre outras fórmulas: imagens de Saddam eram sempre acompanhadas por dúvidas sobre se era ele mesmo, ou sobre quando as imagens teriam sido feitas. Como num cantochão medieval, grande parte da imprensa se rendeu e ficou entoando a mesma ladainha. Desconsiderou-se, por exemplo, que mesmo com essa repetição enfadonha ficou claro que os comandos invasores mentiam descaradamente, ao lançar suspeitas sobre não terem sido eles os responsáveis pelos bombardeiros de posições civis. As inevitáveis e pungentes imagens de crianças feridas e de mortos, as dúvidas sobre o destino ou a condição de luta dos pára-quedistas norte-americanos lançados no norte do Iraque, tudo isso foi minando a credibilidade das informações transmitidas. Mas isso não parece afetar nem os generais, nem os comandantes ou soldados da imprensa.

A imprensa brasileira também foi afetada por esse clima. Apesar da posição do governo brasileiro ser contra a guerra, e de haver uma maciça opinião pública contrária, alguns jornais chegaram a brandir o termo “aliados” para descrever os invasores, quando nem estes ousaram empregá-lo, para não constranger italianos e japoneses. Na TV, no começo, houve uma série de entrevistas com analistas contrários à guerra; mas pouco a pouco, por exemplo, foi penetrando o termo “o inimigo”, para referir-se às forças iraquianas.

Houve casos curiosos, como os de algumas entrevistas com membros da Escola Superior de Guerra. Quase todos eles, ao se referirem ao avanço das tropas invasoras, utilizavam um discurso que em retórica se chama de “indireto livre”, aquele que nos põe na pele e no ponto de vista do pe