O governo Bolsonaro está acabado

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Publicado terça-feira, 4 de junho de 2019 as 16:16, por: CdB

Para quem pode decifrar uma metáfora, a mensagem vista, na quinta-feira, nas ruas de São Paulo foi clara como o sol do meio-dia: o governo de cinco meses de Jair Bolsonaro está acabado.

Por Ulisses Capozzolli, de São Paulo:

A educação e a ciência derrotarão a ignorância

Pode não cair de imediato, certamente não será assim. Haverá um jogo de cena, típico da encenação nacional, um dramalhão de mau gosto. Irá cambalear pelo ringue como um boxeador nocauteado. E cairá.

Duas razões práticas para esse vaticínio óbvio: o desemprego crescente, atormentando a vida de milhões de pessoas, e a incapacidade do governo, como um todo, sem uma única exceção, de encontrar uma solução para o impasse.

Há uma terceira razão, criada pelas condições anteriores: o povo nas ruas, num protesto sonoro, gigante e emocionante contra um governo absolutamente incapaz. A passeata desta quinta-feira, penúltimo dia de maio, saiu do Largo da Batata, em Pinheiros, e seguiu para a Avenida Paulista. O significado disso? O largo da Batata é a conexão da cidade com toda a periferia, os bairros e vilas mais pobres da região Oeste, ainda que se conecte também com moradores de loteamentos que se fecharam em muros, os condomínios, acreditando que com isso poderiam escapar da violência.

E ao lado do campus da USP, a principal universidade brasileira. A Avenida Paulista o alicerce do capitalismo nacional. Golpista, entreguista, despudorado quanto ao significado elementar de cidadania e dignidade humana. Ali estão sedes de bancos e da reacionária Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp.

A manifestação de quinta-feira foi um movimento de baixo para cima. Para se contrapor ao que tem sido uma pressão insuportável de cima para baixo. No Largo da Batata, cenas comoventes. Entre elas a do ônibus 8-2441, da Sudoeste, chegando pela Cardeal Arco Verde, a ligação do espigão da Paulista à baixada de Pinheiros, como se fosse uma montanha russa. Sem nenhum cuidado com as pessoas que viajam em seu interior.

Gente pobre, indo para um bairro pobre, vizinhos do motorista que conduz o ônibus como um parque de diversões. Ódio de classe semeado entre iguais.

Como a Polícia Militar, em boa parte formada por negros, para espancar e matar quase sempre negros. A Policia Militar, criada no Império para espancar preventivamente pretos. Desestimular uma rebelião como a que aconteceu no Haiti, em 1791, quando escravos rebelados mataram 4 mil brancos e destruíram 180 engenhos de açúcar.

O Largo da Batata com a fumaça pesada de churrasquinhos, “carne de gato”. Puteiros mal disfarçados, bares com música romântica em alto volume. Mesas com cerveja barata. Foi o começo da concentração, sobrevoada por um helicóptero da Policia Militar. Enervante, provocante. Quando a noite chegou do Leste, de onde a noite sempre chega, com um holofote dirigido para a multidão em clara provocação. Ato que pode parecer inocente. Não é inocência.

É parte do jogo e deve ser decifrado, como as outras metáforas. Então, quando havia milhares de pessoas. Uma multidão impressionante, a manifestação deixou o Largo da Batata e começou a se deslocar em direção à Avenida Paulista. Escalando a Rebouças, em homenagem a um grande desconhecido, o negro André Rebouças (1838-1898), engenheiro, inventor, abolicionista e monarquista, o que pode surpreender.

Mas os negros eram gratos à princesa pela Abolição. Simpáticos à monarquia, repeliram a República que, por aqui, não foi mais que um golpe militar. Daí os acontecimentos em Canudos, que para serem claramente compreendidos, exigem a leitura do grande clássico brasileiro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha.

E essa pode ser considerada mais uma das metáforas da penúltima noite de maio. André Rebouças, quem deu nome à avenida por onde subiu a multidão em protesto contra um governo incapaz, exilou-se com a família real e dedicou seus últimos dias ao desenvolvimento de países africanos. Um surpreendente desconhecido.

Na Avenida Paulista, a manifestação entrou como a cabeça de macaréu, o impacto do rio caudaloso com a maré crescente. A cabeça do rio temporário que inunda o sertão por chuvas escassas que eventualmente satura suas nascentes. Uma faixa azul, de 20 metros de largura por 100 metros de comprimento. Puxada de forma coordenada pela multidão: “O Brasil se UNE pela educação”, dizia ela em enormes caracteres brancos.

E outras. Uma delas, “O conhecimento destrói o mito”, título original deste escrito. Os tambores. Os tambores que insuflaram de batalhas primitivas a rituais de consagração. Os tambores presentes mais uma vez. Do Largo da Batata à subida da Rebouças que homenageia o negro André, agora na Paulista. Poderosos tambores ressoando na Paulista cercada de edifícios como se fosse uma catedral.

A força dos jovens pela educação

As palavras escritas: E as palavras de ordem, mais contundentes que na última manifestação: “Ô Bolsonaro, quebra o meu galho, saia do Brasil e vá prá casa do caralho”. A expressão chula gritada com toda força dos pulmões por uma infinidade de humanos: jovens estudantes, gente de meia idade, gente mais velha.

Como da vez anterior, de todas as cores, formas, tamanhos e feitios. Gente que subiu, caminhando, desde o Largo de Batata, empurrando carrinhos de água, os churrasquinhos de gato, estoques de cerveja. Seja o que for. O churrasquinho de gato que aceita cartão, de crédito ou débito, indiferentemente. O carrinho de uma mulher de cabelos brancos, arcada pelo tempo, escalando a Avenida, desde o Largo da Batata. Esses são os algozes do governo Bolsonaro, um desordeiro que espalhou o ódio e não fez mais isso em cinco meses no poder.

Na manifestação passada, contra o governo incapaz, o céu estava estrelado. Hoje, fechado por uma cortina fina de nuvens. Mas cada uma das estrelas que formam o céu do Brasil nesta época do ano estava lá, quando a manifestação chegou à Paulista: Antares, a supergigante vermelha, o Coração do Escorpião, Spica, a mais brilhante de Virgem, sobrevoando a cidade como uma pipa. Regulus, a supergigante branca que forma o coração do Leão. Não estavam visíveis a olho nu. Mas estavam no céu.

E essa foi outra das alegorias desta penúltima noite de maio. Foto: tomada de empréstimo de Antonio José de Lopes Bigode.

Ulisses Capozzoli, mineiro de Cambuí, é jornalista científico, com doutorado pela USP e carreira no Jornal da Tarde e Estadão.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

O Direto da Redação completou dia primeiro de junho cinco anos de existência dentro do Correio do Brasil. Criado em 2001, pelos jornalistas Eliakim Araújo e Leila Cordeiro, em Miami, era distribuído inicialmente para 300 assinantes, hoje é lido por cerca de cem mil pessoas.

 

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