O mistério das mesas que flutuam

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Publicado domingo, 11 de novembro de 2018 as 20:00, por: Rui Martins
Atualizado em 13/11/18 10:33

Existem coisas inexplicáveis. Isto é, pra quem só acredita no racional. Até Freud, quando Jung lhe mostrou uma mesa em sua sala, que subia e se grudava no teto, e depois descia, ao seu dispor, concordou em dizer que assistira, realmente, ao fenômeno. Mas disse também, que jamais o admitiria, já que não teria como explicar o que fazia o móvel se mover sozinho.

Por Maria Lúcia Dahl, do Rio de Janeiro:

Tem espírito andando por aí

Existem coisas inexplicáveis. Isto é, pra quem só acredita no racional. Até Freud, quando Jung lhe mostrou uma mesa em sua sala, que subia e se grudava no teto, e depois descia, ao seu dispor, concordou em dizer que assistira, realmente, ao fenômeno. Mas disse também, que jamais o admitiria, já que não teria como explicar o que fazia o móvel se mover sozinho.

Um psicanalista amigo meu, que foi a uma sessão espírita e sentiu mãos lhe tocando, sopros e cheiros diferentes, concluiu, como Freud, que negaria aquela experiencia inexplicável.

Comigo já aconteceram coisas estranhas. Mas como não sou Freud, nem preciso provar nada, admito tê-las visto.

Uma noite estava no meu quarto e as janelas começaram tremer, fazendo um barulho inesquecível. Quando fui até a sala, as portas e janelas de lá também estavam tremendo , como as outras. Imediatamente , minha filha , então com cinco anos , desandou a chorar , a empregada pôs-se a se benzer e o cachorro , a rosnar.

Aproximei-me do escritório , tentando sair por ali. Mas as portas e janelas desse novo espaço também haviam entrado na dança. Em segundos , as janelas e portas da casa inteira passaram a tremer cada vez mais forte. Nenhuma de nós tinha coragem de atravessar a porta para sair no jardim e abrir o portão. Então liguei para um primo que morava perto, contei o que acontecera e pedi que viesse me ajudar. Ele riu do outro lado da linha, debochado, e avisou que estava chegando.

Quando entrou no jardim e viu portas e janelas sacudindo, ficou incrédulo. Aí resolvemos nos dar as mãos , junto com minha filha e a empregada , e passamos correndo pela porta da sala , que parecia tomada por um terremoto. Meu primo também me advertiu que , apesar de ter presenciado o fenômeno , o negaria tranquilamente .

Já ouvi barulhos de prato caindo na minha cozinha , uma vez que cheguei tarde do espetáculo que fazia no teatro , a ponto de dizer a uma amiga , ao telefone, que ligaria depois que enxotasse os cachorros que , na certa teriam entrado no armário de louças. Cheguei na cozinha e encontrei tudo absolutamente impecável em seus lugares.

Outra vez , quando era jovem , resolvi , junto com alguns colegas de colégio , fazer aquela experiência do copo em cima da mesa. Quando ele começou a correr na superfície de vidro , encaminhando-se para as letras do nome do meu avô , comecei a suar de nervoso. No primeiro gesto que fiz o anel do brasão ( que fora dele) voou do meu dedo.

Paramos imediatamente com a história do copo e fomos todos procurar o anel , pela casa . Porém , ele nunca mais apareceu. E mesmo sem ousar mais brincar com copos , lido com objetos que aparecem e desaparecem a seu bel prazer. Claro que sou distraída , que esqueço onde pus as coisas, que passo horas procurando uma agenda antes de sair de casa , as chaves, o celular , os óculos.

Mas existem objetos que desaparecem de forma intrigante. Os brincos de ouro que comprei na Júnia, por exemplo, e que tem umas tarraxas redondas como minúsculos pontos luminosos.

Tiro -as sempre com o maior cuidado, pois sei que se caírem no vão das tábuas do chão , nunca mais as encontrarei. Seria assim se eu estivesse voltada para o pensamento lógico. Mas, na verdade , não é . De repente, por um mínimo e imprevisto descuido, a bolinha de ouro escorrega do meu dedo e desaparece completamente , como pelas mãos brincalhonas de um Saci.

Pego a minha lupa , acendo todas as luzes e entro e saio dos lugares mais estranhos, tentando encontrá-la , lembrando o verso que minha Babá dizia :”No surrão entrei , no surrão morrerei por causa de um brinco de ouro que na pedra deixei”. Mas , muito mais de uma vez , as tarraxas desapareceram por completo , uma ou outra , para reaparecerem dias depois em cima da cômoda ou no banco do jardim , zombando de mim e fazendo fiau , tentando delicadamente me dizer que há muita coisa que Freud não explica , e que a vida é bem mais complexa e surpreendente do que o que afirma nossa vã filosofia.

Maria Lúcia Dahl, atriz, escritora e roteirista. Participou de mais de 50 filmes entre os quais – Macunaima, Menino de Engenho, Gente Fina é outra Coisa – 29 peças teatrais destacando-se- Se Correr o Bicho pega se ficar o bicho come – Trair e coçar é só começar- O Avarento. Na televisão trabalhou na Rede Globo em cerca de 29 novelas entre as quais – Dancing Days – Anos Dourados – Gabriela e recentemente em – Aquele Beijo. Como cronista escreveu durante 26 anos no Jornal do Brasil e algum tempo no Estado de São Paulo. Escreveu 5 livros sendo 2 de crônicas – O Quebra Cabeça e a Bailarina Agradece-, um romance, Alem da arrebentação, a biografia de Antonio Bivar e a sua autobiografia,- Quem não ouve o seu papai um dia balança e cai. Como redatora escreveu para o Chico Anisio Show.Como roteirista fez recentemente o filme – Vendo ou Alugo – vencedor de mais de 20 premios em festivais no Brasil.

Direto da Redação, um fórum editado pelo jornalista Rui Martins.

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