O moço da TV

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Publicado terça-feira, 31 de julho de 2018 as 19:12, por: CdB

Apóllo Natali era um veterano jornalista, colaborador deste Direto da Redação, pioneiro da Agência Estado, homem de grande sensibilidade. Ele acaba de falecer em São Paulo. Ontem à noite, não sei como, Apóllo já estava internado no hospital em São Paulo, ele me transmitiu um sinal no computador e ao abrir meus emails do dia, o primeiro a tomar minha tela era um velho email que ele me enviara em novembro de 2015, com uma história dura e comovente, a de um jovem militante contra a ditadura militar, torturado e acusado injustamente de ter falado sob a tortura. O texto que se segue é a história escrita nesse email que, em 2015 eu não publicara e que Apóllo gostaria de ver publicada. O jovem de 18 anos, é jornalista, escritor e colunista deste Direto da Redação, autor do livro Náufrago da Utopia. História comovente de uma grande amizade.

Por Apóllo Natali, de São Paulo:

Um relato duro do tempo dos anos de chumbo, mas, ao mesmo tempo, o testemunho de uma grande amizade

Julho, 9 – 1970

A televisão mostra o moço, e ele aconselha a ninguém ser como ele.

Havia sido chefe da inteligência da Vanguarda Popular Revolucionária, um punhado de jovens em luta contra a ditadura no Brasil da segunda metade do século passado. Eram liderados pelo capitão desertor do Exército, Carlos Lamarca. Foi a VPR dos assaltos a bancos, seqüestros políticos e o roubo do cofre com dois milhões de dólares do então governador de São Paulo, Adhemar de Barros.

35 anos depois, 2005.

O tempo passou, passaram a ditadura, os torturadores, a Anistia, as Diretas Já, o governo do presidente da hiper-inflação, José Sarney, inventor do fiscal do povo para defender seu congelamento de preços, o governo impedido de Fernando Collor de Mello, e a esperança Lula presidente.

Os tímpanos estourados dos tempos de tortura, uma perna ainda inchada, a fala ainda prejudicada, o moço, Celso Lungaretti, dá a sua versão sobre sua ida à TV:

-Sob tortura e ameaças de morte, levaram-me para a televisão, onde o jornalista Murilo Néri me apresentou ao Brasil como “terrorista arrependido”.

-Depois de me estourarem os tímpanos, fui levado de madrugada da prisão direto para os estúdios da TV Globo, no Rio de Janeiro. O programa foi gravado na emissora nessa mesma madrugada, dia 7 de julho de 1970 e, no dia 9, levado ao ar em rede de televisão. Nos jornais saiu no dia 10.

Lungaretti fala a alguns amigos em seu apartamento de aluguel atrasado na rua Augusta:

-Não tem essa de terrorista. O nome é combatente da liberdade.

-Não há como julgar o sofrimento e o preço pago por quem resolveu enfrentar a ditadura.

2004.

Cemitério da 4a. Parada, São Paulo. Velório do sr. Reinaldo Lungaretti, 88 anos. Chove.

Celso Lungaretti olha o corpo do pai. Não era vida para ele, depois de quatro infartos. Os braços, agora inertes, haviam abraçado o filho, preso no quartel da Vila Militar, no Rio de Janeiro. Precisava de um advogado para enfrentar vários processos em instâncias militares. Lungaretti sussurra no ouvido do pai (prisioneiro não fala): “arranje um advogado”. O advogado indicado é famoso, todos os advogados são famosos, mas, defesa, impossível. Nova visita à Vila Militar, novo abraço, novo sussurro, “arranje um de graça, os advogados são mesmo todos iguais”.

2003.

Festinha de aniversário do Sr.Reinaldo Lungaretti, na Rua Augusta. O ex-tecelão da Mooca, encurvado para a frente na poltrona, é uma bengala, um olhar parado e uma fala estertorosa. Dona Mafalda Lungaretti tem as mãos pousadas no colo.

-Teu filho é inteligente, Dona Mafalda.

Pouco a se dizer para a mãe de um combatente da liberdade.

1980.

Sub-editor da Agência Estado, escolho um candidato para a redação, entre meia dúzia deles, moços e moças. O texto de Lungaretti é o vencedor. O moço da televisão está em busca de emprego, negado pela esquerda, pela direita, pelo centro, pelos ex-companheiros de discursos, correrias e fugas. Rejeitado. Acusação, ter entregue à repressão uma área no Vale do Ribeira, campo de treinamento de Lamarca. Sob tortura, cedeu a Área 1, desativada. O Exército nada encontrou lá.

Com a prisão de outros militantes de esquerda, o Exército chegou à Área 2, ativa, de onde Lamarca fugiu do cerco de mais de mil soldados, seqüestrando viatura militar e fardas, prestando continência para os inimigos plantados em barreiras na BR101, seguindo em frente, livre. Lamarca passou vestido de soldado. Um dos cinco fugitivos, ao volante, com farda de oficial.

-O Lungaretti é o melhor, garanti ao editor, Sircarlos Parra Cruz.

-Mesmo?

-Feche os olhos e contrate.

Celso trabalhou 10 anos na Agência Estado, até o momento da demissão em massa, em 1990. Chique, na época, falar downsizing, em vez de demissão em massa. Eu não fui demitido. Pedi demissão para cuidar de meu pai. Idoso, perdera a mobilidade e a visão. Fui seus braços, seus pés, suas vistas, durante sete anos, em tempo integral. Isso não me fez perder o contato com o Celso. Perdi foi a conta dos muitos cafezinhos servidos em seu antigo apartamento recheado de livros e filmes, na rua Frederico Abranches.

Além dos trabalhos da redação, Lungaretti escrevia para um dos serviços por mim editado, o Serviço Especial-AE, um pacote de comentários sobre vários temas, distribuídos aos assinantes da Agência Estado toda semana. O assunto preferido dele era economia.

2005.

-Celso, você vivia dando aval às idéias de Roberto Campos, o do livre mercado. Como é isso? Ele era o teu guru. Comunista, você?

-Nunca fui comunista. Gostava do Roberto Campos criticando o Estado.

-E essa loucura toda de militância, correrias, fugas, prisões, torturas, mortes de companheiros, desgosto para os seus pais, desde a adolescência, no Colégio MMDC, na Mooca?

-Sou anarquista. Só vejo as pessoas viverem bem sem o Estado, ajudando-se uma às outras, em comunidades.

Jogando conversa fora em botecos, saideiras, teatros, cinemas, Celso e eu tagarelamos:

-Justiça seja feita, só uns poucos íntimos da conspiração contra o governo de Jango Goulart souberam dos acontecimentos no País. Em entrevista recente na TV Cultura de São Paulo, uma ex-militante dizia ignorar o motivo de ter sido torturada. Ora, era uma guerra. Na América Latina foi um braço do conflito capitalismo versus comunismo, sustentado pelos Estados Unidos. No Brasil essa guerra já estava em fase de eliminação física dos portadores da ideologia comunista.

-Está no contexto das guerras – aquela ex-militante não sabia?- a atuação de alguns seres humanos chamados torturadores. Possuem o talento inato para afogar, degolar, dar choques, empalar, seviciar, quebrar ossos, pendurar pessoas de ponta cabeça ou em posição de animal morto carregado por caçadores em uma vara horizontal, serrar braços, pernas, arrancar unhas, dentes, olhos.

2005

A batalha da anistia:

-A luta por mim travada ao longo de 2004 para ter meus direitos reconhecidos pelo Ministério da Justiça e ser beneficiado com uma indenização financeira pela Anistia, foi coroada com a descoberta de um relatório do II Exército confirmando minhas afirmações de sempre. Muitos duvidavam:

-Não fui eu o delator da área de treinamento guerrilheiro da VPR em Registro, São Paulo, onde o ex-capitão Carlos Lamarca foi cercado pela repressão.

-Antes, no julgamento realizado pela 1a. Câmara em 26/10/2004, eu já conseguira da própria Comissão de Anistia o reconhecimento de ter sido um dos ex-presos políticos mais atingidos pelo arbítrio da ditadura, tendo sido coagido, sob extrema tortura, a protagonizar uma farsa de “arrependimento” articulada pela Inteligência do Exército.

-Vale dizer, este episódio se deu na PE da Vila Militar, no Rio de Janeiro, cuja equipe de torturadores era motivada principalmente pela chance de apossar-se dos despojos dos prisioneiros e, quatro anos mais tarde, presa por tentar roubar cargas dos contrabandistas. Fui vítima de bandidos fardados.

-Tenho interesse pelo esclarecimento desses episódios para, 34 anos depois, obter destaque comparável à exposição negativa por mim sofrida quando estava preso e indefeso.

O medo da tortura e da morte falou mais alto quando Lungaretti foi levado à Oban, a Operação Bandeirantes, em São Paulo, pela Polícia Especial do Exército, do Rio de Janeiro. Na Oban havia a Cadeira do Dragão.

O apelido foi dado pela própria repressão. Era um instrumento de tortura, onde, entre outros, foi supliciado o jornalista Wladimir Herzog, em 1975. Era uma cadeira de barbeiro.

A OBAN antecedeu ao Dói-Codi, em São Paulo, e empregava tortura desde o início de suas operações. O alvo eram os suspeitos de serem comunistas. E eram suspeitos, jornalistas, sindicalistas, operários, artistas, intelectuais e todo crítico das instituições militares. O Dói era a Divisão de Ordem Interna e, o Codi, o Comando de Defesa das Instituições, do II Exército.

Os torturados sobreviventes saiam inutilizados depois dos choques. Como aconteceu com o bancário Francisco Nilson Modesto, funcionário do Banespa da Penha. Provada sua inocência, isto é, não pertencia ao grupo Ação Libertadora Nacional, liderado pelo líder comunista Carlos Marighella, foi posto em liberdade. Morreu em 1982, aos 37 anos, devido às seqüelas da tortura.

Um ou outro sobrevivente falou sobre a Cadeira do Dragão. Era equipada com eletrodos e placas metálicas. O preso tinha os pés e mãos amarrados com gaze.

Fios elétricos eram ligados ao corpo.

Eram dados choques violentos na língua, ouvidos, têmporas, dedos, anus, órgãos genitais. A descarga mais forte era batizada de chicote. Provocava contorsões nos presos. Urravam, se urinavam, defecavam.

Entre uma sessão de choque e outra, pausa para o lanche dos torturadores. Comiam sanduíche e tomavam refrigerante olhando para o torturado pelos furos da touca preta escondendo o rosto.

Início do século 20.

Escritor Lima Barreto:

-Não há, entre nós, campo para as grandes batalhas de espírito e inteligência.

1970.

Os defensores dos direitos humanos constatam: lágrimas de mil anjos não travam o movimento de pinça dos torturadores.

A sucessão dos acontecimentos, leia-se troca de prisioneiros por seqüestrado, livraram Lungaretti da Cadeira do Dragão. Carlos Lamarca não o incluiu na lista dos libertados e a repressão o manteve vivo para arrancar confissões.

Torturador:

-Está com sorte, Lungaretti. Você estava marcado para morrer.

Eram momentos de se sentir pavor em ser jornalista.

Os plantonistas do então II Exército, hoje Comando Leste, trabalhavam de boca fechada, ouvidos atentos e coração na boca. Garimpavam notícias em cerimônias rotineiras, conversas e desabafos informais de militares de alto e baixo escalão, nas cantinas, cafés, nos banheiros e escondidos em colunas e biombos.

Muitos furos de reportagem e manchetes nasceram assim. E muitas ameaças de morte também.

Por exemplo, o furo do jornalista da Folha de S.Paulo, Adhemar Lang, anunciando a repressão prestes a desabar sobre os estudantes, em 1968. Urinando no banheiro do II Exército, puxou conversa com um militar de mão na bragueta, na latrina ao lado. “Está feia a situação, hein, Coronel?”. E o Coronel, as asas da imaginação soltas naquele ambiente de descontração e alívio, soltou a língua e deu manchete.

Há outra, do Lang. Ele a reservava para o seu livro, inédito, contando sua trajetória pelos gabinetes dos comandos militares por onde passou. E ele passou por todos, desde 1963, vésperas do golpe de 64, até a Anistia, em 1985. Mas ele mesmo deu com a língua nos dentes em conversa com amigos e seu segredo foi para o brejo. Nesse papo estava o jornalista Mauro Carvalho da Silva, dono de um mini-painel de anúncios de palestras na Capital, num canto baixo de página interna do Estadão. Mauro correu para a redação e o segredo foi publicado pelo jornalão. Era 2002.

Não é mais segredo, vamos lá:

Grudado atrás de uma coluna da sala de interrogatório no II Exército, Lang – toda a sua vida em trajes e postura de cavalheiro – ouviu diálogo entre o Dr.Júlio de Mesquita Neto, diretor do jornal O estado de S.Paulo, e seu inquiridor. O Dr.Júlio estava sendo qualificado pelo crime de desobediência à censura.

Inquiridor: O sr. é o dono do jornal O Estado de S.Paulo?

Dr.Júlio Neto: Não senhor, não sou.

Inquiridor: Como não? Quem é o dono do jornal?

Dr. Júlio Neto: o dono do jornal O Estado de S.Paulo é o ministro da Justiça, Alfredo Buzaid. O ministro confisca as edições do jornal, então ele é o dono.

Essa foi uma cena de cinema, roteiro eterno de qualquer ditadura. No centro do salão, uma mesa, uma cadeira, uma máquina de escrever. Na mesa, o inquiridor, em plano elevado, olhando o réu de cima para baixo. Na cadeira, o réu, em plano inferior, mãos empalmadas sobre os joelhos, olhando de baixo para cima. E as batidas compassadas da máquina de escrever, ditando a História em conta-gotas. Tac, tac, tac…

Escondido num cubículo fechado de um metro por dois, onde uma máquina de escrever era a Agência Estado em sua fase embrionária, eu ia fazendo a minha parte naquele momento histórico. Distribuía para os assinantes de todo o Brasil matérias censuradas no Estadão. Algumas passavam despercebidas pela censura nos órgãos de comunicação regionais do País. Se algum censor na redação me viu naquela gaiola de vidro, pensou tratar-se de um carimbador de papéis. Do meu esconderijo, me divertia com a rebeldia dos jornalistas, vaiando o censor, matéria por matéria censurada.

2003.

Descíamos a rua, o Lungaretti e eu, em direção ao Metrô Patriarca, depois de saborearmos alguns bifes de filé mignon na minha casa, na Vila Ré.

– Não sou comunista, mas Luis Carlos Prestes foi um grande líder.

-Foi, sim, Celso, mas a causa por ele defendida nunca me convenceu. Há em toda parte os insubmissos a qualquer espécie de cativeiro. O comunismo é o cativeiro dos povos e do indivíduo. Deixou camadas de cadáveres em certas regiões por aí.

Hora de diversão nesta conversa do Metrô Patriarca com meu amigo:

-Eu engraxei os sapatos do Prestes, sabia? Comecei a trabalhar como engraxate na esquina da Rua da Mooca com Coronel Cintra aos seis anos e meio. Um bebê. Trabalhei como engraxate até os 16 anos. O prédio velho onde eu encostava a caixa de engraxar ainda está lá, 60 anos depois.

-Entre os 6 e os 16, não me pergunte o ano certo, o Prestes ia algumas vezes fazer palestra no Cine Roma, no começo da Rua da Mooca. Era uma rua de paralelepípedos, abaulada, e nas duas mãos passava bonde aberto. E lá vem o mito, a pé, desde o Rio Tamanduateí – o começo da rua – cercado de seguidores, e ele está acenando, e é feliz.

-No paraíso comunista, minha criança, você vai ter saúde, moradia, tempo para lazer, tudo de graça, deve ter pensado ele, ao passar a mão na minha cabeça.

-Uma vez ele parou, pôs os pés na caixa de engraxar e pediu para passar uma escova. Ou era demagogia ou estava sendo coerente com a sua ideologia, imagino eu, hoje. Escovei e dei um brilhinho com o pano nos seus sapatos pretos. Se isso aconteceu quando eu tinha uns 10 anos, então era 1946. Deve ter sido mais para frente, zumbem a história e os porões do meu cérebro.

-El Ministerio de Economía Y Planificación es el organismo encargado de dirigir, ejecutar y controlar la aplicación de la política del Estado y el Gobierno en materia de economia, planificación, estadística, normalización, metrología y control de la calidad, servicios comunales, planificación física y diseño industrial.

As funciones do Ministério da Economia e Planejamento de Cuba comunista, Lungaretti. Lembra? El governo soy yo. O cara se gaba de fazer todas essas funciones sozinho. Arma na cintura. Farda. Às vezes, cabelos compridos. Às vezes, barba comprida. Às vezes, cavanhaque. Às vezes, óculos de lentes redondas, cara de líder. Sempre, milhões de mortos pelas mãos de um barbicha. O povo só olhando. Dá para acreditar? Milhões acreditaram. Muitos ainda acreditam e se submetem.

Sobre essas coisas conversávamos, Lungaretti e eu. Quando era a vez dele de ouvir, ele ouvia e falava: é…

Nesse dia, já na catraca do metrô, perguntei se ele não gostaria de ler um livro retratando a gênese de um torturador. “Noite de Natal”, do inglês William Somerset Mougham. Ele se voltou de repente e caminhou de volta à minha casa para pegar o livro.

Celso Lungaretti está dependurado de ponta cabeça na PE da Vila Militar, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro:

-Vou enfiar um cabo e arrombar o teu cu, seu filho da puta, se você não falar logo o que queremos saber, engasga o torturador.

Sustentado de pé, meio morto, recebe um soco no ouvido de um cabo do Exército, um ressentido com os prisioneiros porque perdeu seu potencial de judoca em um tiroteio com militantes. O tímpano direito estoura. Quando o preparam para ser apresentado à televisão como “arrependido”, precisam refazer o trabalho. Um fio grosso de sangue escorre do ouvido e isso não pode aparecer no vídeo.

-Os urros não pareciam vir de dentro de mim. Vinham de fora. A morte não é mentirosa, passa na minha frente, se afasta, se aproxima, se afasta, fica zanzando à minha volta. De repente, estava comigo, ao meu lado, depois, fica na frente do Murilo Néri, em seguida vai dar plantão junto com os meus torturadores na porta do estúdio para eu não fugir da telinha da Globo.

2005

(Ô, Apóllo, como é esse seu verso de Dante? Gosto dele: quando a força com a razão contrasta, vence a força e a razão não basta). Celso falando:

-Fui militante da Vanguarda Popular Revolucionária, sempre atuando no setor de inteligência da organização. Jamais participei de ações armadas. Mesmo assim, nos cartazes afixados pela ditadura em locais públicos, fui apresentado como um dos “terroristas assassinos de pais de família”. Graças a esses cartazes e a matérias jornalísticas baseadas em informações dos órgãos de segurança, fiquei marcado como pessoa violenta e perigosa. Isto me prejudicaria depois, no mercado de trabalho.

-Preso em 16/04/1970, sofri as torturas habituais à época, choques elétricos, pau-de-arara, espancamento, asfixia. Acabei revelando, estivera, sim, numa área de guerrilha provisória, abandonada, no município de Jacupiranga, a Área 1. Foram detidos na mesma época membros da direção da VPR, conhecedores da área definitiva. Nunca soube ao certo se a descoberta pela repressão da Área 2, onde estava o Lamarca, se deveu à minha informação, devido à sua proximidade da Área 1, ou à confissão de outros companheiros.

2004.

A tortura da anistia:

-De tanto ler histórias de Kafka, acabei protagonista de um enredo kafkiano.

-Venho travando uma luta na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, instituída em agosto de 2001 para indenizar vítimas da ditadura militar. Dei entrada no meu pedido em outubro de 2001, com duas alegações fortes: a ruptura do tímpano numa sessão de torturas na Polícia do Exército da Vila Militar, no Rio de Janeiro, ficando com a audição prejudicada para sempre, embora passasse por três cirurgias; e a coação, incomunicável e sob tortura, para declarar-me arrependido de minha militância na Vanguarda Popular Revolucionária. Isso me tornou alvo de preconceitos também pelo resto da vida.

-O programa de anistia foi lançado sem definição de nenhum critério de prioridade para a marcação de julgamentos. Só em maio de 2002 uma portaria interministerial deu esse embasamento legal. Fica a pergunta: a ordem de entrada dos pedidos não deveria prevalecer para quem já estava inscrito?

-Vi centenas de anistiados passarem à minha frente, mas a gota d’água foi o caso do escritor e jornalista Carlos Heitor Cony, em junho de 2004:

-Desrespeitaram todos os critérios para antecipar seu julgamento e dar uma pensão astronômica ao Cony.

Pesquisando, Lungaretti viu a tal portaria interministerial sendo desrespeitada, pois o seu primeiro critério de prioridade– desemprego – vinha sendo ignorado pela Comissão de Anistia. E descobriu, num só mês, o nome de cinco anistiandos com números bem mais altos do seu na pauta de julgamentos, com a única justificativa de “número baixo”.

-Fiz representações ao Ministério Público Federal, à Ouvidoria Geral da República e à OAB. Os três acolheram e apuraram minhas denúncias. Então, meu julgamento foi marcado. Final feliz? Não. Quando a sessão começou, o relator disse não ter tido tempo para preparar o relatório do meu caso, mas o faria para a sessão seguinte. Nos meus andamentos processuais colocaram “julgamento adiado”, e nos resultados da sessão botaram “retirado de pauta”. Desde então, já houve uma sessão extraordinária e uma ordinária. Fiquei fora de ambas.

Sobre isso, este seu amigo escreveu uma carta para o Fórum dos Leitores, do Estadão:

-Tinha de ser o Estadão. Só por esse jornal os brasileiros acabam tomando conhecimento do tamanho dessa pizza salgada, chamada de indenização aos brasileiros e suas famílias atingidos pela ditadura militar. Claro, parabéns a Carlos Marchi, autor da reportagem. Mas, à parte a lei formadora de milionários do dia para a noite e até quem nunca levou um tapa da repressão, é preciso patrulhar o comportamento da Comissão de Anistia, por transformar a conta dos porões da ditadura em ação entre amigos, pois só enche os bolsos de algumas celebridades, em detrimento de quem é considerado apenas povinho. Isso é uma vergonha.

Imaginem se o Estadão publicaria essa carta.

Insisti para o Lungaretti procurar o jornalista Mino Carta. Quem sabe CartaCapital denunciaria a injustiça do seu caso. Carreguei a sacola da fotógrafa da revista enquanto ela clicava meu amigo, no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Fornecemos nomes de ex-presos políticos necessitados e merecedores da anistia e ignorados pela Comissão de Anistia. Lungaretti ficou fora da reportagem, nenhuma linha, nenhuma foto. Mino Carta, um mito do jornalismo, quem diria, acometido da síndrome da Área 1? Será?

Do Luis Fernando Emediato, diretor da Geração Editorial, para o Apóllo:

Querido Apóllo:

-Por que o Celso, precisando tanto desse livro, um livro capaz de salvar a vida dele, ainda não o escreveu? Não entendo. Ele fica pedindo dinheiro, dizendo-se desesperado, fudido, ninguém o apóia. Precisa parar de chorar. Precisa escrever.

-Todos nós sofremos injustiças. Todos nós apanhamos da vida. Em l979, por causa daquela greve de jornalistas, eu fui eleito “revelação de canalha do ano” no Pasquim e perdi 99% de meus amigos (ou pessoas supostamente amigos). Não morri por causa disso. Sofrer, sofri. Mas não abaixei a cabeça.

-Certo, o caso dele é sério. Mas ele precisa se erguer e contar com dignidade a história dele, em vez de ficar se lamentando e esperando se faça justiça um dia, ou receba uma indenização. À merda a indenização. Arrumar emprego é difícil hoje em dia, mas é difícil para todos. Mas, quem luta, consegue.

-O Lungaretti tem uma história para contar. A sinópse é boa. Agora, ou ele conta ou não conta. Garcia Márquez escreveu ‘Cem Anos de Solidão” passando fome e frio em Paris, onde estava exilado e sem emprego. Ficou famoso e milionário, ganhou o prêmio Nobel.

-A vida é de quem luta, não de quem um dia lutou.

-Você é amigo do Celso Lungaretti. Dê conselhos a ele. Ele deve se enfiar num quarto com um computador e escrever 15 horas por dia, com fome, sede e raiva. Disso pode sair um bom livro. Se ficar se arrastando por aí, chorando, não vai resolver nada. Abraço, Emediato.

Maio, 2005

-Alô? Celsão?

-Ô, mestre, como vai?

-Ô, cara, cadê o livro? Vai vender barbaridade, no Brasil e no exterior, alguém vai querer fazer um filme, e você fica indeciso? Esquece as dívidas por enquanto, resolve isso. Você vai ganhar dinheiro! Vai ser a tua salvação! O que está esperando?

-Está quase pronto. Vou terminar amanhã. Vou levantar às 6 da madrugada e mais 4 horas de trabalho eu termino e entrego ao Emediato. Tudo resolvido, mestre.

Foram 6 as horas de trabalho.

Marcelo Paiva x Lungaretti

(Em 1994, o escritor Marcelo Paiva, em comentário na Folha de S.Paulo, baseando-se em relatórios oficiais da repressão, engoliu a pílula oficial da entrega da Área 1, por Celso Lungaretti. Houve réplica e tréplica. Depois de tudo esclarecido, fizeram as pazes).

Do Celso para o Apóllo:

Feitas as pazes, minha troca de mensagens com o Marcelo Paiva, no dia 24/11/2004:

-Marcelo, talvez estranhe eu estar me dirigindo a você. Mas, durante a nossa polêmica, fiquei com a impressão de que você havia atirado num espantalho e se surpreendido com o drama de que tomou conhecimento. Senti um certo constrangimento de sua parte no texto final e, depois, no seu livro, você evitou me atingir. Então, saí daquele episódio acreditando na sua honestidade. Foi uma ironia do destino duas pessoas que sofreram traumas tão terríveis ficarem em lados opostos, circunstancialmente.

(O pai de Marcelo Paiva, o deputado Rubens Paiva, foi morto pela ditadura e seu corpo nunca foi encontrado).

-Hoje, depois de muita luta, consegui evidenciar para a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e para a própria opinião pública as condições em que arrancaram de mim aquele “arrependimento”, no inferno da PE da Vila Militar, depois de me estourarem o tímpano. O conselheiro Márcio Gontijo, em 26/10/2004, reconheceu que eu havia sido “duplamente atingido” pelo arbítrio da ditadura, sofrendo o mesmo processo de prisão e tortura dos demais, acrescido de uma exposição negativa que me marcou durante a vida inteira.

-Há um dado novo. Com a disponibilização de documentos oficiais na internet, pude afinal rastrear o que aconteceu em 1970. O relatório do Exército que estou lhe mandando prova exatamente aquilo que eu disse na nossa polêmica: fui preso às 6h45 do dia 16/04/1970, torturado pela manhã e, à tarde, depondo sobre minha trajetória, não tive como justificar os três meses que havia passado em Registro. Então “abri” a Área 1, abandonada. Como você pode ver no relatório, a repressão foi até lá, constatou que realmente essa área estava abandonada e voltou. Depois, recebendo outra informação, foi diretamente à Área 2, cercando o Lamarca.

-A única maneira de á Área 2 ter caído por minha causa seria uma investigação policial que chegasse a quem nos indicou a Área 1 (o ex-prefeito de Jacupiranga) e descobrisse que ele havia conseguido também uma segunda área para a VPR. O relatório do Exército prova que isso não aconteceu. Então, pela cronologia dos acontecimentos e das prisões, você poderá depreender o que realmente sucedeu. A mim me basta que todos saibam que, durante tanto tempo, fui alvo de preconceitos e discriminação por algo que não cometi.

-Mas, não estou pedindo uma retratação, nem a cobrarei de qualquer maneira. Apenas queria que você soubesse que, afinal, eu não era mesmo aquele vilão por quem você inicialmente me tomou.

-E se, de alguma maneira, você puder contribuir para meus esforços atuais, por favor, faça-o, Toda ajuda é bem vinda.

Resposta de Marcelo:

-Celso, nosso contato há dez anos serviu para, entre outras coisas, eu deixar de lado as paixões dos relatos da época, reconsiderar muitas verdades, e mesmo assim creio que cometi alguns erros. Espero que você tenha me perdoado caso eu o tenha ofendido, perdoado a minha inocência em acreditar em biografias tendenciosas. As feridas daquele período infeliz não foram ainda cicatrizadas. Eu, como vítima, tentei em vão entendê-lo. Tomara que a história lhe faça justiça. Parabéns por sua luta. Trabalho como colunista agora do Estadão e tomo a liberdade de sugerir uma pauta sobre você.

Marcelo:

-Como te disse, eu imaginei que tivesse acontecido com você o mesmo que comigo. A necessidade de desabafar às vezes levava a gente a escolher o alvo errado. Não há o que perdoar.

-Infelizmente, várias pautas foram propostas aí no Estadão, sem sucesso. Já trabalhei aí e deixei amigos, que tentaram me ajudar na minha luta. Parece que o jornalão está mais interessado nos que sofreram pouco e receberam muito. Não sou conveniente para quem quer estimular a redução das indenizações.

-Talvez um dia a gente se cruze e tome um cafezinho. Eu gostaria. Forte abraço.

Maio, 2005

Conselho do Apóllo para o Celso:

-Agora procure ganhar dinheiro, pois a civilização burguesa só vai virar pó daqui a uns 3.500 anos. Relaxe e aproveite. Não há nada a fazer, a não ser montar um negócio. Não falo o nome burguesia em tom pejorativo. Não vejo a situação deste mundo ser resolvida na pancada. Tema em eterna discussão, de preferência sem sangue. Abraço, Apóllo.

Do Celso para o Apóllo:

-Independentemente do resultado, esse era o livro a fazer. Consegui! Além disso, tomara sirva para me tirar desta fase horrível.

-6a. feira chegou o contrato assinado. A Geração Editorial se comprometeu a lançar o livro no prazo máximo de 6 meses. Mas, provavelmente, sairá em agosto.

-Obrigado por sua força, foi fundamental para esse projeto decolar. Um forte abraço. Celso.

2005

25 de maio

4a. feira.

Celso e eu fomos assistir ao filme “Casa de Areia”, de Andrucha Waddington, perto da casa dele, na Rua Augusta. Paguei o ingresso para o combatente da liberdade. Não tem dinheiro nem para um cafezinho. Formado em Jornalismo na Escola de Comunicação e Arte da USP, já fez crítica de cinema, teatro, literatura. O filme não lhe disse muita coisa. Eu, em resenha feita depois para a Faculdade de Jornalismo da Universidade São Judas, me mostro encantado com aqueles olhares mágicos da câmera pelas dunas semoventes do Maranhão, além do trabalho de toda a equipe, e, especialmente, das musas da interpretação, as duas Fernandas, mãe e filha, em fuga daquela vida entre grãos de areia. O cinema fica num shopping, na Bela Vista:

-Compra-compra-compra-vende-vende-vende-dinheiro-dinheiro-dinheiro, a mágica do consumo, como quer o sistema, Celsão. Depois de tudo, você ainda acredita no anarquismo? Eu não consigo ver vida fora do sistema capitalista.

-Eu não consigo ver vida no sistema capitalista. Miséria, exclusão, egoísmo, corrupção, injustiças, matanças, pouco para muitos, muito para poucos.

-Mas como viver anarquicamente, sem lei, sem ordem?

-Núcleos. Comunidades se dando bem, se respeitando, ajudando uns aos outros. Os muitos núcleos se juntam, formam toda uma comunidade feliz. Isso já aconteceu algumas vezes. Hoje, o avanço tecnológico facilita.

-Sem Estado? Liberdade absoluta? Socialismo voluntário? É ruim, hein, Bakunin? Não vai dar certo nunca. Em estado de natureza o homem não é flor a se cheirar, em estado de sociedade também, e onde tem dois homens é necessário um delegado de policia. Eu me contento com o pão e circo da liberdade de ir e vir, meu quarto, meu chuveiro, meu jardim, meu cachorro, meus livros.

-Isso é fácil. Difícil é arriscar a vida por uma idéia.

No Shopping, algaravia feminina.

Mulheres gordas, magras, carregando sacolas de compras.

-Bem o sistema de pensamento da nossa época, Celsão.

A magra diz para a gorda: Quer emagrecer? Claro. Quantos quilos? Vinte quilos. Eu compro essa sua gordura. Como é? Eu compro essa gordura da senhora. Sou muito magra, quero engordar, compro a gordura. Quero engordar dez quilos. Compro dez quilos. Os outros dez a senhora vende para outra pessoa. Quanto a senhora quer o quilo? Dez reais. Agora eu vou a uma igreja, pago cem reais ao santo, mas tenho de dizer o nome da senhora e dizer tratar-se da gordura comprada da senhora. Senão, a senhora não emagrece e eu não engordo. Tenho de dizer o nome.

-Comércio sagrado de silhuetas, essa agora, Celsão!

Dei à Dona Mafalda Lungaretti minha cópia do livro do Celso, “Náufrago da Utopia”, tirada do disquete.

É meu presente para a mãe do meu amigo Lungaretti.

No dia do enterro do sr. Reinaldo, perguntei à Dona Mafalda, debaixo de chuva, se alguém a levaria para casa.

-Ninguém.

Diante da sepultura (cena para uma foto), só ela e o coveiro, a cimentar a laje. Parentes e conhecidos, mudos, lá longe. Rumo ao portão de saída do cemitério da 4a. Parada, Dona Mafalda caminha só, vencendo aos saltos o rio de água entre os túmulos. Síndrome da Área-1 até entre os parentes?

-Vamos no meu carro, eu a levo. (Na minha velha Belina, ano 1975. Vasando água, pelo teto e pelo soalho).

Deixei Dona Mafalda à porta de sua casa, na Mooca. Despedi-me dela e do velho sobrado, os dois com jeito de desabar.

Minha tia desenrolou uma historinha para ilustrar o comportamento imprevisível do ser humano. Contou-me aquela alma freqüentadora diária de altares católicos:

-Um sujeito passou a vida inteira levando luz aos moribundos. Luz é a vela, certo? Me dá uma luz, diziam os moribundos e o sujeito colocava a vela nas mãos deles. Um dia chegou a vez de o sujeito virar moribundo, como todos nós vamos virar um belo e determinado dia. Me dá uma luz, chegou a vez de o sujeito, agora ele mesmo moribundo, dizer. O outro que o substituía na função de levar luz aos moribundos, ao invés, colocou brazas na mão do novo moribundo. Aí o sujeito moribundo olhou as brasas na mão e filosofou:

-Morrendo e aprendendo.

Em seu livro, Lungaretti rende homenagem ao “Grupo dos 7”, criado por ele no Colégio MMDC, da Mooca. Sete meninos do Colegial incorporados depois ao grupo de Lamarca e mortos, menos ele, na militância. E me inclui nos agradecimentos. Não mereço, mas gosto.

Passei anos insistindo: escreva, escreva. Ele não se achava, não via razão. Aí o Exército falou: ele não é traidor, não entregou a Área 2. E ele teve uma filhinha de cabelos de raios de sol, e se animou quando eu consegui editora, e se embriagou com conhaque, e escreveu o livro.

. Está não no livro, “Náufragos da Utopia”, mas num verso de uma de suas 63 poesias compostas durante o exílio em sua própria terra, o resumo de sua utopia e de seu naufrágio:

Vence ou morrer

Era o nosso lema

Ter sobrevivido

Aos companheiros

E ao sonho,

Que fardo terrível.

23/06/2005.

Celso e eu estamos atravessando a Avenida Paulista, depois da noite de autógrafos do professor Luis Mauro Sá Martino, na Livraria Cultura:

-O que será esse livro, “Comunicação: Troca Cultural?”

A resposta foi um apertar dos lábios e um sacudir de ombros:

-Quem sabe. Precisa ler.

-É um ensaio, me disse o professor.

(O livro é uma costura de idéias e conceitos de autores consagrados sobre comunicação, poder e cultura).

Neste instante vou passar na rua Augusta para pegar uma torta de morango deixada por Dona Mafalda para eu levar para casa. Fantasiei:

-Olha eu aqui, atravessando a Paulista, coração da terceira maior cidade do mundo, em companhia de um combatente da liberdade, personagem de uma página da nossa História.

-Ganhei uma princesa de cabelos de raios de sol, minha filhinha. Foi-se o tempo de eu me esgueirar por estas bandas, revólver debaixo do braço e um comprimido de cianureto no bolso.

Dito isso, sorriu.

-Agora me diz, qual o seu próximo livro?

Vai se chamar “Guia da Nova Utopia”.

-Santa Escócia, como dizia o Super-Homem, tudo de novo?

E toca o Celso me dar a sinópse:

-A historia do homem até agora vinha sendo a da luta contra a necessidade. Desde os tempos mais remotos, não conseguia produzir em quantidade suficiente para viver. A ambição e a ganância o empurravam para frente. Onde não havia o suficiente para todos, os mais capazes conseguiam uma condição melhor para si, em detrimento dos demais. A desigualdade fornecia motivação na luta pelo progresso, impulsionava avanços e descobertas.

-No século passado, entretanto, a barreira da necessidade foi ultrapassada A humanidade se tornou capaz de produzir o bastante para assegurar uma sobrevivência digna a todos os seus membros. Isto só não acontece hoje pelo motivo de sua organização sócio-econômica ser direcionada para a obtenção do lucro e não para a satisfação das necessidades humanas, desperdiçando-se as potencialidades existentes.

-O homem precisa de morada, alimento, infra-estrutura, água, luz, esgoto, comunicações, saúde, educação e lazer. Isso todos poderiam ter satisfatoriamente. Mas desperdiçamos recursos com burocracia, bancos, comércio, propaganda, governos, indústria bélica, produtos de luxo exagerado, cursos desnecessários e milhares de outros ítens apenas geradores de receita, não fazendo falta nenhuma para o ser humano.

-Com isso, invertemos a prioridade: em vez de trabalhar para viver, estamos vivendo para trabalhar. Perdemos anos em estudos tolos que servem apenas para a conquista ou manutenção do emprego. A economia globalizada gera um percentual permanente de desempregados e condena 20% ou 30% da população economicamente ativa a uma condição aviltante.

-Com a globalização dos mercados, no final do século passado, a situação melhorou para o 1o. mundo e piorou ainda mais nas nações periféricas, inclusive o Brasil. A remuneração caiu, o desemprego aumentou, o ambiente de trabalho se tornou degradante com serviço demais para profissionais de menos e mais da metade dos funcionários passou à condição de falsa terceirização, sem garantia trabalhista nenhuma. As conquistas sociais foram sendo uma a uma anuladas. O trabalho, antes agradável e gratificante, hoje é obsessivo e escravizante.

-O “Guia da Nova Utopia” vai retomar a idéia da construção de uma nova sociedade dentro da velha, com a montagem de comunidades e células de produção alternativas, praticantes de um estilo solidário de vida, em contraposição à desumanidade capitalista.

-Essas comunidades, fazendas e oficinas cada vez mais irão se entrelaçando, até formarem “territórios livres” dentro do próprio capitalismo. E cada vez mais também praticarão a desobediência civil e vão se organizar de acordo com seus códigos e suas decisões tomadas coletivamente.

-Códigos? Cheiro de ordenação jurídica chamada Estado.

-Decisões tomadas coletivamente, como na democracia ateniense, ignorando o Estado burguês. Seu norte será a conquista das mentes, em vez da conquista do governo. O objetivo: expandir sua abrangência até substituirem naturalmente o Estado burguês, sem necessidade de confrontos sanguinários.

-Ou seja, a mudança se processaria horizontalmente, dentro do tecido social, e não de cima para baixo, como a esquerda tradicional propõe, conquistar o governo para tentar tomar o Estado e então usar o poder para mudar a sociedade, degenerando em tiranias retrógradas como a da antiga URSS ou no aburguesamento dos “companheiros”, como é o caso atual do PT.

-E, em termos de estilo, o ”Guia da Nova Utopia” será mais uma reflexão aberta, com estilo agradável e artístico, não o resumo de uma teoria complexa, profunda, dada e acabada. Ou seja, estará menos para o “Manifesto Comunista” de 1848 e muito mais para “ A Desobediência Civil,”, de Henry David Thoreau (“Preciso é cuidar para de modo algum eu participe das misérias por mim condenadas […] não importa os primeiros passos parecerem pequenos: fazendo-se bem feito, faz-se para sempre]”).

-Delírio, Celso, não dá certo. O motivo é o mundo não ser habitado por anjos.

Falo isso pisando em ovos, em respeito à sua crença.

2005, julho, 03.

A tortura da Anistia:

-Ô, mestre, estou voltando do julgamento realizado ontem, de meu recurso no plenário da Comissão de Anistia do Ministério da justiça. Peço desculpas, mas por estar muito cansado, viajei 30 horas, ida e volta, para passar 6 em Brasília, usarei esta mensagem geral para informar a todos os amigos e interessados em minha causa.

-A sessão começou mal, pois se confirmou o meu temor. O relator do meu recurso, representante do Ministério da Defesa, agiu mais nessa condição e menos na de membro de uma comissão de anistia. Ficou contra todos os meus pedidos. Faz sentido: tenho denunciado os agentes da repressão como torturadores, assassinos, organizadores de farsas e até ladrões. Tomavam nossos veículos, armas, bens, dinheiro, tudo que apreendiam conosco, e dividiam entre si.

-O presidente da Comissão, não querendo contrariar o relatório, propôs, independentemente do número de meses passados como foragido e preso, me fosse concedida a indenização máxima. O relator ficou contra até isso, evidenciando estar predisposto a me prejudicar. Depois do pedido de vistas e das manifestações dos outros conselheiros, o presidente decidiu mandar copiar as principais peças do meu processo e entregar um jogo a cada um dos cerca de 15 membros do plenário, para ter mais elementos para formar sua opinião neste caso “tão polêmico”, ou seja, praticamente derrubou o relatório preconceituoso.

-Terei mais um ou dois meses de espera, mas com ótimas perspectivas de sucesso no final. E, importante: depois de o Jacob Gorender afiançar na Folha de S.Paulo a minha inocência no episódio do Vale do Ribeira, as pessoas de esquerda conhecedoras do caso estão majoritariamente se posicionando a meu favor. Agora, com a direita mostrando as garras, o quadro fica mais nítido ainda.

-O melhor de tudo é o lançamento do meu livro, em agosto. Poderei sair definitivamente da crise.

2005, julh

Abro e-mail do Celso:

-Ô, Mestre, um promotor com quem travei conhecimento na Web, solidário com a minha causa, me colocou em contato com o movimento do Roberto Mangabeira. Tenho trocado e-mails com o próprio. Há umas duas semanas, sugeri a ele enfocar na Folha de S.Paulo o problema do crescimento do trabalho informal e da falsa terceirização, fazendo do resgate do emprego com carteira assinada uma de suas principais bandeiras – até para atrair para a sua candidatura presidencial os dissidentes de esquerda, afinal sua única chance é tornar-se a terceira força, aglutinando um torno de si os descontentes com a alternativa Lula x tucano.

-O artigo do Mangabeira na Folha de hoje veio exatamente ao encontro da minha proposta. Ele estará em São Paulo no sábado. Vamos conversar pessoalmente. Seu capitalismo expurgado dos principais defeitos não é exatamente o meu objetivo estratégico final, mas representa um avanço em relação ao momento atual. Se acertarmos os ponteiros, pretendo somar forças com ele, até 15 de novembro de 2006. Depois, provavelmente, retomarei a trajetória própria. A idéia de termos mais um governo com fachada de centro-esquerda e política econômica de direita é um pesadelo para mim. E o Mangabeira me parece a melhor aposta para evitarmos isso. Abraço, Celso.

2005

29/05

15h17

-Alô!

-Sr.Apóllo?

-Eu mesmo.

-É Mafalda, mãe do Celso.

-Como vai, Dona Mafalda?

-Tudo bem. Queria agradecer o presente, o livro do Celso.

-Por nada, Dona Mafalda.

-Ainda não comecei a ler. O Celso ficou de vir aqui, mas não veio. Só li uma coisinha aqui, outra ali. Vou começar hoje, devagar, vou ler tudo.

-Ótimo, Dona Mafalda, boa leitura.

– Sr. Apóllo?

-Sim?

-O sr. freqüenta centro espírita?

-Freqüento, Dona Mafalda. Centro Kardecista.

-O sr. colocaria o nome dele, lá?

-Vou colocar, Dona Mafalda.

-O Celso não acredita em nada!

Acredita, sim, Dona Mafalda, murmurei eu, ao desligar. Depois de tudo, e apesar de tudo, ele é um jornalista. A crença do seu filho é o jornalismo. Não diz outra coisa este texto brincalhão dele, intitulado “Para um jovem decidir o significado do jornalismo, antes de decidir qual o vestibular que vai prestar”:

-Você provavelmente não vai ficar rico nem famoso. Tenho 33 anos de profissão, chefiei redações, dei aula em faculdade, peguei plantão noturno morrendo de sono, trabalhei duro e sempre para ganhar uma merreca. Mas saberá o fundamental: ricos e famosos são seres humanos geralmente desprezíveis. E vai perceber no fundamental, isto: você é muito melhor em comparação a eles.

-Poderá não ter grana nem para o ônibus, mas vai ser recebido como igual nos palácios. Se ficar deslumbrado e quiser perpetuar as mordomias, passará a ser outra coisa: um escriba de aluguel.

-Se encarar tudo isso com ironia, sem se deixar iludir, poderá se divertir muito. Basta botar na cabeça a certeza de estarem sempre só tentando te usar e, no fundo, querem mais, querem ver você se danar. Então, porque não lhes dar o troco?

-É hilariante a forma como os poderosos se rebaixam para saírem bem no noticiário. É um sadismo perfeitamente desculpável humilhar e impor o máximo de constrangimento aos participantes da feira das vaidades. Deus perdoa e eles merecem.

-E, em determinadas circunstâncias, você poderá ser o instrumento da justiça, mostrando ao povo a nudez do rei. A verdade é revolucionária.

-Para quem tem caráter e é solidário com o sofrimento de nosso povo explorado e iludido, derrubar um Zé Dirceu da vida vale um prêmio superior ao da mega-sena.

-Não trocaria essa profissão por nenhuma outra.

-Mas, se você não entendeu direito meu recado, não vacile: vá logo inscrever-se no vestibular de administração de empresas.

Se o moço da TV copiou isso tudo de algum lugar, não sei, mas alguma coisa assino em baixo. Não assino quando ele considera desprezíveis ricos e famosos. Nem todos. Do alto da minha ingenuidade, meu desabafo: considero desprezíveis, pela ordem, os torturadores, a paternidade irresponsável, a maternidade irresponsável, os ladrões do dinheiro público, os magistrados corruptos, os seqüestradores, os estupradores, os exploradores da boa fé dos simples, e toda e qualquer transação resultante em domínio sobre a pessoa.

2005

Agosto, 30

8h25

Alô?

-Ô, mestre, tudo bem?

-Ô, Celsão, aqui tudo bem.

-Como é, abriu o meu e-mail?

-Chi, meu velho, meu computador está no conserto há uma semana, não estou abrindo nada.

-Mandei um comunicado para os que me ajudaram na minha causa, sobre o desfecho do julgamento na Comissão de Anistia. Já sou considerado um anistiado pelo Estado, me deram um salário vitalício. Falta o ministro da justiça assinar e mandar para o Planejamento. Devo ter mais uns três meses pela frente para começar a receber. Espero receber também o reatroativo, que deve dar uns 400 mil reais. Vai dar para refazer a minha vida, ter casa própria, realizar meus projetos.

Muito bom, meu velho, estou muito contente. Quando foi isso?

-Foi nesta 4a.feira. O julgamento atrasou, perdi o ônibus de volta, em Brasília não devolvem o dinheiro da passagem, precisei me abrigar numa pensão barata, garimpando alguma grana com os meus amigos para poder voltar. Foram 16 horas de Brasília até São Paulo. Quando você está chegando, não sabe que posição mais inventar na poltrona.

-Como foi o julgamento?

-Todo mundo ficou emocionado, mas a emoção maior foi a do pessoal que serve café, varre o chão, carrega papel para lá e para cá. Quando soou o veredito, largaram as vassouras e as xícaras e vieram todos me abraçar. Vi mais sensibilidade nesse pessoal pobrento do que nos mandantes, lá. Ô, Apóllo, lembrei de você, preciso falar de viva voz, muitos me ajudaram, mas você, cara

-O Marcelo Lavaniére, presidente da Comissão de Anistia, praticamente ignorou o texto do relator, contrario à concessão da anistia, e assumiu a minha defesa. O Márcio Gontijo, o conselheiro mais antigo, parecia ter voltado aos tempos de militância, pelo modo como me defendeu. Depois até o relator, Vanderlei de Oliveira, que era contra, acabou aderindo.

-Beleza, Celsão. Agora o livro sai em agosto e tudo vai ficar melhor ainda. Você não contaria num livro a sua maratona pela anistia até essa emoção toda do seu julgamento? Poderia expor o comportamento corporativo da Comissão de Anistia e beneficiaria outros em piores situações, necessitados e merecedores da anistia.

-Vamos ver, o “Náufrago da Utopia” poderá ter uma segunda, terceira edição. Vou esperar.

Boa sorte para cá, boa sorte para lá, nos despedimos, desligamos.

Fim?

Não.

Celso me ligou: sua prisão fora decretada por um juiz por falta de pagamento de pensão à sua ex-mulher. Pediu-me para fazer uma declaração testemunhando estar desempregado há anos, aluguel atrasado, protestado na praça e se alimentando na casa de sua mãe, pensionista do INSS. Uma advogada amiga dele, trabalhando de graça, chegaria em meia hora ao seu apartamento para levar o documento ao juiz e evitar a prisão. Parei com o meu almoço, em três minutos fiz a declaração, em 20 fui do Metrô Patriarca até o centro, em menos de 10 galguei as escadarias da Estação República e subi a Augusta. Quando perguntei cadê a advogada, ela tocou a campainha. Disso tudo vale o detalhe: estou fazendo 70 anos e não sou o grego da maratona.

Fim?

Sei lá.

Por Apóllo Natali, jornalista, primeiro redator da Agência Estado.

Direto da Redação é um fórum editado pelo jornalista Rui Martins.

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