Onda conservadora perde força, nas urnas, e esvazia a ultradireita

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Publicado quarta-feira, 18 de novembro de 2020 as 15:05, por: CdB

Chamava atenção o número de candidatos a prefeito evangélicos, usando títulos como “pastor”, pastora”, “missionária” e “apóstolo”. A maioria perdeu as eleições. Em muitos, os vices eram ligados ao Exército e às polícias, usando “capitão”, “coronel” e “delegado” antes de seus nomes, com destino semelhante nas urnas.

Por Redação, com RBA – de Brasília e São Paulo

A onda conservadora que elegeu o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em 2018, perdeu força nas urnas agora, em 2020, a frustrou a multidão de candidatos evangélicos, militares e policiais que fizeram dobradinhas em 45 candidaturas na disputa pelas prefeitura de 21 capitais brasileiras. O eleitorado preferiu o discurso moderado às bravatas que fizeram sucesso há dois anos, nas redes sociais.

O anticomunismo rasteiro caminha de braço dado com os ativistas mais refinados da ultra-direita
O anticomunismo rasteiro caminha de braço dado com os ativistas mais refinados da ultradireita

Nesse primeiro turno chamava atenção o número de candidatos a prefeito evangélicos, usando títulos como “pastor”, pastora”, “missionária” e “apóstolo”, em muitos casos com vices ligados ao Exército e às polícias, usando “capitão”, “coronel” e “delegado” antes de seus nomes. Houve também os evangélicos que figuravam como vice. E candidatos que, embora não se declarem oficialmente como evangélicos, conquistaram o apoio dessas igrejas.

Apenas três dessas candidaturas, no entanto, sagraram-se vitoriosas na primeira etapa das eleições e nove foram ao segundo turno. As demais obtiveram colocações que vão do terceiro lugar até o último na contagem dos votos.

Antidemocráticos

Os resultados apontam para o esvaziamento da onda ultraconservadora, que não durou dois anos. Mais do que isso, o desgaste, principalmente nas capitais, do discurso antidemocrático que ganhou força com o impeachment de Dilma Rousseff (PT) e culminou com a chegada de Bolsonaro ao poder.

Os ataques à democracia seguiam com força nas redes sociais de apoiadores de Bolsonaro e em atos promovidos por bolsonaristas, como os que pediam o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF).

— Mesmo com o Exército ‘batendo cabeça’ e desdenhando da pandemia e da doença junto com governo, a onda antidemocrática prosseguia. Mas veio a derrota de Donald Trump nas eleições dos Estados Unidos, com a divulgação das suas atrocidades, seu desdém pela doença, suas vítimas. O impacto foi tão grande que na semana passada tinha militar querendo abafar as falas de Bolsonaro nesse sentido — disse à agência brasileira de notícias Rede Brasil Atual (RBA) o sociólogo Niccoli Ramirez, professor da Sociologia e Política – Escola de Humanidades (a antiga Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).

Melhor caminho

Segundo Ramirez, a força da pandemia, com mais de 160 mil mortos e quase 6 milhões de infectados no Brasil, enfraqueceu as promessas dos pastores neopentecostais em relação à cura da covid-19. E também a confiança no presidente Bolsonaro. Líderes evangélicos aliados ao governo e sua necropolítica, ou com a aliança estremecida, pregaram que Jesus pode curar a doença. Ou passaram a comercializar nas igrejas produtos “consagrados” capazes de derrotar o novo coronavírus.

— Mesmo com tudo isso, os fiéis viam familiares, parentes e amigos sendo afetados, muitos de maneira grave, com morte. Isso foi levando todo apoio ao colapso. Ficou claro para essas pessoas que a democracia é o caminho, e não a religião — observou.

Na avaliação do sociólogo, são grandes as chances de, a exemplo de Trump, Bolsonaro vir a ser derrotado pela pandemia. O discurso presidencial é descolado da realidade, quando a retomada das restrições já estão sendo consideradas pelos governos estaduais.

— O discurso era de que tudo estava sob controle, que havia exageros quanto a medidas preventivas e que era preciso aumentar a flexibilização. Ficou claro que o aumento do contágio é fruto da política de um governo que não se preocupa com a saúde da população. Além disso, Bolsonaro não está vinculado a nenhum partido. Há a possibilidade de quando chegar 2022 não ser aceito em nenhuma legenda — afirmou.

• Com informações do Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Nudeb/UFRJ)