A opção de anular o voto

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Publicado sexta-feira, 5 de janeiro de 2018 as 15:00, por: CdB

Se eu fosse de direita, começaria a apostar minhas fichas no Bernardinho. Sendo de esquerda, até agora — salvo em caso de ameaça fascista — só vejo anulação do voto pela frente.

Por Moysés Pinto Neto, de Porto Alegre:

Muitos irão decidir pelo voto nulo

A pesquisa que indica crescimento constante da popularidade de Lula (bit.ly/2BR9qJ2) tem razões muito óbvias que seus inimigos fingem ignorar. A primeira tem três sílabas: RE-FOR-MAS. O povão sentiu na pele o peso das reformas trabalhista e previdenciária enquanto supressão de direitos e nada pesa mais que o bolso no voto. A austeridade não convenceu ninguém.

O povão, aliás, é o que há de mais parecido com o “agente racional” que os economistas inventaram: é extremamente pragmático e vota conforme o auto-interesse. Bem ao contrário da imagem do “voto do ignorante”. No quadro comparativo, Lula fez um governo de bonança econômica e social e o argumento da corrupção perdeu força porque todos os demais estão envolvidos. A cartada Bolsonaro começa a desinflar porque sua completa incapacidade vai se tornando patente e as “guerras culturais” não mobilizam com a mesma intensidade que a questão econômico/social.

Isso, tudo, no entanto, nos conduz a um triplo impasse:

a) de parte do esquerda tradicional, seu candidato tende a cair fora por decisão judicial e fica o bode de como resolver (Haddad é uma péssima opção);

b) do ponto de vista da nova esquerda, Lula é — como eu disse outro dia — um ônibus estacionado em frente à renovação;

c) do ponto de vista da direita, a crise é a incapacidade de oferecer uma candidatura viável que decole, no que tem sido mal-sucedida nas últimas tentativas.

2018 segue uma incógnita total, com o leve alento de que parece que a alternativa fascista está desinflando (a estratégia de expor fragilidades, contra algumas vozes, parece estar funcionando em relação aos “normies”, i.e., “apolíticos”).

Uma vala encontra-se aberta para Marina Silva que, por um mistério que cansei de tentar entender, não se apresenta como uma liderança capaz de convencer o eleitorado num corte transversal. Ciro segue o principal candidato a herdar votos de Lula, Alckmin se encaminha para a enrolação judicial e os outros candidatos cogitados – Huck, Temer, Meirelles, Serra, Dória — não empolgam.

Se eu fosse de direita, começaria a apostar minhas fichas no Bernardinho. Sendo de esquerda, até agora — salvo em caso de ameaça fascista — só vejo anulação do voto pela frente.

Moysés Pinto Neto, doutor em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul, professor na Faculdade de Direito da Universidade Luterana do Brasil, Porto Alegre.

Direto da Redação é um fórum de debates, editado pelo jornalista Rui Martins.

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