Opinião de Bolsonaro sobre obrigatoriedade da vacina gera onda de repúdio

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Publicado quinta-feira, 3 de setembro de 2020 as 19:36, por: CdB

Diante dos fatos, o médico sanitarista e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, Gonzalo Vecina Neto, em entrevista à agência russa de notícias Sputnik Brasil, classificou a declaração do presidente como “absolutamente destrutiva”, citando o caso da vacinação de crianças e dos adolescentes.

Por Redação – de São Paulo

A declaração do presidente Jair Bolsonaro sobre não poder “obrigar ninguém a tomar vacina”; além de contrariar lei de fevereiro que prevê vacinação compulsória deu início, em nível nacional, a uma nova onda de repúdio ao mandatário neofascista brasileiro. Na última segunda-feira, ao falar com apoiadores na porta do Palácio da Alvorada, Bolsonaro disse a uma mulher que “ninguém pode obrigar ninguém” a receber a vacina contra a covid-19.

Atrapalhado na hora de usar a máscara higiênica, o presidente Bolsonaro mostra ter dificuldades também para aceitar os riscos da covid-19
Atrapalhado na hora de usar a máscara higiênica, o presidente Bolsonaro mostra ter dificuldades também para aceitar os benefícios da vacina anti-covid-19

O próprio presidente sancionou, em fevereiro, no entanto, uma lei que prevê a vacinação compulsória como medida de enfrentamento da pandemia. Diante dos fatos, o médico sanitarista e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, Gonzalo Vecina Neto, em entrevista à agência russa de notícias Sputnik Brasil, classificou a declaração do presidente como “absolutamente destrutiva”, citando o caso da vacinação de crianças.

— Como é que o presidente de um país pode ir contra a lei? O estatuto da criança e adolescente fala claramente que é crime punível os pais deixarem de fazer a vacinação de seus filhos. Nós temos doenças terríveis ainda circulando no nosso meio, como é o caso da poliomielite. Como é que pode pensar na hipótese de não vacinar a criança? — afirmou.

Novos testes

Ainda segundo o pesquisador, ”o mundo seria um desastre se não fossem as vacinas, ou se tivéssemos vacinas que não fossem seguras”.

— As nossas vacinas todas são extremamente seguras. O resto é ignorância grossa e que tem que ser adequadamente enfrentada — acrescentou.

O especialista, que é fundador e primeiro diretor da Anvisa, observou que se as vacinas que atualmente estão sendo testadas no Brasil com milhares de pessoas passarem nos testes, serão vacinas seguras e eficazes.

— Se elas forem aprovadas, elas serão úteis para crianças e adultos. Será recomendável vacinar? Certamente será recomendável. Vamos começar com crianças? Não. Vamos começar com profissionais da saúde — explicou.

Letra da lei

Segundo afirmou, o grande desafio da vacina contra a covid-19, no Brasil, será administrar a chegada dos lotes depois da produção e a aplicação nos grupos populacionais, de acordo com o que for sendo definido pelas autoridades sanitárias.

No entendimento do governo, embora a vacina não seja literalmente obrigatória, trata-se de um ‘instrumento para volta à normalidade’, segundo o Ministério da Saúde. Mas, para o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe), no entanto, “o parágrafo primeiro do artigo 14 do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) diz que “é obrigatória a vacinação das crianças nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias”.

Além disso, em linha com o professor da USP, o artigo 3º da Lei 13.979, assinada pelo próprio presidente Bolsonaro em fevereiro, diz que “para enfrentamento da emergência de saúde pública (…), as autoridades poderão adotar, no âmbito de suas competências, a determinação de realização compulsória de vacinação ou outras medidas profiláticas”.