Os militares e o espírito castrense

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Publicado sábado, 24 de fevereiro de 2018 as 16:21, por: CdB

Aos militares, todos nós sabemos, compete cumprir missões constitucionais, com competência e disciplina, obedecendo à Presidência da República. Escapa a eles, gostar ou não gostar, aceitar ou não aceitar.

 

Por Maria Fernanda Arruda – de Cárceres, MT.

 

Não têm sido poucos os comentários sobre a “passagem do Rubicon”, experimentada por aquela que havia sido eleita por 54 milhões de brasileiros. Não houve, entretanto, qualquer destaque para a nomeação de Aldo Rebelo, assumindo o Ministério da Defesa, muito menos para as alterações feitas, com a extinção do Gabinete de Segurança Institucional, com status de ministério, e sob comando do general Jose Elito Siqueira.

Maria Fernanda Arruda
Maria Fernanda Arruda é colunista do Correio do Brasil, sempre às sextas-feiras

Pode causar estranheza a nomeação de Aldo Rebelo, por ele ser membro do PCdoB, mesmo quando é sabido, público e notório ele já exerceu por vezes sucessivas mandato enquanto deputado federal, já presidiu a Câmara, já ocupou algumas pastas ministeriais e esteve sempre próximo das gestões do PT na Presidência da República. Atribui-se a ele papel importante na viabilização da “Comissão da Verdade”, atuando junto aos militares, que terão sabido valorizar o seu empenho conciliador.

Casernas

Espírito conciliador foi demonstrado pelo próprio Lula, em seu depoimento junto àquela Comissão, quando cuidou até mesmo de apagar o quanto possível o irmão, o Frei Chico, sindicalista comunista perseguido pela ditadura. Ao que tudo indica, Aldo Rebelo, comunista, é também um conciliador. E graças ao espírito de conciliação, sua aproximação com os militares será aceitável por todos. O Brasil que se arrebente, com tanta conciliação, com tanto afago, com tantos torturadores passeando livres e formosos, hoje já na sua decrepitude nojenta.

Aos militares, todos nós sabemos, compete cumprir missões constitucionais, com competência e disciplina, obedecendo à Presidência da República. Escapa a eles, gostar ou não gostar, aceitar ou não aceitar. Passam a ter obrigação de obediência e devem prestar continência à todos os ministros civis. Tudo muito claro e simples, ainda que não tenha sido nada claro e nem tranquilo ajustar com os militares sobre a lei de anistia e a punição de soldados torturadores.

Crise institucional

Eles não queriam punições, e punições não seriam aplicadas, ora pois. Por que? O que temiam em uma Presidenta e o seu governo? Por que a mesma Autoridade Suprema, ao alterar atribuições dos chefes militares, e não tendo a aprovação deles, tratou de emitir uma “errata”?

É sabido que golpes de força, desfiles de tanques de guerra e armamentos pelas ruas, são eles expressões de força hoje-em-dia impossíveis, e assim mesmo os militares são muito respeitados, algo como um “temor reverencial”. E assim sendo, o que se pode perguntar é: um presidente da República vive um momento de crise institucional, que lhe permitem ignorar descontentamentos dos homens que se vestem de verde?

Ao que parece, os políticos atuais conhecem pouco sobre a cultura castrense, aquela que norteia a vida nos quartéis e dá conteúdo às regras lacônicas do RISG – Regulamento Interno de Serviços Gerais. O RISG determina que o dia começa às 6:00H e acaba à 18:00H. Essa cultura não está presente nos gabinetes de Brasília, mas nas casernas, no “cassino” dos oficiais, onde eles se reúnem em torno de seus interesses, e orientados pelos valores que lhes foram inculcados nas Agulhas Negras.

Bolsonaro

Para os oficiais, os generais, deixando a tropa, tornam-se políticos. Aqui, vale lembrar a esperteza de Golbery do Couto e Silva. Ele conspirava com os empresários, realizava cursos na Escola Superior de Guerra, mas não se esquecia de enviar material “didático” para os quartéis: os capitães são fundamentais na ordem do quartel.

Ora, é sabido o anticomunismo patológico que anima a oficialidade. Um sentimento nascido de 1935, na tentativa de Prestes, desorientado por Moscou, que teria sido um fracasso menor, se Vargas não a tivesse transformado na “Intentona Comunista”. Ano após ano comemorou-se a “vilania” dos comunistas que mataram seus colegas de farda, enquanto dormiam.

Décadas depois, um médico-historiador, Hélio Silva, tratou de provar a farsa mercadológica do Estado Novo. Mas outras águas já tinham corrido e estavam correndo sob a ponte: a “guerra fria” começou a doutrinação dos jovens oficiais ainda nos campos da Itália. Fechou-se o círculo de giz caucasiano. Em 1964, o ódio aos comunistas foi usado e reforçado. Ele é ensinado hoje na AMAN.

Tropa

Leitura feita por quase ninguém, Celso Castro tem uma obra considerável sobre a formação dos militares brasileiros, podendo-se destacar “O Espírito Militar”. O que ele mostra e prova é que os militares brasileiros são submetidos a uma formação de forte conotação fascista, que necessariamente contempla com destaque o ódio ao comunismo, na sua forma a mais tosca e primária.

A recepção recente, mais que calorosa, de Bolsonaro, na AMAN, resume tudo o que se possa comentar sobre a rejeição radical a Aldo Rebelo. Fatalmente, ele terá que subtrair-se a qualquer contato mais próximo com a tropa, e não poderá estar presente nem mesmo em cerimônias oficiais.

O que parece de bom-senso: o Governo do Estado brasileiro precisa realizar um trabalho de longo prazo e profundidade nas academias militares, como único caminho para que haja integração dos militares enquanto cidadãos brasileiros. O caminho para chegar-se a isso não é o da complacência com a tortura e a violência. Também não será a imposição de uma ordem, de um comando, sem que se tenham criado condições para a sua obediência.

Desgoverno

Fatalmente, e muito em função do momento em que foi tomada, a imposição de uma intervenção militar no Rio foi e é extremamente imprudente. A isso, junte-se o fato de grande seriedade que está acontecendo há muito tempo. O que já devia foi feito faz muito tempo, apenas ganha corpo no golpe.

A ABIN, de fato sucessora do lastimável SNI, que está integrada ao Gabinete de Segurança Institucional, sob comando do general Sérgio Etchegoyen, e absorvida pela Secretaria de Governo, sob esta chefia. Novamente agora, há coragem para fazimento de uma das monstruosidades da ditadura.

Se o SNI, monstruosidade comprovadamente incompetente da Ditadura, não foi implodido, alvíssaras. Mais que em tempo deveremos repensar este entulho recorrente dos ciclos totalitários. Que o serviço de segurança prestado pelo general Sérgio Etchegoyen é de qualidade ridícula, as agressões de um débil mental à ex-Presidenta, em diversas ocasiões, mais que prova isso. O que se pergunta: o desgoverno não deveria ter sido afastado imediatamente em seguida? Por que a demora?

O que provoca dúvida não é o cabimento da nomeação de Sérgio Etchegoyen, entenda-se bem, em um golpe, cujos retrocessos são claros. Nem a extinção do SNI e do pomposo Gabinete de Segurança Institucional, com status de Ministério. O que se pode perguntar é: tudo isso deveria ter sido feito enquanto Dilma Rousseff atravessava o Rubicon

O próprio governo golpista não está ocupado em minimizar os riscos do crise institucional e dos intervencionismos pontuais? Açular os militares agora serve a que propósitos?

Maria Fernanda Arruda é escritora e colunista do Correio do Brasil. 

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