A pandemia avança e o presidente diminui

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Publicado terça-feira, 7 de abril de 2020 as 09:42, por: CdB

O antagonismo persistente no governo Bolsonaro se evidencia na discrepância das ações tomadas. Linhas díspares entre o que o Mandetta anuncia nas coletivas e o que os filhos do presidente alimentam no perfil do pai nas redes sociais.

Por Hesaú Rômulo – de Brasília

A pesquisa de opinião divulgada pela XP Investimentos na manhã do último dia 3, referente aos dados coletados entre 30 de março e 1° de abril revela uma tendência de desaprovação da atuação do presidente em relação à pandemia da covid-19, em contraste ao crescimento da aprovação de governadores, do Congresso e principalmente, do ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta. Mas o que significam estas tendências? Quais os sentidos dos números da pesquisa para a política brasileira? É preciso analisar com calma esses números para entender qual é exatamente o cenário que se desenha diante de nossos olhos.

A paralisia decisória, somada ao isolamento político do presidente custam muito caro
A paralisia decisória, somada ao isolamento político do presidente custam muito caro

Antes de começar é preciso explicar que uma pesquisa de opinião é realizada a partir de perguntas anteriormente definidas pelos pesquisadores e a amostra selecionada é que define a confiabilidade dos dados para que se estime a opinião da população em geral. Por exemplo, temos atualmente cerca de 209 milhões de pessoas no Brasil, é necessária uma amostra de mil pessoas, estratificadas de modo a corresponder com as porcentagens que temos por idade, sexo, escolaridade e local, para que os resultados tenham cerca de 97% de confiabilidade, já que 100% temos apenas quando perguntamos a todas as pessoas da população, ou seja, quando se realiza um censo. Em tempos de ataques à Ciência é importante fazer esta ressalva, uma vez que o terraplanismo que assola a Ciência Política é a desconfiança absoluta nas pesquisas, especialmente as de opinião.

Partindo do pressuposto de que estas são confiáveis quando realizadas corretamente, vamos à análise dos dados divulgados. Na posse, o presidente Jair Bolsonaro, tinha 40% de aprovação e e 20% de reprovação, esta balança se inverteu em março de 2020, hoje ele tem 42% de reprovação e 28% de reprovação. As expectativas para o fim de seu mandato são negativas para 37% da população e positivas para 34%. Além disso, com três meses de seu governo apenas 5% dos brasileiros o considerava responsável pela situação econômica, enquanto 53% atribuía a responsabilidade da economia aos governos petistas. Hoje, 19% responsabilizam Bolsonaro pelo contexto econômico e 38%, culpabilizam o PT.

No que diz respeito à atuação dos atores políticos no enfrentamento da pandemia, para a população brasileira os profissionais da saúde são aqueles de maior aprovação e menor desaprovação, seguidos do ministro da saúde e governadores dos estados; por outro lado, o presidente Bolsonaro é o pior avaliado, seguido do Congresso, mas com uma diferença de 19 pontos percentuais. Importante ressaltar que a avaliação positiva do Congresso subiu 5 pontos e a avaliação negativa caiu 12 pontos, ou seja, o legislativo está sendo melhor visto, o que é bastante significativo tendo em vista o descontentamento da opinião pública com as instituições representativas.

A percepção das pessoas sobre a pandemia também mudou, em fevereiro, quase 50% dos entrevistados não estavam com medo do vírus, hoje, apenas 24% responderam isso. Ademais, 94% acredita que a crise sanitária terá impacto negativo sobre a economia, mas 49% tem como maior preocupação se contaminar ou que alguém da família seja contaminado, contra 25% que está mais preocupado com a economia e 24% que está aflito com ambas as questões. Ou seja, diferente do que o presidente tem utilizado como argumento, os brasileiros estão mais preocupados com a saúde do que com a economia, e entendem que ambas são importantes e não devem ser tratadas como antagônicas.

Além disso, 80% das pessoas entrevistadas acredita que o isolamentos social é a melhor forma de se prevenir e tentar evitar o aumento da contaminação pelo coronavírus, novamente, a postura do presidente, que tem pregado um “isolamento vertical” e a volta das atividades econômicas, não traduz os anseios de cidadãos. O que explica em partes a modulação do pronunciamento presidencial dia 31 de março, quando reconheceu a gravidade da pandemia e tentou reverter o impacto negativo do pronunciamento anterior (dia 24 de março quando chamou o coronavírus de gripezinha e resfriadinho).

O antagonismo

O antagonismo persistente no governo Bolsonaro se evidencia na discrepância das ações tomadas. Linhas díspares entre o que o Mandetta anuncia nas coletivas e o que os filhos do presidente alimentam no perfil do pai nas redes sociais. Caminhos tortuosos que colocam incertezas na cabeça dos gestores subnacionais. Não é apenas a população brasileira que aguarda definições, prefeitos e governadores permanecem ansiosos sobre orientações com consistência.

Impactos econômicos

Outro ponto importante é o enfrentamento dos impactos econômicos das medidas sanitárias de isolamento social. O presidente, em seus encontros matinais com apoiadores, tem repetido que devemos todos voltar ao trabalho, que a pandemia é uma chuva e que a economia não suporta 2 ou 3 meses parada, “vai quebrar tudo”. Porém, existem alternativas para a economia, uma delas é a Renda Básica Emergencial, aprovada pelo Senado na segunda-feira, dia 30 de março, e sancionada pelo próprio presidente dia 1° de abril, quarta-feira. Da mesma forma, foi aprovada na noite de 3 de abril a PEC que cria um orçamento de guerra, segregando as despesas emergenciais decorrentes da pandemia. Esta é uma questão que escancara a ambiguidade de Bolsonaro, como ele quer que as pessoas voltem ao trabalho e paralelamente o Congresso aprova uma economia de guerra?

No meio disto tudo, o tempo é um inimigo voraz. Quanto mais tempo se gasta com alinhamentos estratégicos que nunca chegam, o pico de contaminação do vírus se aproxima no Brasil. A paralisia decisória, somada ao isolamento político do presidente custam muito caro. Basta saber até quando ele continuará apostando as vidas dos brasileiros nesse jogo infame. As mudanças na opinião pública indicam que é bom Jair se atentar à gripezinha, porque ela pode lhe derrubar.

Hesaú Rômulo, é cientista político e professor, pesquisa sobre reapresentação política na América Latina.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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