A pandemia e o pandemônio contra o audiovisual brasileiro

Arquivado em: Opinião, Últimas Notícias
Publicado segunda-feira, 10 de agosto de 2020 as 09:54, por: CdB

A fatalidade que se instalou no mundo com a covid-19 trouxe mortes, crise econômica e uma visão incerta de futuro.  No Brasil, já foram computadas 100 mil mortes, mostrando que não se trata de uma gripezinha.

Por Vandré Fernandes– do Rio de Janeiro

A fatalidade que se instalou no mundo com a covid-19 trouxe mortes, crise econômica e uma visão incerta de futuro.  No Brasil, já foram computadas 100 mil mortes, mostrando que não se trata de uma gripezinha.

É quase incompreensível que um governo seja contra um setor que movimentou tanto a economia no último período e gerou milhares de empregos
É quase incompreensível que um governo seja contra um setor que movimentou tanto a economia no último período e gerou milhares de empregos

Alguns setores econômicos tiveram paralisia por completo. É o caso do audiovisual brasileiro.

Mas, antes da pandemia determinar que sets de filmagens seriam suspensos, que as produções teriam que parar e que as salas de cinema, por conta da aglomeração, fossem fechadas provisoriamente, o audiovisual brasileiro já estava sob o ataque do governo Bolsonaro desde 1º de janeiro de 2019.

É quase incompreensível que um governo seja contra um setor que movimentou tanto a economia no último período e gerou milhares de empregos. Para se ter uma ideia, o audiovisual chegou a 1,67% do PIB brasileiro, adicionou mais de R$ 20 bilhões por ano à economia e começou a ter um porte que se compara a indústria têxtil e farmacêutica.

De modo que parece estranho um governo dizer que não quer essa indústria, que não quer esse crescimento econômico.

O pandemônio

Mas não tem jeito, o pandemônio que assumiu para destruir os avanços do último período e entregar nossas riquezas, vive para gerar instabilidade na população através do medo e da apologia às armas, como toda liderança fascista. Seu compromisso com o desenvolvimento do Brasil é nulo.

Nessa toada, Bolsonaro acabou com o Ministério da Cultura, que hoje é apenas uma Secretaria vinculada ao Ministério do Turismo. Paralisou a Ancine, agência responsável pela regulação do setor, e agravou a crise da Cinemateca Brasileira, patrimônio cultural do Brasil, que passa por um grande perigo de incêndio por conta dos filmes em nitrato de celulose, o que seria o fim de parte da nossa memória audiovisual e cultural.

Muitas vezes pressionado, Bolsonaro chegou a dizer que os investimentos para a produção aconteceriam. Mas o que se viu foram afirmações ditatoriais, determinando qual o tipo de filme se deveria fazer e criticando temas como Bruna Surfistinha, ou seja, censurando a liberdade de criação. O fato é que nada funciona e o recurso do Fundo Setorial do Audiovisual está parado e não há mais editais.

Ou seja, nunca se viu o audiovisual tantas dificuldades. Mas era de se esperar. Um presidente que bate continência para a bandeira estadunidense só poderia agir conforme manda a cartilha dos estúdios e produtoras norte-americanas.

História do Brasil

Por várias vezes na história do Brasil, o governo dos Estados Unidos enviou representantes para impor uma política de distribuição e exibição dos filmes hollywoodianos. O próprio Juca Ferreira, ex Ministro da Cultura, relatou no evento “Diálogos Nacionais: Cinema e Audiovisual” que certo dia recebeu 10 senadores americanos preocupados com o incentivo que o governo dava para as produções brasileiras, e se ele não recuasse, teria sérias consequências. O fato é que Juca não recuou e peitou os gringos.

Isso é só mais um fato. Desde 1930, tem sido recorrente a forte pressão dos Estados Unidos contra a produção cinematográfica brasileira.

E se o ano de 2019 foi de interrogações do setor, com o Covid19, tudo parou.

Outra preocupação situa-se nas salas de rua ou de programação alternativa. Do Maranhão, com a Sala Lume, ao Belas Artes, de São Paulo, várias salas correm o risco de desaparecer para sempre. A gente sabe que é muito difícil o cinema independente ocupar complexos das salas de shoppings. Se ocorrer a falência desses lugares de exibição, os filmes brasileiros terão dificuldades para serem exibidos.

Bem, a pandemia está aí e não sabemos quando teremos uma vacina para ela. Não sabemos quando voltaremos a produzir filmes. Mas uma coisa é certa, precisamos nos unir, resistir e lutar para que as conquistas do audiovisual não se percam. E aí só tem um jeito: é preciso tirar o pandemônio do poder.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

Vandré Fernandes, é cineasta.