Para analistas, discurso de Bolsonaro piorou imagem do país

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Publicado quarta-feira, 25 de setembro de 2019 as 15:09, por: CdB

O cientista político Carlos Melo disse que o discurso de Bolsonaro “é de uma bajulação constrangedora a Donald Trump.

Por Redação, com DW – de Brasília

Em vez da tão esperada participação conciliatória na abertura da Assembleia Geral da ONU, Jair Bolsonaro atirou para todos os lados com seu discurso, depois de semanas de ataques na mídia mundial devido ao desmatamento e as queimadas na Amazônia. Ninguém foi poupado, nem a Cuba comunista nem a Venezuela socialista, tampouco os países europeus com seu “colonialismo”.

Para cientista, Bolsonaro também mentiu ao abordar o acordo de livre-comércio da UE com o Mercosul

Sequer a própria Organização das Nações Unidas saiu ilesa: ela teria cooperado na exploração de médicos cubanos no Brasil durante o programa Mais Médicos (2013-2018). Além disso, em ocasiões semelhantes a ONU teria sempre aplaudido seus antecessores “socialistas”, denunciou o presidente brasileiro.

– Bolsonaro dobrou a aposta. Ele foi absolutamente consistente com o que tem feito e dito antes – resumiu o cientista político e professor do Insper Carlos Melo, em conversa com a DW: “Ele reafirmou todo um rol de questões, a meu ver irrelevantes e menos importantes, e que ele tem colocado aí nos últimos tempos, como forma de fugir de questões mais concretas.”

– Ele fala do atentado [contra ele, em 2018], agradece a Deus por sua vida e se martiriza como se fosse um herói. Depois entra naquela coisa surrada do socialismo, compara com a Venezuela e com Cuba, como se o mundo estivesse vivendo um clima de Guerra Fria – analisou Melo.

O cientista político Sérgio Praça, da Fundação Getúlio Vargas, expressou opinião semelhante: “Se a gente estivesse em 1966 no Brasil, o que neste discurso estaria fora do lugar? Talvez só a questão ambiental. De resto, caberia perfeitamente em 1966 a questão da guinada liberal na economia, a corrupção supostamente socialista, o medo de Cuba. É um discurso que está mais que 50 anos fora de lugar.”

Praça disse ver Donald Trump como “pai intelectual” do discurso agressivo de Bolsonaro. “Não sei se um discurso desses teria sido feito, se o Trump não fosse presidente. Acho que a presença do Trump como presidente dos Estados Unidos hoje dá força e encoraja esse tipo de discurso.”

Enquanto buscou o confronto com a Europa, principalmente com a França e a Alemanha sobre diferenças na proteção florestal, Bolsonaro enfatizou o que acredita serem as boas relações com os EUA de Trump.

Foi impressionante até que ponto os discursos de Bolsonaro e Trump tiveram pontos em comum quanto ao seu antiglobalismo e às críticas aos costumes progressistas, apontou Melo, para quem o discurso de Bolsonaro “é de uma bajulação constrangedora a Donald Trump. Bolsonaro sai desse discurso como uma imitação do Trump, como pastiche, uma imitação mal feita.”

Ao mesmo tempo, Bolsonaro atacou Emmanuel Macron, depois de o presidente francês ter considerado uma internacionalização da Amazônia para a proteção da floresta local.

– É uma falácia dizer que a Amazônia é patrimônio da humanidade e um equívoco, como atestam os cientistas, afirmar que a nossa floresta é o pulmão do mundo – bradou Bolsonaro.

– Valendo-se dessas falácias, um ou outro país, em vez de ajudar, embarcou nas mentiras da mídia e se portou de forma desrespeitosa, com espírito colonialista. Questionaram aquilo que nos é mais sagrado: a nossa soberania! – falou.

A suspeita de colonialismo não é uma invenção dos bolsonaros, mas parte da narrativa tradicional, lembra o cientista político Melo.

– É um pouco do ufanismo do Brasil de achar que é um país maravilhoso, riquíssimo e que, portanto, o inimigo estrangeiro tenderia a tomar do Brasil. Isso está nos discursos dos militares como, também, no discurso da esquerda, porque são ambos nacionalistas. É um discurso surrado que não faz muito sentido, pois Bolsonaro faz um discurso de alinhamento tão grande com os EUA que não é coerente com esse discurso da soberania – disse.

Também a “bronca nos globalistas”, dada tanto por Bolsonaro quanto Trump, não seria uma coincidência, afirma Melo. Afinal de contas, na véspera do discurso, Eduardo Bolsonaro, filho do presidente brasileiro, encontrou-se com o ultradireitista americano Stephen Bannon, iniciador da organização populista O Movimento, à qual o rebento de Bolsonaro também pertence, aponta o cientista político.

Tampouco o ataque aberto de Bolsonaro ao “ambientalismo radical” e a líderes indígenas surpreendeu Melo. Segundo Bolsonaro, “muitas vezes, alguns desses líderes, como o cacique Raoni, são usados como peça de manobra por governos estrangeiros na sua guerra informacional para avançar seus interesses na Amazônia”.

– É um discurso de uma conspiração de mídia internacional, com ONGs e indígenas, e isso não bate com o mundo moderno – diz Melo.

– Mas ele não cita grileiros, não cita os maus agricultores, não explica os dados do Inpe, não explica aquela chuva de fuligem em São Paulo. Mas ataca o Raoni – observa o professor do Insper.

– Tem coisas no discurso que são uma vergonha para os brasileiros, e outras coisas que são uma ameaça mundial – diagnostica Praça.

Para ele, o mais preocupante seria o negacionismo climático expresso no discurso presidencial: “É irresponsável tratar o meio ambiente como uma questão ideológica nesta altura, ele merece ser julgado internacionalmente por isso.”

– É a pior coisa do discurso dele, porque tratar a Amazônia desse jeito nacionalista e defensivo é perigoso para o planeta – aponta Praça.

– Vai levar anos depois para reverter, e, neste sentido, Bolsonaro é mais perigoso que Trump, porque a Amazônia está no Brasil, e não nos Estados Unidos – completou.

Segundo Melo, Bolsonaro reservou muito pouco espaço para a economia brasileira em seu discurso. Provavelmente porque “não tem muito que falar de economia, pois aconteceu pouco”, e também nada se vê do esperado boom, diz o professor do Insper.

– Bolsonaro indica um sucesso econômico que ainda não teve, e ninguém sabe se terá. E ele se debruça sobre a popularidade de Sergio Moro, com quem ele tem diferenças muito sérias – disse o cientista.

Bolsonaro também mentiu ao abordar o acordo de livre-comércio da UE com o Mercosul.

– Ele disse que consolidou o acordo. Não é verdade, pois é um acordo que vem sendo negociado por mais de 20 anos, e é apenas uma indicação que ele poderia ser efetivado agora dadas algumas condições que ele não tem cumprido. E também dependeria da concordância dos países da União Europeia, que não querem concordar – observou.

– Apresento aos senhores um novo Brasil – prometeu Bolsonaro no início de seu discurso. Ele cumpriu o prometido? “Esse discurso ameniza e recupera a imagem internacional do país? Acho que não”, julga Carlos Melo.

– É um discurso em que ele não consegue reconstruir a imagem do Brasil no cenário internacional, um discurso de teimosia, em que ele quer dizer que tudo o que fez foi absolutamente correto, certo e generoso, e que tudo se resume às mentiras da mídia. A mídia é mentirosa e o mundo conspira contra Bolsonaro: aí tem mais uma semelhança com o Trump – concluiu o cientista político.

“I love you”

De acordo com o jornal carioca O Globo, nesta terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro disse “eu te amo” para o presidente dos Estados Unidos. A cena aconteceu em uma sala reservada após seu discurso na tribuna da ONU.

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