Paraisópolis e a cultura de violência policial

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Publicado sexta-feira, 6 de dezembro de 2019 as 09:16, por: CdB

No momento em que ganha relevância o tema da violência e se discute no Congresso Nacional o controvertido pacote anticrime apresentado pelo ministro da justiça Sergio Moro, policiais militares paulistas, mais uma vez, se notabilizam pelo uso exagerado da violência.

Por Wadson Ribeiro – do Rio de Janeiro

Dessa vez, as vítimas foram nove jovens entre 14 e 24 anos executados na comunidade de Paraisópolis na madrugado do último sábado enquanto participavam de um baile funk. Esse episódio comprova o total descaso da segurança pública de São Paulo com a defesa da vida humana e expõe a face autoritária, truculenta e despreparada da PM.

Os índices de guerra que o Brasil apresenta podem se agravar com o pacote anticrime em discussão no Congresso
Os índices de guerra que o Brasil apresenta podem se agravar com o pacote anticrime em discussão no Congresso

O Brasil tem uma taxa de homicídios de 30 para cada 100 mil habitante. O índice considerado pela ONU para que um país esteja abaixo da linha endêmica de homicídios é de 11, ou seja, no Brasil, as taxas equivalem ao triplo da tolerável.

O Brasil registrou cerca de 64 mil homicídios em 2018, na sua maioria homens, jovens e negros das periferias das grandes cidades. Por outro lado, 367 policiais também foram mortos na maioria dos casos fora de serviço, em “bicos” ou mesmo em folga. Esse quadro também evidencia uma tragédia, pois não pode ser natural o homicídio de policiais. Aliás, em muitos países, especialmente no Continente Europeu, não há homicídios de policias há anos.

Guerra

Os índices de guerra que o Brasil apresenta podem se agravar com o pacote anticrime em discussão no Congresso. Por exemplo, a aprovação do excludente de ilicitude dará mais poderes para que policiais ajam como fizeram em Paraisópolis. O elo mais fraco dessa cadeia é justamente a população pobre. Uma verdadeira política de segurança pública tem que levar em conta mais investimentos nas áreas sociais como educação, moradia, saneamento, saúde, bem como combater a miséria e gerar empregos. Apenas a repressão não resolve o problema, ao contrário, torna a sociedade mais violenta.

A ação policial em Paraisópolis é injustificável. A polícia, para a sua própria segurança e para a segurança daqueles que estavam no baile funk, não poderia ter adentrado na comunidade jogando viaturas policias em cima da multidão e bombas para dispersar a aglomeração.

Tão pouco, uma ação que visa garantir a segurança contra eventuais bandidos que estavam sob perseguição pode resultar na morte de nove jovens. A polícia agiu como um bando armado que entra na comunidade e sai executando e quebrando tudo o que vê pela frente. Agiu de forma covarde e preconceituosa contra uma comunidade que precisa da presença do Estado no dia a dia e não apenas para reprimir bailes funks e tirar a vida de seus filhos.

Precisamos criar uma cultura de paz em todas as esferas da vida nacional. O Brasil não pode ser uma República governada pelo ódio que alimenta a violência policial e que transforma trabalhadores e jovens em vítimas.

Quem lucra com essa guerra é quem antagoniza a polícia de um lado e o povo do outro. Essa guerra não é do policial que é explorado trabalhando em condições de alto desgaste físico e emocional, tampouco do povo humilde e trabalhador que tem morrido. A violência no Brasil como tal, somente interessa a meia dúzia de políticos ultraconservadores e à indústria bélica que lucra com um país com índices de guerra.

Wadson Ribeiroé presidente do PCdoB-MG, foi presidente da UNE, da UJS e secretário de Estado.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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