Perfil: Antônio Carlos da Fontoura – Descomplicado

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Publicado quarta-feira, 22 de agosto de 2018 as 22:28, por: CdB

Após 50 anos da estreia do longa que marcou sua carreira, o cineasta Antônio Carlos da Fontoura  fala sobre os desafios da produção audiovisual no Brasil; o novo cenário cinematográfico a partir do fenômeno do streaming, entre outras pautas.

Por Carla Nogueira – Rio de Janeiro

 

Em uma esquina de Rio Comprido, bairro da Zona Central carioca, Antônio Carlos da Fontoura trabalha em sua produtora; onde mantém em destaque o cartaz de seu filme: Copacabana me Engana.

Antonio Carlos Fontoura, na entrevista à repórter Carla Nogueira, em sua produtora no Rio Comprido
Antonio Carlos Fontoura, na entrevista à repórter Carla Nogueira, em sua produtora no Rio Comprido

Com voz calma, rodeado de livros e objetos da cultura pop, o diretor e roteirista do clássico de 1968 diz que o filme foi inspirado nas situações que “ele via em sua esquina”. Não considera o filme uma autobiografia, mas que o protagonista, o bon vivant e conservador Marquinhos, era alguém que ele poderia ter se tornado.

Após 50 anos da estreia do longa que marcou também o início de sua carreira, o cineasta  —  formado em Geologia  —  fala sobre os desafios da produção audiovisual no Brasil; o novo cenário cinematográfico a partir do fenômeno do streaming; os planos de adaptação de seu romance Alma. E, quando questionado sobre o segredo de continuar produzindo aos 78 anos, declara:

— É que eu não complico muito as coisas.

— O senhor é formado em Geologia. Como o Cinema entrou na sua vida profissional?

— Não tinha a menor vontade de ser geólogo. Fiz Geologia por causa da minha família; meu pai queria ter um filho “sério”. Eu tinha, na verdade, vontade de ser romancista. Desde os 12 anos de idade, sou apaixonado por livros. Eu chegava em uma casa e procurava a biblioteca. O que me caísse na mão, eu lia. Então, veio essa vontade de ser escritor, mas eu não tinha incentivo para isso. As duas outras coisas que eu adorava eram o jazz e as artes plásticas. O cinema era a única coisa que juntava as três.

— Como foi a experiência do seu primeiro trabalho cinematográfico com Eduardo Coutinho no filme Cabra Marcado Pra Morrer, em 1964?

— Antes disso eu não tinha a menor vontade de ser cineasta. Mas eu li no jornal: “Documentarista sueco Arne Sucksdorff está no Brasil para dar um curso sobre Cinema Direto”, achei interessante, fui um dos alunos e aprendi muita coisa. Quando o Coutinho foi fazer o “Cabra Marcado” no final de 64, eu fui de assistente dele.

A missão era, durante o dia, conversar com os camponeses para pegar o estilo de linguagem deles e, dentro do que o Coutinho queria, eu escrevia o que o camponês falava. Era tudo no Engenho Galileia, em Vitória de Santo Antão lá no interior de Pernambuco. Fiquei trabalhando nisso até que no dia 31 de março eu tinha ficado doente e fui ao médico em Recife.

Nossa base na capital era em um andar ligado ao MPC, Movimento Popular de Cultura do Recife, voltado para o Palácio (do Campo das Princesas). Vimos chegar um monte de soldados para prender o Miguel Arraes. Nisso, o exército cercou o set de gravação. Acabou o filme. A ideia que o fotógrafo, Fernando Duarte, teve foi de enterrar os negativos do filme envolvidos em plástico para que eles não apreendessem.

Como o engenho era muito grande, cada um fugiu para um lado e arranjou um jeito de sair. Só muitos anos depois eles voltaram, porque antes não tinha chance.

— Falando de Copacabana me Engana que foi o seu primeiro longa, na época da produção o senhor era morador desse bairro. Teve alguma questão autobiográfica nesse filme?

 — Antes, fiz dois curtas-metragens que adoro. Heitor dos Prazeres sobre um pintor e sambista que conhecia toda história da chamada Pequena África, foi o primeiro filme que coloquei em prática. Depois, apareceu na minha vida jovens artistas que fizeram uma exposição na Galeria G4 e que hoje se tornaram grandes figuras do cenário brasileiro.

Fiz um filme sobre eles: Ver e Ouvir. Esses dois filmes me propiciaram a segurança para fazer um longa-metragem, E fiz o Copacabana… Que era biográfico. Não exatamente da minha vida, mas da vida de uma pessoa que eu podia ter sido. A minha família era bem conservadora, o tipo de família que podia ter ido na Marcha da Família Pela Liberdade. Não foram, porque nem para isso eles se metiam.

Eu quis fazer um filme sobre alguém que não tinha nenhuma perspectiva de vida, que não sabia o que ia fazer e que sonhava em ser bacana como os americanos. Ele sonhava com a grandiosidade do sonho que não era o dele.

— Após outros sucessos de bilheteria como, por exemplo, A Rainha Diaba (1974) e Cordão de Ouro (1977), o seu trabalho passou a ser na produção de programas de TV. Como foi essa experiência?

No meio do caminho, depois de Cordão de Ouro, eu me desencantei com o cinema. Agora talvez já tenham produtoras que mantêm linhas de produção, mas cada filme era como se fosse o seu primeiro filme. Começava tudo de novo. O sucesso de um filme não garantia que você fizesse o próximo.

Fazer sucesso era mal visto, era todo mundo artista. Isso em certo sentido me desanimou, porque meu primeiro filme fez um milhão de espectadores. Uma coisa espantosa. Um filme do cinema novo fazia 20 mil. Resolvi me tornar escritor de televisão, adaptei uma história da Clarice Lispector para um especial e o produtor da série gostou muito.

Eu queria dirigir e ele disse: “dirigir você não vai. Na televisão você vai ser escritor. Diretor de cinema quando se mete em televisão se atrapalha todo”. O Domingos de Oliveira foi antes de mim para a TV para desenvolver uma ideia do Luiz Carlos Maciel que era Ciranda, Cirandinha.

Comecei a tentar convencer o Daniel Filho, que era o diretor geral, de que eu podia dirigir. Ele cedeu e me deixou dirigindo, porque tendo chance, ele pulava fora. Depois me chamaram para o Plantão de Polícia e foi quando eu surtei, porque eu escrevia e dirigia um episódio por mês.

Estava confuso e pedi para trabalhar com Os Trapalhões. Trabalhei escrevendo para eles por três meses, mas eu sentia que não tinha o “taco” para isso. É rotina circense e eu não dominava o circo. Sai da Globo para voltar para o cinema, mas depois do fechamento da Embrafilme, eu voltei para a televisão.

Depois de passar um ano no SBT e um ano na Band, eu ainda estava meio desiludido com o cinema e a Globo me chamou para fazer o Você Decide. Eu fiquei oito anos escrevendo e dirigindo. Eu não aguentava decidir mais nada na minha vida, mas foi ótimo e eu aprendi muita coisa.

— Como o senhor encara as mudanças no mundo cinematográfico após o surgimento do streaming?

— Eu tive uma vitória recentemente que foi o Somos Tão Jovens. Foi a quinta bilheteria de um filme brasileiro em 2013. Uma façanha, ainda mais porque as pessoas acham “esse cara já deu o que tinha que dar”. Quando eu gravei eu estava com 72 anos e quando lancei com 75. Então, isso me deu uma posição boa para ter novos projetos.

Eu não sou o único, o Ruy Guerra com 86 anos está dirigindo filme. Eu estou estudando muito série de televisão e apresentei um projeto para a Netflix, que foi recusado. O mesmo projeto eu apresentei para a Amazon e eles estão avaliando. É uma série sobre terrorismo no Brasil.

— Qual a sua opinião sobre a geração que surge com esse novo cenário?

— Uma coisa que a nova geração ainda não aproveita tanto é a mobilidade que o cinema pode ter hoje. Você pode abandonar essas equipes enormes. Em Somos Tão Jovens, por exemplo, eu tinha umas 100 pessoas na equipe e perguntava: “o que você está fazendo no meu filme?”.

Agora, você consegue fazer filmes digitais com equipes compactas como o (Jean-Luc) Godard fez À Bout de Souffle. Ele tinha uma câmera, quatro amigos, os atores, uma ideia que nem muito escrita estava e isso eu acho que os jovens cineastas podem fazer. Uma renovação da linguagem mais do que tudo.

— Um longa do baseado no seu livro “Alma” está em pré-produção. Quais são os planos para esse novo projeto?

— Eu não tenho certeza de quando o Alma será feito. A Ancine está fechada para balanço. O Tribunal de Contas está acusando a gestão anterior de ser temerária, de ter feito coisas que não podia ter feito. Está querendo bloquear as contas até a prestação de contas dos anos de 2016/17.

Isso é uma tragédia para o cinema brasileiro. A gestão do Manuel Rangel merece certamente muita punição, foi um horror. Que façam as verificações necessárias, mas não deixem o cinema parar. Eu também estou bolando um filme complicadíssimo, porque é muito caro. Seria um filme internacional que se passa 70% em Paris. Esse então, é um sonho impossível. Se eu fizer esse filme, eu paro, vou cuidar das alfaces no meu sítio e pronto.

— Há algum segredo para continuar produzindo e trabalhando após tantos anos de carreira?

— Tem duas coisas que qualquer pessoa desse meio tem que ter. Persistência, eu sou persistente e teimoso, então por que eu vou parar? A outra é uma palavra da moda, resiliência. Esses são os segredos e o que eu acho, particularmente, é que eu tenho uma total curiosidade por tudo.

Eu conheço cada coisa. Não é que procuro, mas eu não paro de viajar na rede. Outra coisa que deve me ajudar é que eu não complico muito as coisas. Por isso, minha produtora se chama Canto Claro. Quer dizer, um lugar iluminado, mas também quer dizer uma linguagem clara.

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