Pesquisa associa covid-19 a doença inflamatória em crianças

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Publicado quinta-feira, 14 de maio de 2020 as 10:15, por: CdB

Pesquisadores na Itália apontam relação entre coronavírus e enfermidade que provoca inflamação dos vasos sanguíneos. Mais de 100 casos do tipo foram reportados em Nova York, resultando na morte de três crianças.

Por Redação, com DW – de Roma/Nova York

Pesquisadores italianos divulgaram um estudo que relaciona o coronavírus Sars-Cov-2 a uma condição que remete à doença de Kawasaki, enfermidade de causa desconhecida que afeta sobretudo crianças menores de cinco anos, inflamando vasos sanguíneos por todo o corpo.

Doença inflamatória atinge principalmente crianças e tem sintomas como febre alta, erupções cutâneas e inchaço de glândulas
Doença inflamatória atinge principalmente crianças e tem sintomas como febre alta, erupções cutâneas e inchaço de glândulas

O estudo, publicado na quarta-feira na revista científica The Lancet foi realizado por pesquisadores da província de Bérgamo, no norte da Itália, região que registrou a maioria dos casos e de mortes por covid-19, doença causada pelo coronavírus, no país.

Os pesquisadores relataram ter encontrado um aumento de 30 vezes na incidência de condições similares à doença de Kawasaki em pacientes examinados num hospital de Bérgamo entre fevereiro e abril.

“A epidemia de Sars-Cov-2 foi associada à alta incidência de uma forma grave da doença de Kawasaki. Um surto semelhante é esperado em países atingidos pelo vírus”, diz um trecho da publicação.

A enfermidade inclui sintomas como febre alta, erupções cutâneas, inchaço de glândulas, choque tóxico e, em casos graves, inflamação das artérias, podendo ser mortal. Houve vários relatos de quadros com esses sintomas na Europa e nos EUA.

Um garoto de 14 anos, sem doenças pré-existentes, morreu após apresentar sintomas similares à doença de Kawasaki, comunicou o hospital infantil Evelina, de Londres, nesta quarta-feira. O adolescente fez parte de um grupo de oito casos tratados no hospital durante um período de 10 dias em abril. O garoto passou seis dias em terapia intensiva e testou positivo para covid-19 após a morte.

O hospital já tratou cerca de 50 crianças com a doença causada pelo coronavírus, segundo a diretora médica Sara Hanna, e metade delas recebeu alta.

O secretário de Saúde do Reino Unido, Matt Hancock, disse no mês passado que especialistas estão investigando a nova síndrome em crianças “com grande urgência”, mas enfatizou se tratar de algo raro.

Mais de 100 casos somente em Nova York

Nos Estados Unidos, mais de 100 casos classificados por médicos como “síndrome inflamatória pediátrica multissistêmica” foram relatados somente no estado de Nova York. Ao menos três crianças morreram de complicações, segundo relatou a emissora NBC News na quarta-feira.

As três crianças testaram positivo para covid-19 ou tinham anticorpos contra o Sars-Cov-2, sugerindo que a síndrome é relacionada ao coronavírus. Ela pode ocorrer de dias a semanas depois da infecção pelo vírus.

O governador de Nova York, Andrew Cuomo, disse na quarta-feira que outros 14 Estados americanos estão investigando casos similares e alertou que os pais devem “estar cientes” da doença misteriosa.

O médico-chefe do Centro Médico Infantil de Connecticut, Juan Salazar, relatou que aparentemente a enfermidade similar à doença de Kawasaki se manifesta de a duas a quatro semanas depois que uma criança se recuperou da covid-19, muitas vezes sem nunca ter sido diagnosticada com a infecção.

A uma comissão do Senado americano, o especialista em doenças infecciosas Anthony Fauci disse na terça-feira que crianças em geral apresentam um quadro melhor que o de adultos e idosos ao contrair o Sars-Cov-2, mas também alertou que ainda há muito a aprender sobre o vírus.

– Por exemplo, agora, há crianças registradas com covid-19 que realmente têm uma síndrome inflamatória muito estranha e muito semelhante à doença de Kawasaki – disse Fauci. “Acho melhor tomarmos muito cuidado para não sermos descuidados ao pensar que as crianças são completamente imunes aos efeitos deletérios.”

Os pesquisadores

No estudo publicado na The Lancet, os pesquisadores italianos enfatizaram que a enfermidade similar à doença de Kawasaki “continua sendo uma condição rara, provavelmente afetando não mais do que uma em cada mil crianças expostas ao Sars-Cov-2”.

Relatada pela primeira vez no Japão há mais de 50 anos pelo pediatra japonês Tomisaku Kawasaki, a doença de Kawasaki ainda não tem uma causa desconhecida. Segundo a The Lancet, a hipótese mais aceita é que o sistema imunológico apresenta uma “resposta aberrante” a um patógeno.

“Nos últimos 20 anos, os vírus da família dos coronavírus foram propostos como possivelmente implicados na patogênese da doença de Kawasaki”, segundo a publicação científica.

Coronavírus pode nunca ser erradicado

O coronavírus Sars-cov-2 talvez nunca seja erradicado, e as populações do mundo todo terão que aprender a conviver com ele, alertou a Organização Mundial da Saúde (OMS) na quarta-feira, quando o número de mortos pela pandemia já se aproxima de 300 mil.

Enquanto alguns países começam a aliviar gradualmente as medidas restritivas impostas para conter o avanço do vírus, a OMS afirmou que existe a possibilidade de ele nunca ser totalmente eliminado. Surgido na China em dezembro de 2019, o Sars-cov-2 já infectou mais de 4,3 milhões de pessoas em 188 países e regiões, a maioria delas nos Estados Unidos e na Europa.

– Temos um novo vírus se inserindo na população humana pela primeira vez e, portanto, é muito difícil prever quando o venceremos – disse Michael Ryan, diretor de emergências da OMS, em coletiva de imprensa virtual em Genebra.

– É importante deixar isso claro: esse vírus pode se tornar apenas outros vírus endêmico em nossas comunidades, e pode nunca mais desaparecer – acrescentou. Como exemplo, ele mencionou que o HIV nunca deixou de existir, mas a humanidade aprendeu a lidar com o vírus.

Ryan reconheceu que o mundo demonstrou que a crise de covid-19 pode ser controlada, mas alertou que isso exigirá um “esforço maciço” de líderes e da sociedade, mesmo que uma vacina seja encontrada. Ele lembrou que vacinas existem para outras doenças que nunca foram erradicadas, como o sarampo.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, acrescentou: “A trajetória (do surto) está em nossas mãos, é um problema de todo mundo, e todos nós devemos contribuir para acabar com esta pandemia.”

Na mesma coletiva, a epidemiologista da OMS Maria Van Kerkhove afirmou, por sua vez, que o mundo “precisa ter em mente que levará algum tempo até a pandemia acabar”.

Mais da metade da população mundial foi colocada em quarentena desde o início da crise do coronavírus, que já dá sinais de alívio em vários países, em meio a quedas nas taxas de contágio. A OMS, contudo, pede cautela e alerta que não há como garantir que o relaxamento das restrições não desencadeará uma segunda onda de infecções.

– Muitos países gostariam de abandonar as diferentes medidas (de contenção) – disse Tedros. “Mas nossa recomendação é de que o nível de alerta em qualquer país seja o mais alto possível, e que todas as medidas tomadas sejam graduais.”

Ryan acrescentou que ainda há um “longo caminho a percorrer” até o retorno à normalidade e insistiu que as nações mantenham seu curso no combate à pandemia.

– Existe um pensamento mágico de que as quarentenas funcionam perfeitamente e de que suspender as quarentenas ocorrerá de uma forma ótima. Ambos (pensamentos) são repletos de perigos – disse o epidemiologista.

Em alerta aos países preocupados com os impactos econômicos da pandemia, ele afirmou que, nesse sentido, seria pior sair do confinamento e ter de voltar a ele por falta de medidas de precaução.

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