Polícia Civil analisa imagens de atentado contra ‘Porta dos Fundos’

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Publicado quinta-feira, 26 de dezembro de 2019 as 11:05, por: CdB

Câmeras registraram momento em que homens encapuzados lançaram coquetéis molotov contra produtora. Grupo que diz seguir o integralismo reivindicou ataque.

Por Redação, com DW e ABr – do Rio de Janeiro

A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga a participação de um grupo que diz seguir o integralismo, um antigo movimento extremista brasileiro dos anos 1930 inspirado no fascismo italiano, no atentado contra a sede da produtora do canal Porta dos Fundos. O ataque ocorreu na madrugada de terça-feira.

Imagens do ataque contra 'Porta dos Fundos' mostram 3 agressores
Imagens do ataque contra ‘Porta dos Fundos’ mostram 3 agressores

O grupo “Comando de Insurgência Popular Nacionalista da Grande Família Integralista Brasileira”, assumiu, em vídeo que circulou em nichos católicos, nas últimas horas, o atentado terrorista contra o Porta dos Fundos. O material foi publicado pelo canal Ursal Network e retirado do ar no início da madrugada desta quinta-feira, mas ainda era possível encontrá-lo em outros canais no YouTube quando se pesquisa exatamente pelo nome do grupo.

A Polícia Civil já conseguiu identificar que ao menos quatro homens participaram do ataque à produtora do canal de humor Porta dos Fundos. Segundo o delegado titular da 10ª Delegacia de Polícia (Botafogo), Marco Aurélio de Paula Ribeiro, já se sabe quais são as características físicas dos suspeitos, mas ainda não há conclusão sobre a identidade deles.

O delegado participou nesta manhã de uma reunião com representantes do canal de humor e o subsecretário de Planejamento e Integração Operacional da Polícia Civil, Fábio Barucke, na sede da corporação, no centro do Rio de Janeiro.

Marco Aurélio de Paulo Ribeiro informou que foram identificados os donos de um carro e uma motocicleta usados durante o ataque, que está sendo tratado como um crime de explosão e uma possível tentativa de homicídio, já que um vigilante da produtora, que estava na portaria, sofreu risco de morrer.

O enquadramento do caso na Lei Antiterrorismo não foi descartado, segundo os delegados que estiveram na reunião e atenderam à imprensa no início da tarde de hoje. “O terrorismo, a princípio, não foi classificado, mas não descartamos qualquer hipótese”, disse Fábio Barucke. “Temos que trabalhar com os fatos até então acontecidos. Foi uma explosão dentro de uma unidade particular e que gerou perigo concreto à vida de uma pessoa que estava no local e sofreu, de fato, uma tentativa de homicídio.”

O subsecretário da Polícia Civil destacou que a corporação vê o caso como de extrema gravidade e mobilizou uma força-tarefa para solucioná-lo, o grupo envolve também a Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI). A delegacia especializada já está produzindo provas para chegar à autoria do ataque, que foi filmado e publicado nas redes sociais supostamente por um grupo que se identifica como integralista e ainda está sob investigação da polícia. Segundo Barucke, o grupo que teria reivindicado a autoria dos ataques no vídeo nega relação com o ocorrido.

– O vídeo é verídico. O que não se sabe é se realmente foi o grupo que fez. O grupo integralista diz que não é deles – disse Barucke, que espera que a responsabilização intimide ações semelhantes. “Julgamos importante, além de responsabilizar pelo fato já produzido, inibir ações futuras que esse grupo possa estar planejando.”

O vídeo mostra três homens com rostos cobertos por toucas à frente de uma bandeira com o símbolo do integralismo. Um deles, sentado atrás de uma mesa onde está estendida um antiga bandeira do Império brasileiro, lê uma espécie de manifesto.

Coquetéis molotov

A leitura é acompanhada de imagens de homens lançando coquetéis molotov contra a fachada de um prédio. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, as imagens são mesmo do ataque contra a produtora.

No mesmo vídeo, um homem encapuzado lê com uma voz distorcida uma declaração em que o grupo reivindica a autoria do atentado, afirmando que foi uma “ação direta revolucionária” que ”buscou justiçar o povo brasileiro contra a atitude blasfema, burguesa e antipatriótica”.

“Temos o prazer de declarar que as inquietações advindas do espírito popular hoje foram parcialmente satisfeitas. O Porta dos Fundos resolveu fazer um ataque contra a fé do povo brasileiro se escondendo atrás do véu da liberdade de expressão”, diz um trecho do manifesto.

O grupo de humor vinha sendo alvo de críticas de religiosos nas últimas semanas após a produção do Especial de Natal do Porta dos Fundos, exibido pelo serviço de streaming Netflix. No especial, que foi levado ao ar no dia 3 de dezembro, os humoristas satirizam Jesus e Maria. O fundador do cristianismo é retratado como um homossexual. Maria, como adúltera e usuária de drogas. O fato de Jesus ter sido retratado como gay despertou a ira de vários grupos religiosos.

Após a divulgação do especial, surgiram petições para retirar o programa do ar. Vários líderes religiosos entraram com ações pedindo a suspensão. Um pedido chegou a ser endossado por uma promotora do Rio de Janeiro, mas acabou sendo negado por um juiz.

Ataque

Na noite de terça-feira, véspera de Natal,  dois coquetéis molotov foram atirados contra a da sede da produtora do grupo de humor, no Rio de Janeiro. O Porta dos Fundos informou que o fogo foi contido graças à ação rápida de um segurança do edifício, que conseguiu controlar o incêndio. Ninguém ficou ferido.

Segundo o UOL, Imagens de câmeras de segurança registraram o ataque. Eles mostram o momento em que pelo menos três pessoas, duas em uma caminhonete, uma em uma motocicleta, atiram os coquetéis molotov.

Após o ataque, o humorista Fábio Porchat, um dos integrantes do grupo, disse, em sua conta no Twitter, que o ataque não vai intimidar os comediantes. “Não vão nos calar. Nunca! É preciso estar atento e forte”.

Já a assessoria do grupo informou que o “Porta dos Fundos condena qualquer ato de ódio e violência e, por isso, já disponibilizou as imagens das câmeras de segurança para as autoridades, para o secretário de Segurança, e espera que os responsáveis pelos ataques sejam encontrados e punidos”.

Na manhã desta quinta-feira, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, comentou o ataque à produtora e disse que “a via correta para buscar qualquer eventual reparação” é o Poder Judiciário. “Queremos, no prazo mais rápido possível, encontrar os autores dessa espécie de atentado e dar imediatamente à sociedade às respostas necessárias”, disse o governador a jornalistas no Palácio Guabanara, sede do executivo estadual.

 

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